quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Coligação muito afectuosa

Nem é preciso ler esta notícia do ‘Público’.  A fotografia é elucidativa. Trata-se de uma paixão política profunda. Um olha para o tecto, outro sabe-se lá para quem. É, por este par coligado com cola 'Duratex' que o povo português é desgovernado.
Dois actores de talento. Imaginam-se candidatos aos ‘Óscares’. Em Hollywood, na próxima edição, Brad Pitt, Dicaprio, Johnny Deep, Tom Hanks, Tom Cruise estão vencidos à partida. O prémio será atribuído ex-áqueo a Coelho, a provar queijo da Ilha de São Jorge, e a Portas, a saborear tequila.
Ironicamente ou não, nós é que nos lixamos com as actuações destes dois actores, embora Scorcese tenha garantido fazer terminar o filme da ‘Reforma do Estado’, com ambos afastados do poder. Que melhor reforma poderíamos ter? O Aníbal é que terá, de certeza, um ataque de azia. Problema para a Maria.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Deflação e outras ameaças à economia da UE e Zona Euro

Barroso chegou ao fim. Dez anos de funcionalismo oxidado na UE. O apego ao lugar, e naturalmente aos benefícios, levou-o à intragável posição de subserviência a poderosos directórios europeus – as obrigações do cargo, lembre-se, exigiam neutralidade e a defesa do interesse comum dos países da União.
Começaram por ser 15 no início do mandato. Aumentaram para 28, sob cedência cruel e humilhante aos interesses dos mais fortes, em especial da Alemanha. Os objectivos dos germânicos na exploração dos mercados do Leste, libertos pelo desmantelamento da União Soviética, constituíram reais oportunidades do expansionismo da indústria alemã, a montante e a jusante, de valor económico considerável.
Com recurso a contrastes, é inimaginável pensar que Jacques Delors cederia perante tais interesses. Todavia, Barroso, um ‘pau mandado’ segundo Miguel Sousa Tavares, com quem concordo, não passou daquilo que no funcionalismo há de mais reles: a subserviência a directórios, o primeiro composto pelo duo Merkel e Sarkozy e, em fase posterior, no papel de títere do poder germânico, de Merkel e Schäuble.
O herdeiro, Jean-Claude Juncker, nas aparências, esforçou-se, perante o PE e dirigentes da UE, por se destacar do antecessor e do passado. Todavia, sem necessidade de análise e reflexão refinadas, até ao momento é impossível concluir que programa e pragmatismo o luxemburguês aplicará para solucionar o estado calamitoso, desconforme e sem coesão em que Barroso, a mando da Alemanha e aliados, deixou a UE. Ou seja, abandonou a Zona Euro no caminho directo e célere para a deflação, a qual, a prosseguir ao ritmo registado no último ano, corresponderá ao trajecto para uma crise que só encontra paralelo na grande de depressão dos anos 30 do século passado. A consumar-se, por inércia, este cenário, o colapso do euro será inevitável.
Mário Draghi, a despeito de algumas críticas que lhe possam ser feitas, tem-se batido por compromissos e soluções para defesa da moeda única. Todavia, com a insistência da Alemanha em modelos de austeridade e a recusa de atribuir ao BCE o papel de credor de último recurso, ou da capacidade de estimular a economia através da compra directa de títulos de dívida soberana (programa semelhante ao ‘quantitative easing’ dos EUA), a economia europeia, geradora de um quinto da produção mundial, estará inevitavelmente condenada à estagnação e à deflação.
Outros problemas, o desemprego jovem com taxas acima dos 35% em diversos Estados-Membros, incluindo Portugal, levarão o ‘Velho Continente’ a atravessar, uma vez mais, uma fase negra da sua História – duas grandes guerras no Séc. XX, na segunda das quais os alemães se livraram perdoados e beneficiados, parecem, inacreditavelmente, não constituir motivo suficientemente forte para uma reflexão do Centro-Norte da Europa sobre a solidariedade, a consecução da coesão social e do projecto de tranquilidade e convivência pacífica entre povos; povos estes de diferenças culturais óbvias, mas de interesse comum na justiça do bem-estar colectivo que o mundo actual, mesmo e sobretudo pela globalização, lhes deveria garantir.
A continuar submetidos às políticas actuais, o insucesso é inevitável. Tenho fundadas  dúvidas de que, sem medidas ultra-reformistas, diria mesmo revolucionárias, e a adesão da Alemanha a um projecto solidário, Juncker consiga conciliar e fazer cumprir políticas de disciplina orçamental, a solução de altas dívidas públicas, a redução do elevadíssimo desemprego e a eliminação de outras discriminações e causas económico-sociais e financeiras complexas.
O mais provável é dentro de algum tempo os europeus, da Zona Euro ou mais dilatadamente da UE, estarem confrontados com a gangrena da deflação e o alastramento da pobreza e da miséria. Diz a CE, nas palavras de Juncker:
Oremos! Como recomendaria o pároco da aldeia.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Um cientista de mérito e péssimo ministro

