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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Os incêndios das relações entre PR e Governo

Terminadas - por ora e oxalá que para sempre - as tragédias dos incêndios, seria de esperar que a comunicação social, pelo menos a parte que é tida como de referência, se empenhasse no debate público das recomendações do relatório da Comissão Técnica Independente (tragédia de Pedrogão), assim como na avaliação do conteúdo e da probabilidade de eficácia das medidas do Conselho de Ministro do passado Sábado.
Ontem, na SIC-N e hoje no ‘Público’, aqui e aqui, apercebi-me, sem dificuldade, que há profissionais de comunicação mais interessados em desempenhar o papel de incendiários das relações entre o PR e o Governo. Sem a necessidade de ser prestidigitador na manipulação de ideias, percebe-se que o objectivo fulcral do truque é apenas um: destroçar o Governo, a ‘geringonça’ e, naturalmente, a maioria parlamentar do PS, BE, PCP e Verdes. Para os escribas em causa, novas eleições são a saída ambicionada. Se possível para o início de 2018, com Santana Lopes ao leme do PSD. Até lá, o CDS de Cristas aguenta o barco da direita.
Na altura própria, em dois ‘posts’, condenei a incompetência da ex-Ministra da Administração Interna, assim como a co-responsabilização de António Costa nessa incompetência, de desastrosos resultados para o País.
Quanto a Marcelo, e também neste meu blogue, expressei que não sou admirador dos afectos do PR que, como sublinhei no devido momento, é uma personalidade volúvel.
De facto, dispenso os serviços de Marcelo Rebelo de Sousa ou de qualquer outro político em papéis de intermediários da partilha de dor e da solidariedade devida a vítimas de calamidades ou de pobreza extrema. Desde os tempos da escola primária (Escola 15 de Lisboa), eu e outros mais remediados – assim se designava à época – valíamos a companheiros que viviam em condições miseráveis, na então ‘Quinta dos Peixinhos’, junto do Convento de Santos-o-Novo. Segui a educação e a cultura do humanismo, tradicional nos meus antepassados. Não careci de ingressar na JUC-Juventude Universitária Católica para aprender a ser solidário. Vivi o tempo do salazarismo sem pai ministro ou alto funcionário do Estado.
Nesta hora de pós-tragédia, de um terço do País manchado de negro, o que é urgente é agilizar e cumprir, de forma célere, o processo de ajudas a famílias e actividades económicas atingidas pelos incêndios. O que os interesses primordiais do País dispensam são as divergências entre órgãos de soberania, alimentadas pela comunicação nacional, com o objectivo de servir apenas fracturantes e fracturadas ambições partidárias.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Os fogos políticos à volta dos incêndios

Eu e as TV’s vivemos de costas voltadas, na maior do tempo. Encontramo-nos à meia-noite, na RTP 1, na SIC-N ou na TVI24. Depende do gesto instintivo do meu indicador sobre o comando. Isto explica que, quando escrevi e publiquei o meu último ‘post’, Marcelo afectuoso e volúvel, Domingo, ao final da tarde, desconhecia a imensa tragédia de devastadores incêndios que estava o ocorrer pelo País.
De Monção a Mafra, de Oliveira do Hospital ao Pinhal de Leiria, de Vouzela a Penacova, e por aí fora, o Norte e o Centro de Portugal foram varridos por enormes manchas de chamas que, à semelhança da ‘tragédia de Pedrogão’, deixaram para trás 42 mortos, à data de hoje, umas dezenas de feridos, alguns em estado grave. Os outros despojos desta nova tragédia são aqueles que se sabem: sofrimento de populações locais, vidas familiares, casas e aldeias destruídas, mais uns milhares de hectares de florestas e pastos manchadas daquele negro que, de tão imenso e triste, nos derruba para uma dor a que nenhum analgésico pode valer.
Sabe-se que a Ministra da Administração Interna se demitiu hoje e António Costa aceitou (‘Público’). Sabe-se até mais: depois de Pedrogão, Constança Urbano de Sousa pedira a demissão e Costa recusara, com alegação de que seria preciso aguardar pelo relatório da Comissão Técnica Independente; relatório este que, para quem como eu tem uma casa de aldeia em zona florestal, vem, no fundo, repetir aquilo que sabemos desde há décadas e uns quantos académicos repetem em comentários na comunicação social; ou seja, as graves falhas de ordenamento do território, a acumulação de matérias combustíveis em vastas áreas, a carência de acessos, a orografia, a falta de patrulhamento e de vigilância, o despovoamento e o envelhecimento nas comunidades do interior, aldeias, vilas ou mesmo cidades, e a incapacidade dos bombeiros voluntários para as exigências do combate. No caso presente, de inúmeras e complexas frentes de fogo acolhido em clima de seca severa e humidade reduzida e ainda propagado por ventos erráticos e vigorosos.
Seguindo o ritual imposto pelo calendário gregoriano, o termo da fase ‘Charlie’ implicou uma redução de recursos (dispensa de 29 meios aéreos, desactivação de postos de vigia e efectivos de prevenção e combate). A Ministra, agora de saída, ajudou à deterioração da ANPC, desde sempre um abrigo para militares na reserva e militantes partidários, com a colocação na chefia, ao que nos é dado a perceber, de gente incompetente e do amiguismo que Manuel Alegre, no DN de hoje, denuncia com revolta e mágoa.
Sobretudo, no verão quente e prolongado que temos tido, a ANPC, a nível central e local, jamais poderia ter ficado paralisada, fosse em que período de tempo fosse e, por maioria de razão, num fim-de-semana para o qual o IPMA havia previsto ‘ventos muito fortes’, oriundos do Norte de África e causados pelas franjas do furacão ‘Ophelia’ que atingiu os Açores. A Ministra tem responsabilidades na falta de mobilização de meios e de acção organizada contra os incêndios. Pedir resiliência a populações, maioritariamente compostas por sexagenários, septuagenários e octogenários, é no mínimo ridículo. Lamento dizê-lo.
António Costa, em relação à tragédia de 15-Outubro, teve igualmente um discurso lamentável. Não é necessário citar. Basta ler.
Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou, entretanto, para se furtar do círculo de conivência com o Governo, criado em Pedrogão. – Nada mais poderia ter sido feito – disse então o PR. Ontem, em Oliveira Hospital, afirmou: - A Assembleia da República que clarifique se quer manter o governo. Isto, obviamente, é endereçar para os deputados do BE, PCP, PS e Verdes a responsabilidade de manter a ‘geringonça’, face à incompetência e vontade política do Governo em matéria de gestão de florestas e incêndios. Sim, porque Marcelo ainda acrescenta: - Usarei de todos os poderes como PR…
O sarilho está criado e Marcelo, habilmente e invocando questões ponderosas, passou nitidamente do apoio à oposição a António Costa. O Primeiro-Ministro pôs-se a jeito…


