domingo, 28 de maio de 2017

Peregrinação de Donald Trump (3) – Vaticano


O Papa Francisco, Sumo Pontífice católico (ICAR), recebeu no Vaticano o presidente Donald Trump, assumido presbiteriano. No âmbito da ‘Reforma’ e da contestação a Roma, a Igreja Presbiteriana funda-se na teoria doutrinal de Calvino (1509-1564), vertida no livro, em latim, ‘Institutas Christianae Religiones’. Com Genebra considerada a Roma do protestantismo, e em obediência à teologia calvinista, a instauração da Igreja Presbiteriana em países europeus adoptou um regime bastante austero. Ora, Trump, como cidadão, empresário e político, é justamente o inverso do austero. Demonstra, clara e insistentemente, não ser homem sóbrio, rígido  e coerente em opiniões e comportamentos.
Entre o Papa Francisco e Donald, a despeito dos caminhos do cristianismo que os diferencia, as divergências de maior vulto são de ordem política e ideológica. A religião está menorizada na discordância. 
Há um exemplo significativo da ideia que acabamos de expressar; o estratega Stephen K. Bannon, nacionalista radical e católico, segundo o ‘The New York’ (17.º parágrafo), recusou ir ao Vaticano, argumentando que o Papa Francisco é socialista, elitista global e promotor da migração de muçulmanos em direcção à Europa.
A oposição pública e agressiva de Donald Trump ao Papa Francisco iniciou-se em 2013, ano da nomeação do Sumo Pontífice e muito antes das eleições e tomada de posse do actual presidente dos EUA.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Peregrinação de Donald Trump (2) – Israel

Saído da Arábia Saudita, o presidente norte-americano e comitiva dirigiram-se para Israel. A visita ao Estado Judaico é sempre imperativa para um PR dos EUA. Obama cumpriu essa regra, embora de forma fria e distante que imagens dele com Benjamin Netanyahu testemunham. Donald Trump também obedeceu à norma, mas fê-lo de forma calorosa.
A paz no Médio Oriente, em termos de espectáculo, também foi objecto de acto do ‘medíocre ilusionista’ Trump. Deslocou-se a Belém, reunindo com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana (AP). Em resumo, ficou-se pela simplista declaração de que é necessário um acordo de paz entre Israel e a AP. Antes do assassinato de Yitzhak Rabin, este mesmo, o falecido Arafat e Bill Clinton não lograram alcançar esse acordo em 1995. É difícil acreditar que Trump o atinja e até que esteja empenhado em promove-lo.
O que levou Donald Trump a Israel, no fundo, foi cumprir os desígnios da maioria da comunidade judaica nos EUA, reafirmar a oposição firme ao Irão (xiita) e, por fim e muito importante, satisfazer o ego e os interesses do genro, Jared Kushner, e da filha preferida, Ivanka, judia convertida por conveniência.
Há, com efeito, aspectos relevantes na vida de Kushner que levam a pensar que, nesta visita de Trump a Israel, outros desígnios predominaram, que não aqueles de extinguir a miséria extrema de milhões de refugiados palestinianos ou de uma solução de paz na região. 

Vamos a factos!
  1. A família e o próprio Kushner são amigos de longa data de Benjamin Netanyahu. O PM israelita acompanhou o marido de Ivanka Trump, quando ele tinha dezassete anos, em viagem de jovens judeus a Auschwitz. Amigo do pai, Netanyahu pernoitou na casa da família e dormiu na cama de Jared Kushner. Ora, quando os laços de amizade são tão intensos, não me parece provável que Trump leve Netanyahu, homem do renascimento sionista, a negociar a paz com a AP. Para cúmulo das impossibilidades ou dificuldades de negociação, os palestinianos pretendem a retirada dos israelitas dos territórios ocupados após a guerra de 1967, bem como o desmantelamento de colonatos que registaram um incremento intenso nos últimos anos. Kushner apoiou financeiramente esta expansão. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Peregrinação de Donald Trump (1) - Arábia Saudita