O ‘Público’, sob o titulo ‘O Ministro no seu Labirinto’, divulga em pormenor a vida de Nuno Crato. Quase desde os tempos de berço. Trata-se praticamente de uma biografia do matemático, estatístico e astrónomo, e também do político, que Pedro Passos Coelho, o PM das calinadas e ofensas reles, escolheu para Ministro da Educação.
Diga-se que, no acto do anúncio da formação do governo, me pareceu uma escolha acertada. Usufruía do prestígio de professor dos quadros do ISEG-Instituto Superior de Economia e Gestão. Os livros e escritos sobre o ‘eduquês’, pelas fundamentações e ideias expostas, reforçaram a minha expectativa: num governo chefiado e composto por um PM e uma fracção significativa de ministros e secretários de Estado sem qualidade; ao menos, o ensino ficaria em mãos competentes, pensava eu. O episódio Crato versus Relvas, culminado com o afastamento deste último, ratificou a minha opinião.
O homem, afinal, desiludiu-me profundamente. A mim e creio que à estrondosa maioria dos cidadãos, onde não se incluem, é claro, o José Manuel Fernandes e a Helena Matos. Estes, nas tradições da cultura religiosa baiana, crêem profundamente que Crato foi alvo de maldição de candomblé. Omolú, o mais temível dos orixás, executou a imprecação: “Não te deixo ser bom ministro e tens de ficar até ao fim do mandato a sofrer a humilhação da incompetência.”
Orixás à parte, quem tenha um pedaço de bom senso, residual que seja, é natural que fique perplexo com a continuidade de Nuno Crato como ministro. O pedido de demissão irrevogável – sim, desta feita mesmo irrevogável – teria sido, desde há muito, o desfecho mais lógico. Assim, entendesse ele que o Ministro é o único responsável por tudo quanto ocorre nas políticas essenciais do ministério que tutela. Pode delegar funções, mas jamais se furta da responsabilidade de quem lidera.
E mais a mais, todo este arrastado processo de colocação de professores, nunca visto em tempos anteriores, prossegue, sem que Crato revele uma ponta de pudor. Ainda estão por atribuir 300 horários nas escolas, segundo o ‘Expresso’. Todavia, nem há a demissão do ministro nem haverá uma forma mágica de eliminar os efeitos nocivos para milhares de alunos. Irremediavelmente terão um ano lectivo decepado e de baixíssimo proveito na aquisição de conhecimentos. Porventura, em muitos casos, com repercussões nefastas no futuro. Sem aulas, o ensino está paralisado. Quem é o responsável? Crato obviamente, embora as culpas se possam distribuir por elementos da equipa por si dirigida.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vitória de DILMA e 16 anos do PT na Presidência do Brasil

DILMA REELEITA

O acto eleitoral visou a escolha do Presidente da República do Brasil para um mandato de 4 anos. Com 99,86% dos votos contados, o desfecho, favorável a Dilma Roussef, registou os seguintes valores:


Sem se afastar das previsões das últimas sondagens publicadas pelo jornal ‘Folha de São Paulo’, a vantagem de Dilma situou-se na ordem dos 3,28%. Trata-se de uma margem limitada. No fundo, a reflectir um Brasil dividido em duas partes iguais.
Nos últimos tempos, Dilma sentiu a política do PT na Presidência muito contestada nas ruas, em especial em São Paulo – a estrondosa derrota na capital económica do Brasil é sintomática. 
Terá de ser determinada na mudança de estilo e de alguns companheiros nada aconselháveis em cargos e gabinetes da presidência. Ser-lhe-á exigível aprofundar as políticas sociais dirigidas ao avanço do programa de erradicação de pobreza e melhoria das condições de vida da classe média. Terá igualmente de demarcar-se com clareza dos escândalos de corrupção, caso da Petrobras e outros, demonstrando não ser minimamente conivente com atentados contra o interesse nacional.
Dilma, creio, tem condições para trilhar estes caminhos e triunfar. A oportunidade de desmistificar e contra-atacar o torpe ataque da revista ‘Veja’, se aproveitada, levará o povo brasileiro, em mais vasta maioria do que na votação, a apoiar o próximo e último mandato de  Dilma que, forçosamente, impõe a colaboração de governantes probos e de qualidade político-profissional inquestionável.
De facto, somente uma política rigorosa, paradigmática e de um Estado capaz de intervir em benefício dos mais desfavorecidos saberá silenciar os “Aécios” e outros eventuais ‘bons vivants’ que, por cá, também existem e têm as suas ‘santanetes’ e os mimetistas desse estilo social.
Uma nota final: o Cunha do ‘Blasfémias’ divertiu-se ao descobrir que determinado jornal usara uma “versão margarina para barrar das eleições brasileiras” (sic). Através da vitória de Dilma, espero que, com Becel, Planta ou Vaqueiro, o Cunha tenha aprendido que “há barrar e barrar, há rir e amuar” (Obrigado, Alexandre O’Neill).