domingo, 15 de outubro de 2017

Marcelo afectuoso e volúvel

O narcisismo é um traço de personalidade muito comum em políticos. Cavaco Silva, da governação à Presidência da República, usou e abusou desse estilo, acrescentando-lhe uma contranaturalidade repugnante. Sempre hirto e rígido, física e emocionalmente, emproado na comunicação e dissimulado em gestos e sorrisos esfíngicos, chegou ao fim do mandato mais impopular de todos os presidentes do regime democrático.
Dito isto, a probabilidade do seu sucessor ter a simpatia das massas era altíssima. Com Marcelo Rebelo de Sousa (MRB), a probabilidade converteu-se em realidade. Inteligente, culturalmente superior, hábil comunicador e excelente intérprete dos sentimentos da alma portuguesa, na campanha eleitoral e no exercício do cargo, Marcelo recolocou a PR no coração dos portugueses. Onde passa Marcelo passa o afecto.
A ‘geringonça’, termo que Vasco Pulido Valente inventou no vaticínio de que a cangalhada soçobraria no dia seguinte; a ‘geringonça’, dizia eu, mediante a política de reversão de rendimentos, tornou-se em instrumento útil para Marcelo. A alegria assim como a dor são duas componentes do mundo dos afectos em que o PR adora mergulhar. O pior é que ele também sabe ser volúvel.
Entretanto, surgiram dois obstáculos de monta para a governação tranquila e de sucesso de António Costa: o incêndio de Pedrogão e o furto de armas de Tancos. Deixemos o caso de Tancos – denunciei oportunamente o desmazelo aqui – e fixemo-nos no incêndio de Pedrogão.
Do relatório da Comissão Técnica Independente (CTI), extraem-se conclusões acerca de causas e efeitos do dramático fogo de Pedrogão e concelhos limítrofes. Algumas dessas conclusões são, naturalmente, de carácter político e atingem áreas ministeriais da Agricultura e da Administração Interna, a primeira mais no domínio da prevenção e gestão da floresta e a última na actuação incapaz da Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC).
Publicado o relatório, Marcelo não tardou a iniciar o processo de responsabilização da Administração Pública, ao declarar em nota escrita:
“ […] Portugal aguarda com legítima expectativa as consequências que o Governo irá retirar de uma tragédia sem precedente na nossa história democrática”, ´Público’.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A minha estupefacção

Tenho apreço pelo Dr. Seixas da Costa. Sou leitor do seu blogue, 'duas ou três coisas'. Normalmente, concordo com os conteúdos publicados.
Todavia, há sempre excepções, no que respeita a regras e opiniões. E, por via da excepção, não poderia estar mais em desacordo com o conteúdo do  'post', publicado em 14-Julho, sob o título 'Perplexidade'.
Convirá sublinhar que as nossas carreiras profissionais tiveram percursos muito distintos. O Dr. Seixas da Costa foi Embaixador, moveu-se naturalmente em ambientes da diplomacia e, ao que parece, é intransigente no princípio do 'politicamente correcto'. Eu percorri um caminho mais frugal, entre operários e engenheiros, em unidades fabris; por inerência de funções no comércio internacional, corri mundo a promover exportações de vidro em chapa e transformado da Covina, hoje Saint-Gobain Glass, e de produtos de higiene pessoal e de limpeza das empresas Sonadel e Uniclar, do ex-grupo CUF/Quimigal.
Sucedeu que, detidas por IPE e Quimigal, as três sociedades foram privatizadas por alienação a grupos estrangeiros. A Covina à Saint-Gobain e a dupla Sonadel-Uniclar à Colgate. Consequências: a ex-Covina actualmente não passa de um entreposto da Saint-Gobain, a funcionar com menos de três dezenas de trabalhadores; por outro lado, Sonadel e Uniclar desapareceram como sociedades industriais e comerciais, embora as suas marcas continuem a ser comercializadas em Portugal - ao ler um invólucro do sabonete 'Feno de Portugal', da ex-Uniclar, depara-se com a menção 'Fabricado na EU / (Alemanha)'.
Ainda no domínio das consequências a nível da Economia Portuguesa, deverá sublinhar-se que as referidas alienações, como outras, contribuíram para diminuições do PIB, eliminação de centenas de postos de trabalho e de exportações, aumentando importações e remunerações (dividendos) de capitais externos.
O que acabei de descrever é suficientemente elucidativo, julgo, dos resultados de certas operações de IDE - Investimento Directo Estrangeiro; várias das quais, como é notório, se vêm a revelar adversas para o interesse nacional. É natural, portanto, a minha estupefacção perante críticas às declarações de António Costa na AR - debate do Estado da Nação - que, instado a pronunciar-se pelo PCP, acusou a PT/Altice de grave incumprimento na prestação de serviços de telecomunicação na 'Tragédia de Pedrogão'; prestação a que está vinculada pela PPP no âmbito das obrigações do SIRESP.
O tempo correrá e estaremos cá para ver o que, na PT e na Media Capital, a Altice vai fazer. Certamente dinheiro, muito dinheiro, com pesados prejuízos para Portugal e portugueses, prevejo.
Muito mais haveria para dizer, mas fico-me por este esclarecimento: não sou militante de qualquer partido, nem apoiante incondicional de António Costa.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Interesses públicos versus interesses privados

Políticos, economistas e sociólogos têm debatido o conceito de interesse público. Seria despropositado, além de impossível, descrever esse histórico e longo confronto de concepções, no âmbito de um 'post'.
Tomo, pois, como referência três ideias principais:
  1. A supremacia do interesse público sobre o privado, não equivalendo, todavia, a uma liberdade irrestrita de arbitrariedades de quem conduz os negócios públicos.
  2. No período pós-2.ª Guerra Mundial, e com especial incidência na Europa, o Estado Social resulta de uma transformação super-estrutural do Estado Liberal, com vista a eliminar a contradição entre igualdade política e desigualdade social; esta última mais óbvia na Saúde, no Ensino, na Justiça e nas relações laborais.
  3. Nos anos 1980, o neoliberalismo irrompe na Europa pelas mãos de Margaret Tatcher, a mulher da 'TINA' (There is no alternative), argumentando não haver alternativa às leis do mercado, ao neoliberalismo, ao capitalismo e à globalização; esta teoria propagou-se então no seio da Europa por acção de outros políticos, incluindo socialistas e social-democratas, a começar pelo trabalhista Tony Blair com a sua proclamada 3.ª via.
António Costa, no debate do estado da Nação, ao criticar o mau desempenho da PT (Altice) na tragédia de Pedrogão, fê-lo por diversos motivos, entre os quais destaco: (a) a ruptura operacional e efectiva da PT, com a agravante de ser parte do núcleo de privados da PPP SIRESP; (b) a transformação, o desmembramento e os despedimentos esperados na PT, estimados em 3.000 e que AC já havia declarado recusar; (c) finalmente a imagem ideológica, que o PM, a governar com o apoio da esquerda parlamentar, está a tentar recuperar para o PS, ainda que condicionado por uma União Europeia de tratados e directivas de pendor neoliberal.
Passos Coelho, por sua vez, comparou Costa com Donald Trump (MSN vídeo). A comparação não passa de desvario do líder do PSD. Sem estratégica política, anda a compor a sua agenda com os acontecimentos de Pedrogão Grande, de Tancos e com reacções eleitoralistas àquilo que o PS diz, faz ou deixa de fazer. Coelho, ao invés do que querem fazer acreditar alguns aliados na comunicação social, nunca foi, nem é um político brilhante, bem preparado, de ideias consistentes e fluídas. 
Resta, em Passos Coelho, a marca ideológica aguda do neoliberalismo. E é neste registo que, para ele, criticar esta ou aquela empresa privada equivale a desrespeitar um 'templo sagrado'. O mercado, inspirado na famigerada teoria de Adam Smith, tudo equilibra e resolve, admitindo-se, apenas, uma regulação ineficiente por parte do Estado. Foi, dentro deste pensamento, que, quando PM, PC afirmou que o BES não era um problema do Estado, mas sim de privados. De seguida, a sua Ministra das Finanças, M. L. Albuquerque, aplicou, de uma penada, 3.900 milhões de euros dos contribuintes na resolução do caso 'BES/Novo Banco'. Contradições e falta de ideias traçam o perfil de Passos Coelho. Está desacreditado, até no seio do próprio PSD.
António Costa, na declaração parlamentar, referiu ainda a CIMPOR, que é um tema interessante. Todavia, fica para outro 'post'.