Trump está prestes a findar a peregrinação a três territórios referenciais de três religiões monoteístas, nas suas ramificações dominantes: (a) islamismo / sunismo; (b) judaísmo / sionismo laico ou liberal; (c) cristianismo / catolicismo.
Trata-se de uma viagem de sentido religioso eclético apenas na aparência. Também não é uma digressão pela paz, a tolerância, a liberdade e a solidariedade universal, como é exigível a um líder dos EUA.
No fundo, os objectivos do perigoso, arrogante e ridículo presidente norte-americano consistiram em vender armas, no valor de 110.000 milhões de USD (cerca de 98.000 milhões de Euros), à Arábia Saudita sunita; em reforçar os laços políticos com Israel e consequente suporte aos negócios da filha Ivanka, agora judia, e do genro judeu, Kushner. Por último, foi ao Vaticano, em visita breve e fria, acenar um cínico ‘hello!’ aos católicos, membros de outras confissões e agnósticos do mundo que admiram o Papa Francisco.
A digressão ter sido iniciada na Arábia Saudita não foi obra de mero acaso. Houve um efeito imediato de sucesso: o negócio de 110.000 milhões de USD é acontecimento de vulto, mesmo para uma potência exportadora de armas como os EUA.
Trump brilhou. Discursou e exibiu-se com a vaidade e a superficialidade habituais, perante cerca de 50 estadistas muçulmanos, entre os quais os Reis da Jordânia e de Marrocos, Chefes de Estado do Egipto, da Tunísia, da Argélia, do Níger e de dirigentes iemenitas e de outras paragens, de África à Ásia. Trump brilhou naquela sala, cheia de autocratas, por quem o presidente norte-americana tem desvelado amor. “In the fact, he is a lover… he loves this.”, gracejou um enviado de uma estação televisiva dos EUA. De tão satisfeito, como o vídeo mostra, Donald J. Trump até dançou em público com os amigos sauditas.
No capítulo mais sério para a humanidade, a venda de armas e o suporte aos sunitas da Arábia Saudita devem considerar-se questões inquietantes. O negócio de armamento, em consonância com o objectivo de sobreviver e prosperar, necessita do confronto e quanto maior, melhor.
Ao fomentar a histórica divisão entre sunitas e xiitas e criticar a acção de Obama no sentido da limitação do Irão (xiita) no desenvolvimento e uso de armas nucleares, Trump está nitidamente a promover as hostilidades entre os dois principais ramos do islamismo no mundo, com repercussões graves para os povos do ocidente, alvos dos ataques do terrorismo dos radicais islâmicos, como o DAESH, a Al-Qaeda e outros sob a designação de milícias.
Além de Bin Laden, saudita e sunita, que Obama eliminou, outros protagonistas e os actos de terrorismo recorrentes provam ser redutora a segmentação entre xiitas e sunitas, como se tratem de maus e bons. É errada dicotomia usada em nome da pacificação do mundo. Ainda nas investigações do recente e repugnante atentado de Manchester, o suicida criminoso, conectado com a Ansar-al-Sharia (Líbia), de nome Salman Abedi, ao ser identificado como membro da milícia salafista líbia, afecta ao sunismo, é prova real de que os EUA e o Mundo, entre uns e outros, não devem privilegiar qualquer deles. O foco do combate deverá ser o radicalismo islâmico, independentemente do ramo religioso a que esteja vinculado.
Trump inclina-se para a sunita Arábia Saudita não em nome da paz e dos supremos interesses da sã convivência universal das sociedades humanas. Mas, na insaciável busca do dinheiro e do uso da indústria de armamento norte-americana e da construção de obras públicas para, através de equipamentos militares e muros invisíveis e visíveis, dividir povos e criar os empregos nos fabricantes de equipamentos de guerra e nos grandes construtores; empregos esses prometidos na campanha eleitoral, mas que tardam em concretizar-se. 
Contratos assinados, Trump partiu feliz para Israel e deu um salto a Belém.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Melania sacode a mão de Trump, em Telavive


À chegada do 'Air Force One', esta 2.ª feira, Donald Trump foi humilhado por Melania, em plena 'passadeira vermelha', no aeroporto de Telavive. Trump pretendeu que a sua mulher lhe desse a mão. Melania, afastou ostensivamente a mão do marido.
A cena está a ser objecto de divulgação intensa pela comunicação social de diversos países, incluindo Portugal. Contudo, uma das mais divertidas apresentações ocorreu no histórico 'talk show' da ABC, cadeia televisiva dos EUA. 
Das quatro participantes no programa, três foram apanhadas de surpresa pela figura do casal Trump e uma destas últimas afirma: "Qualquer mulher sabe o que isto significa" - pelo menos mandar Trump à trampa, digo eu. 
Atitude vexatória, mas Trump merece-a inteiramente e até muito, muito pior do que aquilo a que se assiste no vídeo.
Vamos esperar para ver como se comporta o casal presidencial no Vaticano, na visita ao Papa Francisco. God bless you!, Melania.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A sorte da Lituânia e o azar de Portugal

João Vieira Pereira (JVP), Director-adjunto do jornal “Expresso”, publicou na edição ‘online’ do “Expresso Diário”, um artigo sob o título “Sorte? Sorte têm os lituanos”.
JVP é um jornalista conhecedor das regras deontológicas da profissão, nomeadamente a objectividade, a imparcialidade e a ética na missão de avaliar, informar e comentar – ainda hoje no “Expresso Curto” crítica, duramente e bem, a abjecta divulgação de um vídeo pelo “Correio da Manhã” de uma alegada violação de uma jovem num autocarro do Porto.
O conhecimento das citadas regras e dos deveres do jornalismo, no caso de JVP, constitui uma razão acrescida para, no comentário do desempenho económico governativo ou de qualquer outro tema, afastar do que escreve o ressabiar, a mesquinhez e a falta de rigor com que trata António Costa. Criticar com fundamento é uma coisa, atacar com superficialidade e má-fé é outra, bem distinta e condenável.
De entrada, JVP reconhece que António Costa é um “político exímio”. Todavia, logo acrescenta que, conquistada a esquerda para as políticas de direita, Costa “está a colher frutos de uma estratégia que não é a sua”. Impõe-se perguntar: então de quem é? Como a oposição de direita ao actual governo tem uma devoção por figuras transcendentais, em que JVP se revê, admitamos que é Lúcifer o autor da estratégia.
Com aviltante simplismo, e baseando-se no facto de Portugal ter tido um acréscimo do PIB de “apenas” 2,8% no 1.º trimestre de 2017, considerando o período homólogo de 2016, e a Lituânia 4,1%, JVP escreve:
“[…] estamos mais próximos do bem-estar da Roménia ou da Bulgária do que dos países com os quais nos costumávamos comparar. Este ano é a vez de a Lituânia nos dizer adeus.”
Concluir isto através do PIB de um trimestre é demasiado redutor e, digo-o sem receio, intelectualmente desonesto. Comparemos somente alguns dados demográficos e macroeconómicos de um e de outro país:

População
Portugal: 10.265.566
Lituânia:   2.786.187

Salário Mínimo Nacional (2015)
Portugal: 589,17 Euros
Lituânia: 300,00 Euros
Fonte: Eurostat

PIB (2016)
Portugal: 205.860 mM de USD
Lituânia:   42.780 mM de USD
Fonte: FMI

Taxa de Desemprego (2016):
Portugal: 11,2%
Lituânia:   7,8%

O desemprego na Lituânia está, de facto, abaixo do nível percentual de Portugal. Todavia, é preciso sublinhar que, depois da adesão à UE em 2004, o país báltico, desde 2007, registou uma diminuição da população de cerca de 17,3% (-582.813 cidadãos residentes), por efeito da forte emigração para destinos da UE em 9 anos. Portugal, no mesmo período, teve um decréscimo de 2,60% (-274.340 cidadãos residentes).
Quanto ao crescimento do PIB da Lituânia, e tendo em conta a adesão à UE em 2004, nas causas desse aumento encontrar-se-á certamente o investimento público auxiliado por fundos europeus, fenómeno que em Portugal se registou nos tempos de Cavaco Silva e António Guterres e que, para o caso, não é despiciendo. Igualmente não é desprezível a posição da Lituânia como destino de indústrias deslocalizadas a partir de países de custos de mão-de-obra mais elevados, nem as multi fronteiras com a Bielorrússia, a Letónia, a Polónia e a Rússia - Portugal tem Espanha e o Mar.
Comparar países apenas através do PIB, sem atender a outros factores, é um erro, demasiado grave se propositado.



sábado, 22 de abril de 2017

O imundo futebol

No mundo, mas na Europa em especial, o futebol tornou-se em desporto (?) imundo. Empresários, jogadores e grandes clubes são actores dessa indústria do ‘pontapé na bola’. Vergonhoso e ofensivo para milhões de crianças, mulheres e homens que padecem de fome e de falta de paz a nível global.
Na última noite, como milhões de outros cidadãos portugueses, às 2h40m da madrugada dormia tranquilamente. Porém, a essa mesma hora, um monte de energúmenos, vestidos por fora e por dentro de verde ou vermelho, confrontavam-se em agressões e desacatos, nas cercanias do Estádio da Luz. Resultado: um morto, de nacionalidade italiana, adepto do Sporting e militante férreo de uma claque da equipa do ‘Florentina’, considerada a 2.ª mais violenta de Itália.
Que nojo!, como diz o meu neto. Todavia, a crispação e a violência são o produto natural da péssima qualidade, como homens e cidadãos, dos dirigentes de clubes de futebol, com destaque para odiosos presidentes dos grandes clubes. Os “madureiras” andam por todo lado, actuando impunemente no Porto ou em Lisboa, cidades residenciais dos citados três grandes, mas muito, muito minúsculos em termos de dimensão humanista ou meramente desportiva.
A comunicação social, em especial os principais canais televisivos, também disputam, com os nefastos dirigentes, o patrocínio do vandalismo à volta do futebol, com programas semanais, de horas e mais horas, em que semianalfabetos, ou pouco mais do que isso, exprimem o incitamento ao ódio de acéfalos espectadores. Ainda ontem, ao ligar a TV, cinco canais televisivos transmitiam em simultâneo as declarações de um treinador de futebol conhecido pela ignorância do Português, como língua. Que nojo!, repito!


O atentado em Paris e a inquietação dos democratas em França e no mundo

Investigações policiais à residência do terrorista Karim
O Daesh, como é notório, é forte aliado da extrema-direita e dos nacionalistas que, como sublinhei aqui, estão a proliferar com sucesso em diversos países do mundo.
Publicado antes de mais um abominável acto de terror na capital francesa, em que o assassino Karim Cheurfi, igualmente morto na ocorrência, tirou a vida a um agente policial nos Campos Elísios, inseri na citada mensagem o seguinte parágrafo:
A democracia francesa salvar-se-á do poder de uma nacionalista, xenófoba e antieuropeísta convicta, apenas porque o sistema eleitoral do País prevê uma 2.ª volta e, aí sim, o candidato vencedor será quem recolher mais do que 50% dos votos expressos – Macron, dizem também as sondagens, é considerado o favorito.
Hoje, de certeza, não exprimiria tal pensamento. O atentado cometido constituiu forte auxílio para as hostes da xenófoba Marine Le Pen. O seu partido, Frente Nacional, na imprensa em geral o em The New York Times em particular, ganhou um precioso alento através do terror. A D. Pen e acólitos, no íntimo, estão gratos pela desgraça. Agora, para seu contentamento, regista-se a subida para 25% de votantes indecisos, havendo 58% de eleitores dispostos a mudarem o sentido do voto.
Todavia, em relação à vaga direitista a que o mundo actual está submetido, é forçoso reconhecer igualmente o optimismo de Donald Trump no tocante aos benefícios de Marine Le Pen pelo criminoso acto que o Daesh reivindicou. Deve-se ter presente que a ‘Trump Tower’, em Nova Iorque, foi visitada com inefável afecto por Marine, dias após a vitória da nefasta figura nas eleições presidenciais dos EUA, em Novembro de 2016.
Esperemos, e a expectativa é mera consideração de fé, que a direita nacionalista e xenófoba saia derrotada em França, ainda que isso possa suceder na 2.ª volta. A Europa e o mundo carecem de paz, solidariedade e liberdade.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Música em estação ferroviária de Filadélfia