sábado, 25 de outubro de 2014

Sim Tom, Chega de Saudade

Sinto saudades de tempos idos que sou incapaz de decifrar. Esta amarga dor na alma jamais se me acalma. São águas passadas, mas quais? Nem sei se aquelas que, entre pedras e verdes musgos, saltitavam alegres e límpidas na ribeira, onde me divertia em criança. Ou de outras, agrestes, de enxurradas inclementes com que encharcado me alegrava ingenuamente, nas cinzentas tardes do regresso da escola. 
Não sei o significado. E porque as sinto longe, longe, e me desassossegam o espírito, imploro que deixem de me inquietar, Uso como prece a doce melodia 'Chega de Saudade' do imortal Tom Jobim:

video
Obrigado Tom!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A denúncia cortante do ‘Der Spiegel’

Os jornalistas domésticos, deste pequeno rectângulo, dedicam-se, na escrita, a um entretinimento de míopes e interesseiros. Raramente ultrapassam figuras e episódios de âmbito nacional, em textos críticos ou laudatórios em função de benefícios próprios, sectarismos e promiscuidades a que estão vinculados. Claro que este diagnóstico não tem dimensão totalitária, mas o objecto é suficientemente prevalecente, para o sentirmos chocante.
Da falta de ética, a par de outras, no desempenho de cargos políticos, eis dois parágrafos extraídos do jornal ‘Público’ de hoje:
e
Em contraste, no ‘Der Spiegel’, em denúncia cortante do capitalismo actual, e reflectindo uma visão ampla, global, que a maioria dos nossos jornalistas, míopes e enviesados, se revela incapaz sequer de vislumbrar, é possível ler o seguinte artigo:
“O Sistema Zombie: como o capitalismo tem saído fora dos trilhos
Seis anos após o desastre do Lehman, o mundo industrializado está a sofrer da síndrome do Japão. Crescimento é mínimo, um outro acidente pode ser uma cerveja e o fosso entre ricos e pobres continua a aumentar. A economia global pode ser reinventada?
Um novo chavão está a circular nos centros de convenções e auditórios do mundo. Pode ser ouvida no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça e na reunião anual do Fundo Monetário Internacional. Banqueiros polvilham-no nas apresentações; políticos usam-no para deixar uma impressão em painéis de discussão.
O termo está agora mesmo a ser usado em reuniões de carácter mais exclusivo, como foi o caso em Londres em Maio. Alguns 250 ricos e mesmo indivíduos extremamente ricos, do Presidente do Google Eric Schmidt ao CEO da Unilever Paul Polman, reuniram-se num Castelo Venerado no Rio Tamisa, a lamentar o facto de, no capitalismo de hoje, haver muito pouco para a esquerda diminuta e para as classes de rendimentos mais baixos. O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, denunciou falhas com a “distribuição desigual de oportunidades,” enquanto a Directora Geral do FMI, Christine Lagarde, foi crítica em relação aos numerosos escândalos financeiros. A anfitriã da reunião, investidora e herdeira de banco Lynn Forester de Rothschild, disse que estava preocupada com a coesão social, constatando que os cidadãos tinham “perdido a confiança nos seus governos.”
[…]
Esta é apenas uma tradução parcial. Quem pretender completar a leitura, pode aceder a este ‘site’.
Sabemos que, das individualidades citadas no texto, algumas são contraditórias entre a acção e as ideias que dizem defender. Christine Lagarde é um caso flagrante, a meu ver. Mas fica registado que a desigualdade na distribuição dos rendimentos, na actualidade, é também considerada como factor de destruição do sistema capitalismo da pós-modernidade, no parecer de alguns dos mais ricos do mundo.

