quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Deflação e outras ameaças à economia da UE e Zona Euro

Barroso chegou ao fim. Dez anos de funcionalismo oxidado na UE. O apego ao lugar, e naturalmente aos benefícios, levou-o à intragável posição de subserviência a poderosos directórios europeus – as obrigações do cargo, lembre-se, exigiam neutralidade e a defesa do interesse comum dos países da União.
Começaram por ser 15 no início do mandato. Aumentaram para 28, sob cedência cruel e humilhante aos interesses dos mais fortes, em especial da Alemanha. Os objectivos dos germânicos na exploração dos mercados do Leste, libertos pelo desmantelamento da União Soviética, constituíram reais oportunidades do expansionismo da indústria alemã, a montante e a jusante, de valor económico considerável.
Com recurso a contrastes, é inimaginável pensar que Jacques Delors cederia perante tais interesses. Todavia, Barroso, um ‘pau mandado’ segundo Miguel Sousa Tavares, com quem concordo, não passou daquilo que no funcionalismo há de mais reles: a subserviência a directórios, o primeiro composto pelo duo Merkel e Sarkozy e, em fase posterior, no papel de títere do poder germânico, de Merkel e Schäuble.
O herdeiro, Jean-Claude Juncker, nas aparências, esforçou-se, perante o PE e dirigentes da UE, por se destacar do antecessor e do passado. Todavia, sem necessidade de análise e reflexão refinadas, até ao momento é impossível concluir que programa e pragmatismo o luxemburguês aplicará para solucionar o estado calamitoso, desconforme e sem coesão em que Barroso, a mando da Alemanha e aliados, deixou a UE. Ou seja, abandonou a Zona Euro no caminho directo e célere para a deflação, a qual, a prosseguir ao ritmo registado no último ano, corresponderá ao trajecto para uma crise que só encontra paralelo na grande de depressão dos anos 30 do século passado. A consumar-se, por inércia, este cenário, o colapso do euro será inevitável.
Mário Draghi, a despeito de algumas críticas que lhe possam ser feitas, tem-se batido por compromissos e soluções para defesa da moeda única. Todavia, com a insistência da Alemanha em modelos de austeridade e a recusa de atribuir ao BCE o papel de credor de último recurso, ou da capacidade de estimular a economia através da compra directa de títulos de dívida soberana (programa semelhante ao ‘quantitative easing’ dos EUA), a economia europeia, geradora de um quinto da produção mundial, estará inevitavelmente condenada à estagnação e à deflação.
Outros problemas, o desemprego jovem com taxas acima dos 35% em diversos Estados-Membros, incluindo Portugal, levarão o ‘Velho Continente’ a atravessar, uma vez mais, uma fase negra da sua História – duas grandes guerras no Séc. XX, na segunda das quais os alemães se livraram perdoados e beneficiados, parecem, inacreditavelmente, não constituir motivo suficientemente forte para uma reflexão do Centro-Norte da Europa sobre a solidariedade, a consecução da coesão social e do projecto de tranquilidade e convivência pacífica entre povos; povos estes de diferenças culturais óbvias, mas de interesse comum na justiça do bem-estar colectivo que o mundo actual, mesmo e sobretudo pela globalização, lhes deveria garantir.
A continuar submetidos às políticas actuais, o insucesso é inevitável. Tenho fundadas  dúvidas de que, sem medidas ultra-reformistas, diria mesmo revolucionárias, e a adesão da Alemanha a um projecto solidário, Juncker consiga conciliar e fazer cumprir políticas de disciplina orçamental, a solução de altas dívidas públicas, a redução do elevadíssimo desemprego e a eliminação de outras discriminações e causas económico-sociais e financeiras complexas.
O mais provável é dentro de algum tempo os europeus, da Zona Euro ou mais dilatadamente da UE, estarem confrontados com a gangrena da deflação e o alastramento da pobreza e da miséria. Diz a CE, nas palavras de Juncker:
Oremos! Como recomendaria o pároco da aldeia.