Orquestra, coro e grupo de dança da Companhia de Ópera de Filadélfia, em 2012, ofereceram, em sessão especial, a interpretação da mais popular das 24 peças musicais de 'Carmina Burana', de Carl Off. O cenário foi uma estação ferroviária de Filadélfia e o público gostou e participou.
As sessões de boa música em locais públicos constituem, de facto, iniciativas de promoção do gosto popular pela música de qualidade. 
Espero sinceramente que a CML, este ano, volte a realizar no Largo de São Carlos os programas de orquestras e canto, do género daqueles que ofereceu ao público lisboeta e turistas em 2016. Levar a música à rua e fazê-la sair das tradicionais salas de concertos são acções essenciais para a difusão da cultura musical, captando outros públicos que não sejam apenas aqueles que frequentam aqueles espaços.
Entretanto, e porque o fim-de-semana chegou, veja-se e escute-se o vídeo acima publicado. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O sucesso dos autocratas em regimes democráticos

No próximo fim-de-semana, terão lugar as eleições presidenciais em França, 1.ª volta. Segundo sondagens, Marine Le Pen tem a probabilidade de as vencer, o que, a suceder, constituirá um pesado revés para a pátria francesa, da fraternidade, da igualdade e da liberdade. 
A democracia francesa salvar-se-á do poder de uma nacionalista, xenófoba e anti-europeísta convicta, apenas porque o sistema eleitoral do País prevê uma 2.ª volta e, aí sim, o candidato vencedor será quem recolher mais do que 50% dos votos expressos – Macron, dizem também as sondagens, é considerado o favorito.
Parte substancial das super-estruturas da UE, se Macron ganhar, respirará de parcial alívio. A tranquilidade não será, pois, absoluta. Os nacionalismos tornaram-se endémicos na Europa, tendo vindo a ignorar-se, por exemplo, o comportamento da Hungria e da Polónia no sentido desse movimento. Igualmente absurdo será subestimar-se a representatividade que a extrema-direita (AfD) venha a obter nas próximas eleições na Alemanha – as sondagens atribuem-lhe um resultado à volta de 10%.
Todavia, se dispersado o olhar, o mundo e o assalto ao poder por populistas e nacionalistas autocratas, observamos que da endemia europeia passamos à epidemia mundial. Tivemos Chavez, e agora Nicolás Maduro, na Venezuela, a tortuosa ascensão ao poder de Temer no Brasil, a concentração de poderes alcançada por Putin na Rússia, a eleição do odioso Trump nos EUA e, como a maldição é, de facto, epidémica, no último fim-de-semana, a Turquia, através de pseudodemocrático referendo, atribuiu a Ergodan plenos poderes para governar, no seu estilo autoritário, o país de Mustafa Atatürk durante mais de uma década.
Os autocratas, através de campanhas e acções urdidas sem escrúpulos, estão a obter um sucesso paradoxal em estados democráticos. Conseguem-no no seio de regimes de liberdades, derrotando os defensores dos valores da livre expressão de opiniões, da convivência pacífica e universal, do respeito pela diferença de opções políticas, credos, nacionalidades e mesmo etnias.
Os riscos dos exacerbados e propagados nacionalismos, assim como o assalto ao poder por métodos sinuosos constituem um custo demasiado pesado da prodigalidade das democracias que, vítimas de tanta generosidade, acabam mitigadas ou mesmo, em certos casos, dizimadas.
Resta esperar um futuro melhor para o mundo e que a penosa onda de autocracia desfaleça. Todavia, as barreiras, as existentes e outras a caminho, desafiam a um papel activo e de combate por todas as mulheres e homens alinhados pelo culto e a veneração da democracia plena, substancial nos princípios e sólida nos objectivos.

terça-feira, 18 de abril de 2017

De Djerba à ‘Madrugada’ de Manuel Bandeira

Sinto saudades da Djerba, ilha de praia e mar quentes e de inesperados afectos. Recordo a luz solar intensa, em que parti naquela manhã a caminho de Tataouine, onde, no mercado da praça central, fruí de perfumes deveras exóticos e envolventes, de especiarias e legumes do Magrebe. Jamais os esquecerei.
No declínio solar, horas depois de Tataouine, avancei no Sahara, onde a noite imponente trucidou, com suavidade, o meu olhar. Estrelas em abundância, muitas delas, cadentes, desafiaram esse mesmo olhar, então deslumbrado. Da escuridão, vinda do céu estrelado e riscado, veio o sono. Adormeci em absoluta serenidade.
Que saudades do Sahara tunisino, que relembro nesta aldeia alentejana. Sob a negridão de noite quente do Alentejo do Alto, olho o céu igualmente estrelado e leio o poema ‘Madrugada’ de Manuel Bandeira, à luz trepidante de branca vela, iluminando o plácido tempo de me embalar:

Madrugada

As estrelas tremem no ar frio, no céu frio…
E no ar frio pinga, levíssima, a orvalhada.
Nem mais um ruído corta o silêncio da estrada,
Senão na ribanceira um vago murmúrio

Tudo dorme. Eu, no entanto, olho o espaço sombrio,
Pensando em ti, ó doce imagem adorada!...
As estrelas tremem no ar frio, no céu frio,
E no ar frio pingam as gotas da orvalhada…

E enquanto penso em ti, no meu sonho erradio,
Sentindo a dor atroz desta ânsia incontentada,
- Fora, aos beijos glaciais e cruéis da geada,
Tremem as flores, treme e foge, ondeando o rio,

E as estrelas tremem no ar frio, no céu frio…

As previsões do CFP ou da Dr.ª Teodora

O que é o CFP – Conselho de Finanças Públicas? A designação leva-nos a acreditar que se trata de um órgão colectivo. Todavia, ao ler e interpretar as notícias, da imprensa em geral e do ‘Jornal de Negócios’ em particular, sou conduzido á conclusão de se tratar de um organismo pessoal e intransmissível, tutelado por essa figura veterana, mas ainda assim nada respeitável, chamada Teodora Cardoso. E por culpa dela própria.
Independentemente da longa experiência profissional, que as funções no Banco de Portugal e a etiqueta do PS lhe proporcionaram, à Dr.ª Teodora é exigível que, à frente do culto da vaidade pessoal, coloque os interesses do País. Ou seja, se tiver dúvidas e reservas quanto a metas governamentais, de Passos Coelho (PPC), de António Costa (AC) ou de qualquer outro, o comportamento e a manifestação pública de pareceres, deveria pautar-se por regras prudenciais. Isto, porque a defesa do interesse nacional e da protecção do País dos abutres de ‘mercados, investidores e agências de “rating”’ constituem óbvios conselheiros para posicionar a defesa do interesse dos portugueses acima da ostentação da afirmação pessoal.
Segundo o ‘Jornal de Negócios’, a Dr.ª Teodora classifica o Governo de AC de ‘realista’ em 2017 e ‘optimista’ daí para a frente. Poderia preferir o diálogo institucional à mediatização, mas, tarde e a más horas, a idade é imperdoável. Sobretudo para uma burocrata, outrora anónima e hoje mediatizada, e comprovadamente incompetente em termos de previsões macroeconómicas.
À partida, e a tomar como base as estimativas e a consideração de ‘milagre’ do resultado do baixo défice de 2016, receio que o ‘realismo’ previsto pelo CFP para 2017 não venha a redundar em resultados negativos do desempenho governamental. E em relação aos anos seguintes, admito que, em vez de ‘optimista’, o Governo esteja a ser pessimista e a subestimar a recuperação da volátil economia global, incluindo países emergentes como México, Coreia do Sul e Brasil, sem esquecer o crescimento da China, acima do esperado, que é reconhecido internacionalmente (The New York Times).

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Tropecei na hipócrisia

A dona hipócrisia surgiu, de súbito, à minha frente. Inesperada e cruelmente. Baixou os olhos que outrora reluziram. De ar sisudo, no passado sorridente, mostrou ser a mulher, falsa, que deveras mente.
E ela lá foi, passo aqui, passo acolá, no caminho distinto do meu. Ainda bem que assim foi, penso, pois a hipócrisia é companhia que dispenso.
Senti o alívio de ver pelas costas a "amiga" que não me viu e que, maldosamente, isso fingiu. Lá prosseguiu ela por ali e eu afortunadamente por aqui, no percurso da honra e verdadeira amizade que sempre preferi. 
Não lhe devo um cêntimo, nem sequer um tostão, e se a reencontrar, dir-lhe-ei apenas: "Dona hipócrisia, não quero saber quem é!, porque já a conheço profundamente e de si espero tudo o que de pior há em gente reles." 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Renée Fleming, a diva diz adeus à opera


Renée Fleming, a soprano de voz suprema, vai retirar-se depois de um espectáculo, em Maio próximo. Com 58 anos de idade, completados em 14 de Fevereiro passado, a 'diva', ou a 'bela voz', decide pôr fim à brilhante carreira - a ópera, consideram fundamentadamente alguns críticos, é um género artístico em crise. Há falta de público jovem, argumentam eles e acrescentam: depois de Renée Fleming resta Plácido Domingo, tenor de 76 anos de idade.
Neste final de actividade artística, é obrigatório para os entusiastas do 'Belo Canto', ouvir, nem que seja por uns minutos no Youtube, Renée Fleming, norte-americana natural da Pensilvânia. Como todas as mulheres e homens de excepcional talento figurará para sempre no memorial universal dos valores da arte e da cultura.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O 'Capitão Vesgo'