terça-feira, 27 de junho de 2017

Passos Coelho é um incapaz! Ainda há quem não perceba?


Vasco Pulido Valente, Paulo Portas e acólitos enganaram-se rotundamente. A "geringonça", afinal, não é o governo do PS e os aliados parlamentares, BE e PCP. É, esse sim, o PSD de Pedro Passos Coelho, desgovernado, desconjuntado e conduzido para a auto-mutilação por um líder incapaz e cego pelo poder a qualquer preço. No desastroso percurso, existem outros figurantes cúmplices do comportamento errático e desprovido de sentido - lembro-me, agora, que não tenho visto o inefável Zeca Mendonça, talvez por estar encoberto por um monte que é negro e outros obstáculos e marcos dispersos, desde a costa a sinuosos caminhos interiores.
A tragédia de Pedrogão Grande e concelhos vizinhos, na qual se registaram 64 vítimas mortais, teve a maior expressão de todas aquelas geradas, em cada ano, no Portugal interior, desertificado, florestal e esquecido, há décadas, pelo poder político.
Se a utilização da catástrofe no discurso com fins de disputa pelo poder já é, por si, atitude reprovável, inventar suicídios é inqualificável. Passos Coelho já demonstrara insistentemente ser um político incapaz. Agora, tratou-se de mais um episódio.
O PSD, nas suas mãos, anda à deriva. Teve o acesso à direcção do partido pelo empenho do amigo Miguel Relvas, agora escuso. Sócrates, de PEC em PEC até ao PEC fatal, abriu-lhe o caminho do poder que exerceu sob o alto patrocínio de Schäuble e da 'troika'. Ultrapassou as metas de austeridade dessa mesma 'troika', com o detestável zelo de castigar os pobres e a classe média do País de forma desmedida. 
Derrotado por nova maioria parlamentar, diabolizou, no estilo e na figura, a governação de António Costa e ficou no vazio em termos de estratégia para a governação - o corte de 600 milhões na Segurança Social foi a derradeira promessa que se lhe ouviu. 
Deixou o sector financeiro em situação calamitosa, também pelo contributo da amiga Maria Luís de Albuquerque e da indiferença da 'troika'. E continua a demonstrar incapacidade de mobilizar grande parte do eleitorado, por falta de ideias e de projecto alternativo e credível. É um incapaz, em quem a maioria dos portugueses, alguns figuras de proa do próprio partido, não deposita confiança. 
As autárquicas serão a prova de fogo que enfrentará e ontem, uma vez mais, andou bem juntinho a toda a incapacidade crónica de que padece. Desde Pedrogão Grande, onde o candidato 'laranja' João Marques o impulsionou para grave erro, até Odivelas, concelho a que concorrerá o desacreditado Fernando Seara. É verdade: onde anda Teresa Leal Coelho? Bom, fiquemos por aqui. 


quinta-feira, 18 de maio de 2017

A sorte da Lituânia e o azar de Portugal

João Vieira Pereira (JVP), Director-adjunto do jornal “Expresso”, publicou na edição ‘online’ do “Expresso Diário”, um artigo sob o título “Sorte? Sorte têm os lituanos”.
JVP é um jornalista conhecedor das regras deontológicas da profissão, nomeadamente a objectividade, a imparcialidade e a ética na missão de avaliar, informar e comentar – ainda hoje no “Expresso Curto” crítica, duramente e bem, a abjecta divulgação de um vídeo pelo “Correio da Manhã” de uma alegada violação de uma jovem num autocarro do Porto.
O conhecimento das citadas regras e dos deveres do jornalismo, no caso de JVP, constitui uma razão acrescida para, no comentário do desempenho económico governativo ou de qualquer outro tema, afastar do que escreve o ressabiar, a mesquinhez e a falta de rigor com que trata António Costa. Criticar com fundamento é uma coisa, atacar com superficialidade e má-fé é outra, bem distinta e condenável.
De entrada, JVP reconhece que António Costa é um “político exímio”. Todavia, logo acrescenta que, conquistada a esquerda para as políticas de direita, Costa “está a colher frutos de uma estratégia que não é a sua”. Impõe-se perguntar: então de quem é? Como a oposição de direita ao actual governo tem uma devoção por figuras transcendentais, em que JVP se revê, admitamos que é Lúcifer o autor da estratégia.
Com aviltante simplismo, e baseando-se no facto de Portugal ter tido um acréscimo do PIB de “apenas” 2,8% no 1.º trimestre de 2017, considerando o período homólogo de 2016, e a Lituânia 4,1%, JVP escreve:
“[…] estamos mais próximos do bem-estar da Roménia ou da Bulgária do que dos países com os quais nos costumávamos comparar. Este ano é a vez de a Lituânia nos dizer adeus.”
Concluir isto através do PIB de um trimestre é demasiado redutor e, digo-o sem receio, intelectualmente desonesto. Comparemos somente alguns dados demográficos e macroeconómicos de um e de outro país:

População
Portugal: 10.265.566
Lituânia:   2.786.187

Salário Mínimo Nacional (2015)
Portugal: 589,17 Euros
Lituânia: 300,00 Euros
Fonte: Eurostat

PIB (2016)
Portugal: 205.860 mM de USD
Lituânia:   42.780 mM de USD
Fonte: FMI

Taxa de Desemprego (2016):
Portugal: 11,2%
Lituânia:   7,8%

O desemprego na Lituânia está, de facto, abaixo do nível percentual de Portugal. Todavia, é preciso sublinhar que, depois da adesão à UE em 2004, o país báltico, desde 2007, registou uma diminuição da população de cerca de 17,3% (-582.813 cidadãos residentes), por efeito da forte emigração para destinos da UE em 9 anos. Portugal, no mesmo período, teve um decréscimo de 2,60% (-274.340 cidadãos residentes).
Quanto ao crescimento do PIB da Lituânia, e tendo em conta a adesão à UE em 2004, nas causas desse aumento encontrar-se-á certamente o investimento público auxiliado por fundos europeus, fenómeno que em Portugal se registou nos tempos de Cavaco Silva e António Guterres e que, para o caso, não é despiciendo. Igualmente não é desprezível a posição da Lituânia como destino de indústrias deslocalizadas a partir de países de custos de mão-de-obra mais elevados, nem as multi fronteiras com a Bielorrússia, a Letónia, a Polónia e a Rússia - Portugal tem Espanha e o Mar.
Comparar países apenas através do PIB trimestral, sem atender a outros factores, é um erro, demasiado grave se propositado.



