quarta-feira, 24 de maio de 2017

Peregrinação de Donald Trump (1) - Arábia Saudita


Trump está prestes a findar a peregrinação a três territórios referenciais de três religiões monoteístas, nas suas ramificações dominantes: (a) islamismo / sunismo; (b) judaísmo / sionismo laico ou liberal; (c) cristianismo / catolicismo.
Trata-se de uma viagem de sentido religioso eclético apenas na aparência. Também não é uma digressão pela paz, a tolerância, a liberdade e a solidariedade universal, como é exigível a um líder dos EUA.
No fundo, os objectivos do perigoso, arrogante e ridículo presidente norte-americano consistiram em vender armas, no valor de 110.000 milhões de USD (cerca de 98.000 milhões de Euros), à Arábia Saudita sunita; em reforçar os laços políticos com Israel e consequente suporte aos negócios da filha Ivanka, agora judia, e do genro judeu, Kushner. Por último, foi ao Vaticano, em visita breve e fria, acenar um cínico ‘hello!’ aos católicos, membros de outras confissões e agnósticos do mundo que admiram o Papa Francisco.
A digressão ter sido iniciada na Arábia Saudita não foi obra de mero acaso. Houve um efeito imediato de sucesso: o negócio de 110.000 milhões de USD é acontecimento de vulto, mesmo para uma potência exportadora de armas como os EUA.
Trump brilhou. Discursou e exibiu-se com a vaidade e a superficialidade habituais, perante cerca de 50 estadistas muçulmanos, entre os quais os Reis da Jordânia e de Marrocos, Chefes de Estado do Egipto, da Tunísia, da Argélia, do Níger e de dirigentes iemenitas e de outras paragens, de África à Ásia. Trump brilhou naquela sala, cheia de autocratas, por quem o presidente norte-americana tem desvelado amor. “In the fact, he is a lover… he loves this.”, gracejou um enviado de uma estação televisiva dos EUA. De tão satisfeito, como o vídeo mostra, Donald J. Trump até dançou em público com os amigos sauditas.
No capítulo mais sério para a humanidade, a venda de armas e o suporte aos sunitas da Arábia Saudita devem considerar-se questões inquietantes. O negócio de armamento, em consonância com o objectivo de sobreviver e prosperar, necessita do confronto e quanto maior, melhor.
Ao fomentar a histórica divisão entre sunitas e xiitas e criticar a acção de Obama no sentido da limitação do Irão (xiita) no desenvolvimento e uso de armas nucleares, Trump está nitidamente a promover as hostilidades entre os dois principais ramos do islamismo no mundo, com repercussões graves para os povos do ocidente, alvos dos ataques do terrorismo dos radicais islâmicos, como o DAESH, a Al-Qaeda e outros sob a designação de milícias.
Além de Bin Laden, saudita e sunita, que Obama eliminou, outros protagonistas e os actos de terrorismo recorrentes provam ser redutora a segmentação entre xiitas e sunitas, como se tratem de maus e bons. É errada dicotomia usada em nome da pacificação do mundo. Ainda nas investigações do recente e repugnante atentado de Manchester, o suicida criminoso, conectado com a Ansar-al-Sharia (Líbia), de nome Salman Abedi, ao ser identificado como membro da milícia salafista líbia, afecta ao sunismo, é prova real de que os EUA e o Mundo, entre uns e outros, não devem privilegiar qualquer deles. O foco do combate deverá ser o radicalismo islâmico, independentemente do ramo religioso a que esteja vinculado.
Trump inclina-se para a sunita Arábia Saudita não em nome da paz e dos supremos interesses da sã convivência universal das sociedades humanas. Mas, na insaciável busca do dinheiro e do uso da indústria de armamento norte-americana e da construção de obras públicas para, através de equipamentos militares e muros invisíveis e visíveis, dividir povos e criar os empregos nos fabricantes de equipamentos de guerra e nos grandes construtores; empregos esses prometidos na campanha eleitoral, mas que tardam em concretizar-se. 
Contratos assinados, Trump partiu feliz para Israel e deu um salto a Belém.