“O mais alto de nós não é mais que um conhecedor
 mais próximo do oco e do incerto de tudo.”,
Fernando Pessoa
Tínhamos a história do ‘Capitão Gancho’, da peça teatral ‘Peter Pan’ . Agora, no processo dos comandos, passámos a ter o ‘Capitão Vesgo’. O primeiro, de mão decepada, valia-se de um gancho para caçar as vítimas; o segundo, vesgo e portanto zarolho, vê apenas a deturpada realidade. Ambos, o ficcional e o real, usam farda e têm o porte de quem comanda.
Diz o ‘Capitão Vesgo’ que o grupo de comandados “era constituído por instruendos na sua generalidade de médio/baixo [nível quanto à] parte física”. Na opinião do zarolho [=vesgo], está explicada assim a morte de dois jovens instruendos – Hugo Abreu, madeirense, e Dylan Silva, de Ponte de Lima.
O ‘Capitão Vesgo’, de má-fé ou por falta de visão, não enxerga o essencial do absurdo e desumano exercício de esforço físico imposto aos jovens militares (sete outros desistiram e um alferes foi internado no Hospital das Forças Armadas) em condições climatéricas muito adversas, de elevada temperatura. Nem sequer questiona a extrema gravidade para a vida humana de exercícios militares de enorme violência.
O que se decidirá, em termos de justiça militar ou civil quanto às responsabilidades dos militares oficiais e sargentos envolvidos, será, quero crer, objecto de processos que transitarão em julgado.
No actual mundo de violência em que faca ou facalhão, ou ainda uma viatura ligeira ou pesada, matam inocente e pacífica gente, parece-me legítimo questionar se a preocupação dominante das forças de segurança, incluindo militares, necessitam do contributo de jovens fisicamente super-dotados ou se o ataque aos adversários da paz deve realizar-se com meios tecnológicos disponíveis em generosa abundância, e a utilizar no respeito pelos princípios elementares dos Direitos Humanos; ou ainda se, em alternativa, com o recurso à antiquada e animalesca ideia de que a defensores da ordem democrática tem de ser cometida a incumbência a quem, de facto, na gíria é designado como verdadeira besta.  

terça-feira, 21 de março de 2017

Dijsselbloem, o lacaio louco do Sr. Schäuble

A 'teoria das dicotomias', aplicada aos povos europeus e perfilhada por certa gente de lá de cima, é clara: a Norte está a nata, no Sul a escumalha.
Se usarmos o método dicotómico para classificar duas criaturas reais do Norte da Europa, poderemos concluir que temos dois casos de deficiência: um, o amo alemão Schäuble, deficiente físico e personagem sinistra da política anti-sulista; outro, o lacaio holandês Dijsselbloem, deficiente mental - a pose, o olhar semi-estrábico e até o penteado, revelados na imagem, constituem provas da psicótica figura (a psicose, convém sublinhar, tem carácter permanente ao contrário da neurose que é temporária).
Dijsselbloem, apesar de ser engenheiro agrónomo formado na Irlanda (ver aqui, no 'The New York Times'), exerce as funções de ministro das finanças da Holanda, cumulativamente com o cargo de presidente do Eurogrupo por imposição da Alemanha. Como é possível reconhecer correcta a atribuição a um homem da área da agronomia a presidência do Eurogrupo? Apenas uma resposta: a função, no caso especial do holandês, não requer conhecimentos em finanças públicas, umas vez que é exercida na estrita condição de comissário político às ordens de Schäuble.
O louco Dijsselboem acusou os europeus do Sul de gastarem dinheiro em "copos e mulheres"
A mim, lisboeta que conhece a Holanda, rejeito a ofensa, dado o estado mental de quem a proferiu. Nem sequer vou entrar em comparações entre quanto se bebe nos bares de Amesterdão e nos de Lisboa, ou, se devido às 'red lights', há mais prostitutas lá do que cá. Cairia na mesma imbecilidade do louco ministro holandês.
No fundo, o que está a desassossegar a perturbada mente de Jeroen Dijsselboem é o resultado obtido pelo seu partido PvdA, dito de centro-esquerda, nas recentes eleições holandesas - obteve somente 9 deputados. Foi considerado o partido com a maior derrota eleitoral, com a natural consequência da saída da coligação governamental que tem estado no poder e de Dijsselboem ser afastado da presidência do Eurogrupo em Janeiro de 2018 - em meu entender, deveria ser logo que terminado o mandato de ministro das finanças da Holanda.
Um louco frustrado incomoda, mas não tem o poder de ofender quem quer que seja.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Trump e republicanos empenhados no desmantelamento do ‘Obamacare’

O desmantelamento do 'Obamacare' foi promessa eleitoral. Obcecado, desde a tomada de posse, Donald Trump empenhou-se activamente em captar o suporte de correlegionários republicanos para o sórdido objectivo. 
Nos últimos dias, no congresso dos EUA, membros do Partido Republicano têm avançado no sentido de revogarem a Lei dos Cuidados de Saúde Acessíveis de Obama ('Affordable Care Act') notícias e artigos a este propósito são elucidativas, conforme se poderá comprovar em  'The New York Times' ou 'The Nation'.