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O jornalismo tacanho de Carvalho e a análise sábia de Stiglitz

Manuel Carvalho publicou no ‘Público’ o artigo ‘Maldita rentrée’.  O texto caminha por jargões e comentários, cheios de epítetos habituais em baixa política, visando sobretudo António Costa. Fala do Prof. Marcelo e também refere Passos Coelho, ao considera-lo um falhado no resultado final das políticas neoliberais adoptadas, não poupando, é óbvio, nas críticas a Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.
Por outro lado, Carvalho refere superficialmente a Europa e o euro, mas enreda-se na problemática do défice, sem que, do ponto de vista das doutrinas e políticas económico-financeiras, saia qualquer análise, ideia ou proposta de solução.
O artigo é, de facto, pobre, subjectivo e impulsionado pelo notório propósito de hostilizar o governo de António Costa, terminando nos seguintes termos:
E o PS tinha prometido um “virar de página” alicerçado na confiança, no investimento e no futuro. Bastou uma semana para nos recordarmos de que tudo isso é cada vez mais uma miragem. Maldita rentrée. »
A este jornalismo tacanho, da crítica pela crítica, oco de conceitos e repleto de adjectivação burlesca, oponho a sábia análise de Joseph Stiglitz, publicada no ‘Expresso’ do último Sábado, pelo Nobel de Economia, ex-assessor económico de Clinton e ex-vice-presente do Banco Mundial.
O artigo do prestigiado professor da Universidade de Columbia começa com o seguinte ‘lead’:
“A culpa é mais do euro do que das políticas e estruturas dos países e estruturas dos países. A zona euro impôs o tipo de rigidez do padrão-ouro.” [Observação minha: o padrão-ouro significou a adopção de um regime cambial fixo por parte de praticamente todas as grandes potências económicas, do século XIX até 1914).
Em função da extensão do artigo de Joseph Stiglitz, vou procurar sintetizar as suas conclusões no sentido de uma solução para a zona euro:
“O euro só poderá funcionar se forem alteradas as regras e as instituições da zona euro. Isto obrigará a sete alterações:
  • abandonar os critérios de convergência que obrigam a que os défices sejam inferiores a 3% do PIB;
  • substituir a austeridade por uma estratégia de crescimento, suportada por um fundo solidário para a estabilização;
  • desmantelar um sistema propenso a crises, onde os países têm de contrair empréstimos numa moeda que não é controlada por eles, e passarem a depender de Eurobonds ou de um mecanismo similar;
  • repartir melhor as responsabilidades durante o ajuste, com os países que apresentem superávites a comprometerem-se a aumentar salários os gastos fiscais [orçamentais, em meu entender]…;
  • alterar o mandato do BCE que se centra apenas na inflação, ao contrário da Reserva Federal dos EUA, que considera também o desemprego, o crescimento e a estabilidade;
  • estabelecer um seguro comum de depósitos, o que evitaria que o dinheiro fugisse de países com fracos desempenhos…;
  • e encorajar, em vez de proibir, políticas industriais concebidas para garantir que os retardatários da zona euro possam alcançar os seus líderes.
E Stiglitz remata com uma conclusão interessante. Diz o professor que, de um ponto de vista económico, estas mudanças são pouco importantes; mas à liderança actual da zona euro pode faltar vontade política para implementá-las.
Tudo o que transcrevi e o restante do artigo extenso do Nobel norte-americano devora e reduz a banalidades próprias de conversa desconexa de café o escrito por Manuel Carvalho.

sábado, 3 de setembro de 2016

Investimento e Crescimento

Passos Coelho, há dias, criticou a quebra de investimento público do actual governo. A queda é um facto. Todavia, deveria lembrar-se das privatizações de empresas lucrativas e susceptíveis de criar liquidez para reinvestimento – recorde-se apenas a alienação pelo Estado dos CTT, da ANA e da EDP, transformadas em património estrangeiro e com reflexos negativos no défice externo.
Coelho, como sabemos, é um economista altamente qualificado, tornando-se, por isso, mais absurda a crítica formulada. Ou é a alta qualificação que é absurda?
Assunção Cristas revela-se preocupada com a subida da dívida pública externa e a falta de investimento. Confesso também a minha inquietude. Contudo, da ministra de um governo em permanente endividamento, a observação é estranha. Depois de 2010 (Sócrates), esse governo chegou a 2015 com um agravamento de 79,1 mil milhões de euros (de 94% evoluiu para 128,7% do PIB).
Quanto ao investimento, Coelho e Cristas sabem – ou deveriam saber – que durante o mandato do governo, que ele liderou e ela integrou como ministra, houve uma redução de 5,5% de Formação Bruta de Capital Fixo (Investimento).
O governo actual continua a tendência de queda, mas tem diversos motivos para a justificar:
  • Encerrou em 2015 o QREN (fundos estruturais da EU) que permitiu ao executivo anterior atenuar a intensidade da queda;
  • O programa subsequente de fundos estruturais, Portugal 2020, se bem aproveitado, poderá proporcionar o relançamento do investimento público e privado;
  • A herança legada a António Costa e ao País por Coelho, no sector bancário (Banif, Novo Banco e CGD), é demasiado pesada - o Banco de Portugal, sob o comando de Carlos Costa, tem fortes responsabilidades neste descalabro;
  • Os cortes salariais e o brutal aumento de impostos, da autoria dessa figura sorridente e oportunista chamada Vítor Gaspar, traduziram-se em acentuados decréscimos de consumo e poupanças, assim como em pesado impacto de insolvências e desemprego.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A arrogância retribuída com delicada hipocrisia

Li e classifico de genericamente positiva a entrevista de António Costa ao 'Público'. Demonstra coerência em relação a várias mensagens da campanha eleitoral; campanha esta que, disse e repito, deveria ser sido mais enérgica. 
Também sei que Costa esteve muito entregue a si próprio nas digressões que fez pelo País - os apoios de Ana Catarina Mendes, Carlos César e Pedro Nuno dos Santos concentraram-se, acima de tudo, na fase de negociações com BE, PCP e PEV. A formação da maioria parlamentar tem igualmente especial mérito destes três socialistas.
Voltando ao conteúdo da entrevista, e sem me deter em pormenores com que concordo ou discordo, destaco duas breves passagens:

1)
Pergunta dos jornalistas:  Como vê a actuação do Presidente desde as eleições?
Resposta de A.C.:  O primeiro-ministro não avalia a actuação do Presidente.
Resposta curta, sagaz e inteligente. Em sintética afirmação, o PM voltou a colocar à distância o inquilino do Palácio de Belém no que respeita à relação institucional com governo, o qual, tem sublinhado Costa, depende da AR. Não de um PR em fim do 'prazo de validade' e de poderes felizmente limitados.