O País está borrado de medo!

Passos Coelho barricou-se no comando do PSD – e por enquanto também no do País. Segundo o jornal ‘Sol’ não se inibiu de disparar ameaças para dentro e para fora do partido:
Confesso ter ficado borrado de medo com o tom ameaçador do tirano (*) de Massamá, fundador da ONG, Centro Português para a Cooperação (CPPC), administrador da Tecnoforma e das sociedades do afável companheiro Correia. Homem e político de vida límpida, segundo os acólitos.
Saturado das crueldades e das injustiças sociais de um ex-jota sem palavra, carácter e escrúpulos – e pelos vistos sem os papéis, no Ministério de Mota Soares, da tal CPPC de que recebeu dinheiro reembolsado e embolsado (quanto não se sabe!) – além de mim, muitos outros cidadãos devem estar ‘borrados de medo’ com o tom ameaçador do cavalheiro.
Custa perceber a Passos que, na Europa de hoje de Democracias e regimes pluripartidários, o poder, uma vez negado pelo voto, tem hipóteses diminutas de reconquista. Se a violência é meio difícil, igualmente é complexo captar o poder pelo voto de gerações massivas de desempregados, de jovens sem perspectiva de vida salvo a de emigrar, reformados e pensionistas espoliados, e mais de dois milhões de pobres, todos aqueles a quem os políticos desiludem.
Sei, todos sabemos, que a Zona Euro atravessa aguda crise do ponto de vista económico e social, e até político; mas, em Portugal, dificilmente será este o homenzinho capaz de capturar o País através da imposição de um regime autoritário. Não o imagino a comandar um assalto ao Palácio de Belém, ou mesmo a São Bento, organizado num batalhão e diversos pelotões comandados por Marco António Costa, Teresa Leal Coelho, Maria Luís Albuquerque, Luís Montenegro e outros. Todos a envergar uniformes militares, capacetes de guerra e armas em punho.
“Vou estar aqui”, diz ele. No café e a comprar o jornal em Massamá ou de charriot no ‘Continente’ da Amadora, digo eu. E para que a vidinha assim lhe corra, contará com uma correia amiga que o atrelará a um “tacho” bem remunerado.

(Adenda: Tirano (*) = s.m. Indivíduo que se apodera do poder soberano de um Estado (país ou nação). Aquele que governa de maneira injusta e cruel, colocando sua vontade e sua autoridade acima das leis e da justiça.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Solos sem solfejos

Arrumei a viola a um canto, convicto de que seria por tempo escasso. Todavia, a previsão falhou. Os segundos, os minutos, as horas e os dias correram incessantes e longos sem dedilhar um dó, um ré, um fá ou qualquer outra nota. Em tom grave ou agudo. Igualmente jamais entoei uma balada ou melodia, em escala maior ou menor, durante extenso período.
Os solos, vibrados pela viola ou desafinados pela voz, esvaziaram-se, portanto, de solfejos. Outras composições musicais, pesadas sinfonias da vida, condicionaram os movimentos e o canto. Compromissos familiares e profissionais soaram com fragor sinfónico absolutista.
E, durante a vigorosa sinfonia, tantos temas desprezados para os meus desabafos a solo: o PM, de ar de crescente autoritarismo, crispado e às vezes bronco na linguagem. Sempre desrespeitoso em relação aos cidadãos. As asneiradas de Paula Teixeira da Cruz e as trapalhadas do matemático Crato – o notável cientista, presumido sabedor do teorema fundamental da álgebra, do teorema do isomorfismo de Noether e de muitos outros a que se acrescem as teorias de Galois ou do Lema de Gauss, revela-se incapaz de solucionar a equação elementar de determinar quantos professores são necessários para leccionar nas escolas públicas; as quais, também por iniciativa dele e da antecessora, nos limitam a um sórdido parque escolar a que o País ficou condenado, de muitas escolas encerradas e em decadência.
Há outras matérias para as minhas populares ‘cantatas’: o OGE 2015 da amanuense Albuquerque. Acima de tudo, é uma farsa eleitoralista, como o classificou Helena Garrido – estou a citar a directora do ‘Jornal de Negócios’, e não Jerónimo de Sousa ou o João Semedo.
Todo este estendal de roupa esfarrapada e encardida escapou às rotinas dos meus ‘solos’. São oportunidades perdidas, mas que espero ver ressarcidas… desde que a vida me deixe.