A fim de avaliar e qualificar a iniciativa de Trump contra a acessibilidade de milhões de norte-americanos a cuidados de saúde, ao abrigo do programa 'Obamacare', é necessário, em nosso entender, ponderar os seguintes aspectos:
  • as despesas com prestação de cuidados de saúde comparticipadas pelo governo dos EUA, desde 1965, ocorriam sob cobertura de dois programas: 1) Medicare, programa de seguro subvencionado por fundos fiduciários e dirigido a cidadãos acima dos 65 anos, jovens deficientes e doentes necessitados de hemodiálise; 2) Medicaid, programa assistencial de serviços de saúde para cidadãos de baixo rendimento e em função do número de membros da família, em muitos casos sem co-pagamento;
  • o 'Obamacare', promulgado por Barack Obama em 2010, constituiu uma transformação muito significativa, ao alargar a milhões de cidadãos - calcula-se que mais de 20 milhões - a prestação de cuidados de saúde a custos controlados por entidades públicas, federais e estaduais, com planos de saúde, aumentando igualmente o número de beneficiários do Medicaid;

quarta-feira, 8 de março de 2017

O Comentador Minhoca

À semelhança do verme que lhe empresta o nome, o comentador minhoca vive sob entulhos e em terras enlameadas. Segundo veio a público em 2014, aqui, o citado comentador, em conjunto com o empresário Joaquim Cabrita, lesaram o Estado em 773 mil euros. Agora, notícia do ‘Público’, também o tristemente célebre comentador fez saber que vai pronunciar-se como testemunha no processo judicial dos vistos ‘gold’; fá-lo-á por escrito, beneficiando do estatuto de membro do Conselho de Estado e desde que o dito e douto Conselho o autorize.
O comentador minhoca é baixo, visivelmente baixo quando está de pé ou sentado e, acima de tudo, quando como politólogo de direita exprime publicamente, na TV, opiniões, avisos e recomendações de carácter político, sem o mínimo sentido ético ou mero bom senso.
Em vez de barrar a intervenção pública a figuras deste calibre, a ‘democracia portuguesa’ acolhe-as com repugnante generosidade. A SIC do Dr. Balsemão, mediante perguntas pré combinadas e o olhar arregalado da loura Clara de Sousa, disponibiliza tempo de antena domingueiro ao comentador minhoca. O ‘Público’, actualmente dirigido pelo neoliberal David Dinis, e o ‘Jornal de Negócios’, às 2.ªs feiras, prestam-se ao papel de ‘caixa-de-ressonância’ dos sarilhos e sentenças do ‘minhoca’, da véspera.
A sociedade portuguesa, nomeadamente como outras europeias, asiáticas e os EUA, está condicionada por estereótipos e homens de poder e seus agentes, orientando-se no sentido da consolidação do domínio financeiro por uma minoria de personagens, a nível global. O 'minhoca' é um desses agentes.
O olímpico e crescente desprezo pelos mais básicos direitos humanos, entre estes o direito à vida, atinge milhões de seres humanos, entre crianças, mulheres (hoje é o Dia Internacional da Mulher – uma saudação especial a todas as mulheres amigas do ‘Facebook’) e homens desvalidos. Todavia, os poderes institucionais e instâncias internacionais revelam-se incapazes de combater a ultrajante desigualdade em expansão no mundo. 
Resta aos humanistas a iniciativa da luta, cada um à sua maneira e dentro de possibilidades, na maioria dos casos, limitadas. Nem que seja, apenas, a de mandar o comentador minhoca para o entulho.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O ‘Big Brother’ atacou-me

Estou a ser alvo de um vil, duro e injustamente incriminatório ataque do ‘Big Brother’, personagem que, no meu caso e infelizmente, não é fictícia. Tem nome, neste momento irrevelável. Sei que esse ‘Grande Irmão’ me está a observar - "Big Brother is watching you", alertou, e bem, George Well no romance ‘1984’.
O que está em causa, na minha existência que já vai longa, é tudo o que cá em casa, de forma honesta e sem máculas, se conseguiu amealhar ao longo de mais de cinquenta anos de trabalho e que é insuficiente para me classificar de rico – somos, eu e quem me acompanha há mais de quarenta anos, dos cidadãos que integram o que se designa por ‘classe média’. Nada mais.
A minha ausência do ‘Facebook’, nos últimos tempos está, portanto, justificada. A amigas e amigos, uns apenas virtuais e outros reais, asseguro que, uma vez alcançada a derrota do monstro, regressarei.

Até um dia destes.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares partiu, fica a obra política

Maria de Jesus Barroso e Mário Soares
Um aperto de mão selou o meu primeiro encontro com Mário Soares. Foi na sede da CEUD na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa, onde deixei um donativo no âmbito da angariação de fundos para a campanha eleitoral de 1969. Ele, sentado na sala, ergueu-se e veio ao meu encontro agradecer e cumprimentar-me. Eu era um jovem, naturalmente orgulhoso naquele momento.
Jamais esquecerei este episódio, ocorrido há cerca de 48 anos. Sem me ter filiado como militante do PS ou de qualquer outro partido político, aprendi a ser de esquerda, democrata e republicano com o meu avô paterno. Todavia, o Dr. Mário Soares foi o mestre que o substituiu.
Nos últimos anos, na carreira de persistente lutador pela Democracia e Liberdade, encontrei-o com frequência em manifestações e acções de luta. As últimas ocasiões ocorreram na Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa, na companhia de Helena Roseta, minha amiga, e na Avenida da República, em manifestação anti troika e, naquele local preciso, anti FMI.
A causa da Democracia Portuguesa tem em relação a este insigne Homem e Político uma enorme dívida.
Embora esperada, a notícia da morte de Mário Soares, que ouvi na SIC Notícias, entre as 15:30 h e as 16:00 h, inundou-me de tristeza. De súbito, dei comigo a meditar que ele foi o último a partir de uma geração de políticos devotos da causa democrática que a História de Portugal há-de gravar, no capítulo do percurso pós-25 de Abril.
Há tempos, sofri com a morte de Maria Barroso que também conheci pessoalmente. A sua irmã Fernanda, falecida há muito, foi minha camarada de trabalho na Covina.
O desaparecimento há ano e meio de Maria de Jesus Barroso e hoje de Mário Soares são acontecimentos que devem obrigar à reflexão os políticos actuais, quase todos saídos das ‘jotas’ e que acederam à política sem a barreira da ditadura feroz. Exige-se que passem a respeitar o legado de objectivos políticos de Democracia, de Liberdade e de Justiça Social que herdaram de um grupo de notáveis antifascistas de que o Homem falecido hoje era figura eminente.
Da obra de Mário Soares resulta, pois, o dever imperativo de servir com justiça e equidade os legítimos interesses e direitos das gerações de portugueses de hoje e do futuro. É impossível ignorá-la.
Obrigado póstumo ao Dr. Soares, por tudo quanto fez pela Democracia Portuguesa, e uma manifestação de solidariedade à família, em especial filhos e netos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Editorial de ‘The New York Times’ de 02/01/2017 (Tradução)