2)
Frase de A.C. em resposta à 6.ª pergunta: E percebo que a direita esteja irritada e respeito até algum azedume.
Na 'realpolitik', não há espaço para questões de ordem ideológica, muito menos para pensamentos ou divagações de ordem ética ou moral. Shakespeare, no legado cultural deixado ao mundo, integrou algumas frases que se celebrizaram. Eis uma delas: "O diabo pode citar as Escrituras quando lhe convém." 
Os cavalheiros da PàF, a decorar a governação do louco empobrecimento dos portugueses, usaram uma arrogância infame ilimitada. Quisessem ou não, Passos Coelho e Paulo Portas, devido à maioria relativa saída das eleições, perderam toda a capacidade de prosseguir na arrogante e leviana atitude de repescar o PS para se tornar um partido submisso e maleável aos desígnios do PSD+CDS. De resto, o presunçoso Coelho, a 14 de Outubro, afirmou categoricamente que não teria mais conversações com o PS.
Que reacção mais pertinente poderia ter tanta arrogância que, lembre-se, durou 4 anos? A resposta tão delicada quanto hipócrita que António Costa lhes deu no 'Público': "E percebo que a direita esteja irritada e respeito até algum azedume." É uma pequena humilhação das muitas e enormes de que a direita se fez merecedora.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A meta do défice de 2,7% em alto risco

O ataque de melancolia
O governo do PS, apoiado por BE, PCP e PEV, foi empossado. No final, em discurso abjecto, Cavaco não se dispensou de referir, com forte sentido elogioso, a trajectória de sucesso económico, social e financeiro (exactamente por esta ordem) conseguida pelo governo do seu coração. Comoveu Passos, Portas e, pensa ele, o País inteiro.
Em retaliação, disse que apenas estava "cerceado no poder constitucional de dissolver a AR", mas que tinha poderes para demitir o PM, caso venha a entender que o País esteja a sofrer um acentuado desvio da "trajectória de sucesso" e não respeite os tratados e compromissos internacionais que citou.
É fácil de desmistificar a ideia do enorme sucesso. A dívida pública em 130% do PIB (231,952  mil milhões  de euros em Setembro, segundo o Banco de Portugal); a dissimulada taxa de desemprego em 11,9% mas que, na situação real, atinge à volta de l milhão de portugueses; a situação de muito frágil liquidez dos nossos bancos, recentemente considerada pela Autoridade Bancária Europeia, e por aí fora, são problemas complexos. 
Ao que acabamos de citar terão de adicionar-se outros factores e aquelas notícias dispersas com que nos deparamos: a Somague, no dia seguinte às eleições, despediu cerca de 300 trabalhadores; a Unicer vai encerrar ou já encerrou a fábrica de Santarém, com a eliminação de perto de 100 postos de trabalho; a velhinha Triunfo das bolachas vai encerrar a unidade fabril em Mem Martins e atingirá perto de uma centena de trabalhadores; a outra 'Triumph dos soutiens" em Sacavém corre o risco de encerramento e de despedir 530 trabalhadores. 
Vivemos, de facto, uma época de sucesso em Portugal, que nem ao microscópio vemos, mas Cavaco e os cavaquistas observam-no com impressionante nitidez a olho nu ou com óculos de poucas dioptrias.
O pior, diz e augura essa gente, é que a trajectória de tanto brilhantismo será abruptamente cortada por António Costa e o seu governo. 
De facto, Outubro de 2015 foi um mês muito aziago para a PàF. Iniciou-se o processo de perda da governação, atingiu o valor de 0% de devolução da sobretaxa de IRS de 2015, soube através da execução orçamental, DGO, que já consumiu 95% do défice previsto para o ano, quando em Outubro de 2014 tinha atingido apenas 84%. Enfim, Outubro 2015 foi uma verdadeira desgraça para a direita neoliberal nacional (PSD+CDS).
Quanto ao défice, apenas mais algumas considerações. Só em Outubro (sempre ele) esse défice agravou-se em 1.700 milhões de euros, fixando o saldo das Administrações Públicas em -4818 milhões de euros. Deste valor, conclui-se que, em Novembro e Dezembro, apenas podemos aumentar o saldo citado, que é o défice, em -275,2 milhões de euros. Tal como a UTAO disse há tempos, e a própria CE, os 2,7% são impossíveis de alcançar. A Dona Maria Luís Albuquerque, uma vez mais, enganou-se nas projecções. A probabilidade de continuarmos sob o PDE (Procedimento de Défice Excessivo) é alta. Não venham dizer, depois, que a responsabilidade é do governo do PS. apoiado pela maioria parlamentar, que hoje tomou posse. 
(Adenda: as contas da DGO e cujos valores acima são referidos são feitas segundo as regras da 'contabilidade pública' na óptica de caixa (recebimentos e pagamentos); ao passo que o critério de Maastricht exige o cumprimentos de regras de 'contabilidade nacional' cujo cálculo é de base macroeconómica, i.e., não se consideram apenas os recebimentos e pagamentos mas outros ajustamentos das contas nacionais que levam, por norma, a défices superiores aos registados em 'contabilidade pública').

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cavaco, o repugnante

Sim, Cavaco o repugnante é assim que o PR em final de mandato, felizmente!, ficará para a História. Chamo-lhe repugnante da mesma forma que Miguel Sousa Tavares (MST) lhe chamou palhaço, Todavia, entre mim e o MST há uma diferença no que toca à colagem de epítetos ao Sr. Silva: jamais me penitenciarei da atitude.
Os motivos constam de longo e histórico processo. Acima de todos, prevalece o comportamento ultra-faccioso do primeiro magistrado do País. Jamais foi o meu presidente e o de milhões de portugueses. Sempre se isolou do povo, e os sorrisos artificiais e hipócritas confirmam-no, 
Abriga-se por norma no seio de uma elite restrita. A imagem do selectivo isolamento é a Quinta da Coelha e vizinhança amiga com quem partilha o espaço e o tempo no Algarve - o rubicundo Catroga e o ex-companheiro de trabalho do Banco de Portugal, Oliveira e Costa, são dois desses vizinhos.
Teve o primeiro acesso a um PR, Ramalho Eanes, pela mão do falecido Prof. Silva Lopes, então governador do Bando de Portugal. Filiou-se no PSD. Com o estafado argumento de que, na companhia da Dona Maria Aldegundes, apenas ía rodar um carro novo até à Figueira da Foz, voltou de lá eleito dirigente máximo do partido 'laranja'. Tudo calculado ao milímetro.
Invoco aspectos da vida pessoal, por serem indissociáveis da carreira política que influenciou a nossa. Um casal de classe média a viver ali às portas da Lapa, numa travessa dita do Possolo, não é rigorosamente a mesma coisa que ter casa na Lapa, de gente abastada e alguma até de origem aristocrata. 
A ambição desse casal melhorar o estilo de vida é natural. O que já é repugnante é chegar ao topo e, como PM e PR, ter erigido um feudo ao redor, extraindo benefícios excessivos e promovendo uma série de ministros e secretários de Estado dos seus governos a altos estatutos sociais e económicos. Ao ponto de muitos deles se tornarem emissores de fortes sinais exteriores de riqueza  -  Dias Loureiro, Mira Amaral, Ângelo Correia, Joaquim Ferreira do Amaral, Arlindo Carvalho e Faria de Oliveira, entre outros.
No uso dos fundos europeus, em que se registaram casos sob a alçada do poder judicial, desbaratou milhões e milhões na construção de auto-estradas e outros luxos não integráveis no sector dos 'bens transaccionáveis' que agora tanto defende - adversamente desmantelou e vendeu aos pedaços a CUF/Quimigal e associadas, algumas com as estruturas produtivas a deslocalizarem-se para Espanha. 
Como fanático seguidor da ideologia da Madame Thatcher, foi pioneiro na introdução em Portugal das Parcerias Público-Privadas: 'a Ponte de Vasco da Gama' e a primeira PPP no sector da saúde, o Hospital Amadora-Sintra concebido e construído com o Grupo José de Mello, têm a marca cavaquista.
É este PR, grosseiro e de frágil carácter, que, no recurso à baixeza que lhe é própria, interpelou por escrito António Costa com as seis questões reveladas ao público. Não o fez antes de indigitar o companheiro Pedro Passos Coelho para a formação do governo que, mais do que certo, tinha os dias contados. O maior estrondo nem foi a queda do governo. Soou das vozes histéricas de Luís Montenegro (PSD) e Nuno Magalhães (CDS). Que falta de classe e de maturidade política!
A terminar o ciclo da nomeação de António Costa para formar o XXI Governo Constitucional, a PR emite este comunicado, usando duas vezes, uma no título e outra no texto, o verbo indicar em vez do institucional indigitar
O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa dá até um exemplo de aplicação do verbo indigitar: O Presidente da República já indigitou o Primeiro Ministro. De resto, indigitação significa propor ou designar alguém para um cargo; indicação é mais aquilo que informa alguma coisa.
Não me convencem que a troca de verbo foi casual, convicto como estou tratar-se de mais um acto próprio de Cavaco, o repugnante.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A patologia da visão de Cavaco

Cavaco observa as bananas da Madeira
Desde a célebre frase "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas" passei a encarar Cavaco Silva como figura verdadeiramente enigmática. 
Interroguei-me em umas boas dezenas de ocasiões: "será verdade que, de facto, o gajo [tratamento informal com que o distingo] jamais erra e  as dúvidas são-lhe raras?". 
Sinceramente, até fiz algumas investigações e abordei o tema com alguns amigos psicólogos e psicanalistas, nunca obtendo uma justificação convincente. Científica, diga-se assim.
Disse em muitas ocasiões de mim para mim: "o homem é impermeável aos enganos e  praticamente até às dúvidas, mas deverá ter qualquer fragilidade que hei-de descobrir."
Esta minha agrura de algumas décadas, e a esperança que jamais perdi, acabaram por conduzir-me a defeitos de Cavaco, os quais durante tanto tempo lutei para descobrir. Como sempre sucede neste tipo de questões, de decifrar um enigma, as explicações caíram-me nas mãos subitamente e sem grande esforço da minha parte.
A descodificação do enigma iniciou-se com a mensagem da Madeira, onde o ex-PR afirmou:
"Vocês têm uma banana maior..."   
Banana maior a da Madeira? O homem tem deficiências de visão? Não é engano nem dúvida. É uma certeza dele. O Prof. João Lobo Antunes tem de solicitar a um oftalmologista amigo que valha a Cavaco. De resto, quando estavam a sós, até a Dona Maria Aldegundes, estranhando a afirmação, teve com ele o seguinte diálogo:
"Ó Aníbal quanto mede uma banana da Madeira? 
"Não medi, mas é a maior e deve ter para aí uns 50 cm 
" A olhómetro não é?
"Não, medida de olhos cerrados
Por associação de ideias, também cheguei à conclusão de que, no caso de nomeação do novo governo, Cavaco é afectado por obnubilação. 
Pode parecer paradoxal, mas um homem que sofre de visão pode tornar-se visionário. Sempre ambicionou e idealizou nomear Passos Coelho como PM, recusando-se antecipar que, em alternativa, poderia deparar.se com um acordo maioritário parlamentar do PS, com o BE, PCP e o PEV, para formação de um governo socialista. Só de imaginar que, se cumprir, terá de escolher e avistar-se com António Costa, Cavaco é acometido por ataques de perturbação da visão tais, que já nem consegue observar a tonalidade da pele, o perfil físico e se o secretário-geral do PS usa óculos e tem cabelo branco, grisalho ou preto. 
Para terminar, vamos à verdade: Cavaco Silva vê o que quer ou lhe interessa ver. Não sofre de deficiência de visão. Trata-se de patologia psico-oftalmológico rara como as dúvidas. Isto é, vê e muito bem como pode infernizar mais de 2,5 milhões de portugueses que votaram nos partidos seus adversários. 
Para cúmulo, à saída da reunião no Palácio de Belém, Ulrich, líder actual dos banqueiros portugueses, revelou-se favorável à nomeação de António Costa. Quando soube, o Sr. Aníbal ficou mesmo de 'olhos em bico'.    

  

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Saltos de Coelho: revisão da CRP e o assalto ao poder

O supremo objectivo de Pedro Passos Coelho (PPC), desde 2010 (ou até antes), é materializar a revisão da Constituição da República Portuguesa. Agora mais do nunca, porque o homem está de alma mutilada pela perda do poder. 
Sem qualidade cultural e especialista em discursos palavrosos e manipuladores, Coelho acaba de manifestar desesperada disponibilidade para fazer uma revisão constitucional extraordinária, a fim de se realizarem eleições já. Concretamente afirmou:
"Estou inteiramente disponível para dar o meu apoio à revisão constitucional para que o Parlamento possa ser dissolvido."
Esta frase é apenas compreensível num político profissional mentalmente perturbado. Com efeito, pretendendo PPC retirar do posicionamento para PM António Costa - posicionamento, porque Cavaco ainda não o indigitou e não é completamente seguro que o indigite - é total ausência de lucidez comunicar em publico a vontade que o anima no sentido de rever a CRP. A mente desordenada de Coelho ignora que, para atingir este objectivo, necessita do PS? - veja-se o que estabelece o Artigo 286.º, n.º 1, da Constituição:

Artigo 286.º
Aprovação e promulgação

Outra pergunta se impõe: PPC pensará que António Costa e a vasta maioria do PS estariam na disposição de lhe facilitar a sonhada "revisão constitucional extraordinária", em prejuízo do próprio partido? Como se diz na gíria dos dias de hoje, o Coelho endoidou mesmo.