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Por que as  grandes corporações empresariais estão a ajudar Donald Trump a mentir sobre empregos

O presidente eleito Donald Trump gostaria que todos acreditassem que sua eleição dinamizará a economia, forçando as empresas a criar milhares de empregos nos Estados Unidos. E empresas como Sprint parecem perfeitamente felizes em acompanhar esta ficção, porque sabem que podem lucrar consideravelmente por acomodar o Sr. Trump.
Na quarta-feira, o Sr. Trump afirmou que um alto executivo do Sprint lhe dissera que a empresa gostaria de aumentar 5.000 empregos "por causa do que está a suceder assim como o espírito e a esperança."Mas acontece que os postos de trabalho são parte de um compromisso anterior pela empresa-mãe do Sprint,  SoftBank, cujo chefe do executivo disse na ‘Trump Tower’ em Dezembro, que seriam investidos US $ 50 mil milhões e criar 50.000 empregos nos Estados Unidos. E mesmo essa promessa foi parte de um fundo de tecnologia de US $ 100 mil milhões que o SoftBank anunciou em Outubro, antes da eleição. Em suma, a declaração do Sr. Trump tornou-se ar quente, como o 'tweet' no qual ele agradeceu pessoalmente por um aumento do índice de confiança do consumidor no mês passado.
É fácil ver por que SoftBank e Sprint podem querer ajudar o Sr. Trump a beneficiar do crédito para a criação de postos de trabalho. O chefe executivo da SoftBank, Masayoshi Son, pretende da Divisão Antitrust do Departamento de Justiça e da Comissão Federal de Comunicações a permissão de uma fusão entre a Sprint e T-Mobile. Em 2014, reguladores, nomeados pelo Presidente Obama deixaram claro ao Sr. Son que essas entidades não aprovariam tal transacção porque a mesma diminuiria o número de empresas nacionais de telecomunicações sem fio para três, de quatro, reduzindo a concorrência numa indústria já concentrada. O Sr. Son vê uma nova abertura para o seu negócio no Sr. Trump, que se cercou de pessoas ladeadas por grandes empresas de telecomunicações em debates regulamentares e argumentaram contra a difícil aplicação da lei antitrust.
Este é o capitalismo de compadrio, com consequências potencialmente devastadoras. Se o Sr. Trump nomeia pessoas para a Divisão Antitrust e o F.C.C... que estão dispostos em flutuar na onda através da fusão Sprint/T-Mobile, ele vai fazer danos permanentes à economia que superam de longe qualquer benefício de 5.000 empregos; empregos que podem ter sido criados mesmo sem a fusão. Cidadãos e empresas irão encontrar os custos do serviço sem fio muito mais altos quando tiverem apenas Verizon, AT&T e T-Mobile/Sprint para escolher.
Além disso, Sprint e T-Mobile combinadas diminuiriam inevitavelmente milhares de empregos como executivos da mescla de redes das empresas, lojas, sistemas de facturação, departamentos de serviços ao cliente e assim por diante. Isso aconteceu uma e outra vez depois dos grandes negócios das operadoras de telecomunicação. Quando a AT&T adquiriu a BellSouth em 2006, executivos superiores disseram que esperavam cortar 10.000 empregos depois do negócio ter sido fechado em Dezembro do mesmo ano. Desde então AT&T também adquiriu a DirecTV. No final de Setembro, AT&T empregou 273.000 pessoas ao redor do mundo, muito abaixo de 309.000 em 2007.
Tornou-se claro que o Sr. Trump se distrai facilmente com objectos brilhantes, especialmente se estes reflectem o brilho à volta dele. Ele está mais interessado em gabar-se de pessoalmente ter mil empregos na Carrier, digamos, do que em detalhes de política que poderia fazer a diferença na vida de dezenas de milhões de trabalhadores. Não importa que a Carrier só esteja a manter cerca de 800 empregos e que o seu executivo-chefe tenha dito que a empresa iria livrar-se de alguns desses de qualquer modo através da automação. Isto deve preocupar grandemente os americanos, especialmente as pessoas que estão a contar com o Sr. Trump para reanimar a economia e ajudar a classe média.

(Traduzido por Carlos Fonseca em 02/01/17)