Sabe-se, repito, que, desde 2010 e com uma comissão chefiada por Paulo Teixeira Pinto, PPC está dominado pela alucinação de rever a CRP para eliminar e limitar direitos fundamentais da cidadania e do exercício democrático. O Prof. Jorge Miranda disse-o de outra forma em Dezembro de 2012:
"Há um programa, o projecto de revisão constitucional do doutor Passos Coelho de 2010/2011, em que há um projecto de refundação do Estado num sentido que tem sido chamado de neoliberal. Acho que há esse projecto por detrás dessa ideia de refundação."
Agora brinco eu em estilo abrasileirado: criem-se as condições porque "ditador de araque"já temos. E para apoiar o gabinete do Coelho até contamos também com um ministro providencial, irrevogável mas revogado, que pode ser uma espécie do Dr. Castro Fernandes da era moderna.


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O tropeção de Pedro Santos Guerreiro

Pedro Santos Guerreiro (PSG) é um dos jornalistas por quem tenho apreço. Ainda ontem tive a oportunidade de lembrar a quebra de qualidade do 'Jornal de Negócios', depois da sua saída para o 'Expresso'.
A consideração e a concordância dedicadas aos artigos e intervenções televisivas não estão condicionadas por qualquer relação pessoal - jamais o conheci pessoalmente ou fiz esforços nesse sentido. 
Trata-se meramente de me agradar a isenção, a argúcia e o estilo com que escreve. 
O 'Expresso', no seio da comunicação social portuguesa, desde há meses, embalou em descontrolada luta contra António Costa (AC); nem sei mesmo se, em certos casos, a ligação familiar do secretário-geral do PS ao pretensioso Ricardo Costa não é a fonte de sentimentos odiosos, na página do jornal, do 'Expresso Diário' e do 'Expresso Curto'.
A Ângela, o Monteiro, o Martim, o económico Vieira, uns mais do que outros, atiram-se a António Costa (AC) como gato a bofe. Destes eu entendo, ou porque detestam o mano Ricardo, ou porque estar nas graças ao Dr. Balsemão é mais gratificante do que respeitar princípios deontológicos da profissão.  Sempre foram assim.
O importante é estar na crista da avassaladora vaga contra AC - igualmente faço aqui uma declaração de princípios, assegurando que nem sou amigo de António Costa, nem tão pouco militante do PS ou de qualquer outro partido. Sou de esquerda, ponto final!
À falta de Sócrates - "por azar nosso nem tem falado", lamentam-se eles - desanca-se no Costa.
Causa-me alguma surpresa que com seu artigo 'António Gosta', PSG, que até poderia e deveria abordar o tema de forma honesta e neutral, também se tenha integrado ao núcleo de vanguardistas pró-governamentais e pró-Dr- Balsemão.
Ainda assim, PSG poderia evitar o uso de estilo jocoso e humilhante próprio do 'Correio da Manhã', No 'Expresso Diário', para consolidar o título do artigo, Pedro Santos Guerreiro, começa assim o escrito António gosta:
"Gosta de poder. Gosta de negociar. Gosta de sobreviver. António Costa quer consumar o inexplicável e conseguir o impossível. ..." 
Em jeito de réplica, poderia dizer-se que Passos e Portas não gostam mesmo nada do poder. odeiam negociar, mas gostam de sobreviver. E se ambos precisam de sobreviver da forma como vivem!  Um só começou a trabalhar quase quarentão (entretanto, a Tecnoforma e o Foral foram dando umas coroas) e o outro sem a política certamente não se meneava tanto, decorado pelos padrões da moda do Rosa & Teixeira.
Todavia, a passagem onde entendo que PSG se espalha é na seguinte: 
"[...] PCP e BE ficarão anos com a mordaça acrítica da austeridade que durante anos aí vem, os bancos que ainda há que capitalizar, a privatizações que podem continuar a ser inevitáveis?"
Afinal, PSG, de forma indirecta - ia a dizer ao estilo de insinuação covarde - desmente subtil e totalmente o governo da coligação PáF, em particular os seus líderes Coelho e Portas. Isto é, o programa de ajustamento não expirou e austeridade é para manter por anos. Trata-se de um contrato sem termo à vista, a despeito da 'troika' e FMI terem abandonado, entretanto, Lisboa. Apenas de quando em vez, os fabulosos técnicos estarão por aí  para meros actos de cortesia e, já agora!, para usufruir de  manjares de estalo no Ritz. 
Capitalização da banca? Aliena-se a CGD, como o sábio Coelho desde sempre defendeu e emprestam-se os fundos de capitalização aos bancos necessitados. Para a venda da CGD, não faltam chineses, mas começa é a faltar dinheiro aos chineses.
Por último, excepto a CGD, o que é que existe mais para vender? A TAP, sim essa sim, porque está num processo complexo, mas tudo há-de terminar em felicidade. A CP Carga, que essa então vai render umas pipas de massa a quem quiser explorar o diamante chamado 'Porto de Sines' de água profundas e de ligações marítimas ao Oriente, goza de possibilidade de venda segura, mesmo numa altura em que os Mercados Emergentes, incluindo China, e os fluxos de bens estão em declínio. 
O que temos mais para privatizar? A água, o ar, e talvez o grupo Imprensa que de manhã pode vender-se ao Estado e à tarde é transaccionado por preço muito mais elevado a um bielorrusso com direito a visto 'gold' - é uma espécie de 'cross-selling'. E pronto, pelos caminhos de Portugal, como cantava o outro, entraremos todos no paraíso.
Se, de facto, quiser continuar a fazer o jornalismo sério, sugiro ao PSG que, em vez de recorrer a amesquinhar homens como ele,  critique os políticos de forma séria e objectiva, fazendo alusão a políticas e à estratégia de desenvolvimento de que o País tanto carece. E se não é com AC, também não é com a PáF que a Pátria Portuguesa deixará de ter uma Diáspora em expansão e um Território abandonado.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O pânico na comunicação social sobre um governo de esquerda

O alvo preferido é o PS. BE e PCP, nesta fase,  são meros acessórios da retórica e propaganda anti esquerda com que a comunicação social portuguesa inunda os noticiários e prestações de comentadores.
Numa espécie de exercício escatológico, infundem a ideia, na opinião pública, de que só à direita é consentido erigir e fazer funcionar coligações partidárias. - À esquerda não! – Reclamam eles, desde os jornalistas, sem ponta de ética e de imparcialidade, aos políticos de percursos contaminados, de que Durão Barroso é um rotundo exemplo.
O nosso ex-José Manuel de Bruxelas, um servo humilde e bem recompensado por Bush, Blair e Aznar, declarou ao “Diário Económico”:
“Eleitores do PS não votaram para um governo com o PCP e o Bloco”
Trata-se de uma especulação saída do vazio, porque nenhum José Manuel, como ele, ou um José Maria, como outros, têm meios de garantir que, do primeiro ao último dos votantes do PS, ninguém foi às urnas para que se formasse um governo de esquerda.
No seio da especulação política, há uma práxis: nada é inquestionável. Portanto, usufruindo da mesma legitimidade da afirmação de Barroso, pergunto-lhe: quantos votos o PS obteria se tivesse anunciado que faria uma aliança à esquerda? Nem ele, nem ninguém sabe. A dúvida é pertinente e fica obviamente sem resposta.
É útil lembrar Barroso que António Costa, durante a campanha, sempre afirmou que não se coligaria com Coelho e Portas. Trata-se de uma forma de implicitamente dar a entender com quem se aliaria. Resta saber, agora, se a comissão política do PS, e uma parte de militantes adversários da aproximação às forças à esquerda do mesmo PS, lhe permitirão coligar-se com os partidos de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Ou os socialistas, através de Costa ou qualquer outro, são coagidos a juntar-se ou apoiar, no governo ou no parlamento, à tenebrosa trupe de Coelho e Portas.
O ‘Jornal de Negócios’, que depois da saída de Pedro Santos Guerreiro se converteu em ‘pasquim de negócios’, alarmava esta manhã ‘on-line’ que as cotações das acções da banca nacional (BCP e BPI) estavam em acentuada queda, em consequência da perspectiva de Portugal vir a ser governado à esquerda.
À tarde, porém, já publicava um texto, de onde retiramos o seguinte parágrafo:
“Os bancos nacionais acompanharam, assim,as perdas no sector na Europa. O índice que reúne os bancos do Velho Continentedesce 1,52%. O UBS Group chegou a recuar quase 3,5% durante a sessão, depois deo ministro das Finanças da Suíça ter afirmado que planeia exigir aos maioresbancos do país que tenham capital equivalente a 5% dos activos totais. O HSCBdesce 2,14%.”
Todos sabemos que os mercados, os investidores e as agências de ‘rating’ formam um demoníaco mundo. Na defesa do interesse e soberania nacionais, seria mais adequado ser honrado, sensato e patriota nas apreciações. Ainda antes das eleições, as cotações do BCP, por exemplo, estavam abaixo dos valores a que fecharam hoje e as causas eram outras.

Estes jornalistas de almanaque deveriam saber que a situação da banca nacional, em geral, é de imensa vulnerabilidade. Perante as dúvidas que se colocam à Economia Mundial – ler este artigo da Bloomberg – as preocupações atingem, a nível do Universo, os decisores ao mais alto nível. FMI e Banco Mundial, incluídos. Portugal é uma pequeníssima e frágil gota neste oceano.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Costa, afinal, é o mito que a direita esperava

Começo por ler e reflectir sobre o fragmento deste texto publicado em 1998 no ‘site’ Scielo:
“Na linguagem corrente, a palavra "mito", desprovida de qualquer complexidade, designa uma ideia falsa ou, então, a imagem simplificada e ilusória de uma realidade. Seu campo semântico é o da "mentira". […]”
O novo ano chinês, que dizem ser da ‘cabra’, foi fatal para o secretário-geral do PS, António Costa. Acima de tudo, causou um surto de brucelose de tal intensidade político-bacteriana no partido rosa que, fora outras discussões internas, já acamou definitivamente, em leito externo ao PS, Alfredo Barroso. O episódio de Costa na festa chinesa do novo ano causou a desfiliação de Barroso do partido de que foi fundador.
Com efeito, Costa desiludiu-me. Creio ter sucedido o mesmo com milhares de cidadãos, militantes ou simpatizantes, que nele votaram ou não – colateralmente, o caso do perdão de 4,6 milhões ao Benfica (“Marques Mendes são 4,6 milhões oferecidos à enorme família vermelha!”… “grito, grito, mas o videirinho não me ouve…”); ia a dizer que perdoar 4,6 milhões a um clube de futebol, chame-se Benfica ou Charneca dos Tesos Futebol Clube é abjecta ofensa à enorme horda de pobres e desempregados, crianças esfomeadas, que sobrevivem em sofrimento no tecido social deste País.
Helena Roseta, do movimento “Cidadãos por Lisboa”, a despeito da coligação com Costa, na qualidade de presidente da Assembleia Municipal felizmente parece estar segura de que a proposta lesiva para os fundos públicos será derrotada, a qual, dizem, é encabeçada por Manuel Salgado, primo do outro e braço das direitas de Costa.
Quando o povo se revelava empenhado em perfilar-se maioritariamente à esquerda para, através do voto, afastar a coligação maldita no poder, Costa oferece, de bandeja, tais prebendas eclesiásticas ao arrivista e arruaceiro Nuno de Melo que, como bom “democrata-cristão” (da corda e do tacho) a disseminou com eficácia no ‘facebook’ .
Neste ambiente de sarilhos e falta de categoria que caracteriza os políticos portugueses – salvo claro excepções e Mariama Mortágua é uma delas – o desmentido categórico da Comissão Europeia de que, afinal, os nossos desequilíbrios económicos e sociais permanecem graves e sob vigilância; sim quando há esta oportunidade de ouro de desmitificar a propaganda de Coelho, Portas, Pires e da amanuense Albuquerque, humilde servidora de Herr Wolfgang Schäuble, Costa inflige dura derrota aos cidadãos ansiosos, e são muitos,  por derrubar um governo dos mais reles e injustos que a nossa democracia conheceu.

(Obs.: não faço qualquer menção a Seguro, porque o que teria a escrever seria, no conteúdo, idêntico ao que redigi a propósito de Costa. A realidade é que o PS vive uma crise de liderança e não tem com quem a resolver.)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os atentados ao património cultural das cidades portuguesas

Sou lisboeta. Da Rua dos Sapateiros à da Madalena, as transversais da Vitória à Conceição, e outras zonas próximas da Praça da Figueira e imediações da Avenida, têm sido objecto de degradação da baixa lisboeta – uma imagem de sofrimento para quem ama os símbolos históricos da cidade.
Coimbra, Lisboa, Porto e outras cidades e vilas constituem o traço histórico com o passado da vida de populações. Há patrimónios humanistas materializados em edificações e lojas, algumas centenárias, em condenável extinção.
As autoridades, sejam do poder central ou local, têm a obrigação da preservação desse património. Todavia, cedem, submissos, a interesses financistas estrangeiros. Normalmente à ganância de corruptos e, nos tempos que correm, oriundos de países emergentes.
Os símbolos do passado e os ícones históricos ficaram à mercê do dinheiro da imundice. Mudança facilitada pelos vistos ‘gold’ e outros instrumentos, de que se ufana o político mais demagógico e desonesto intelectualmente – só? - da democracia, Paulo Portas – e Passos Coelho, um homem sem vínculos de raiz ao País, é precioso avalista da sanha destruidora.

domingo, 29 de julho de 2012

Seguro, o cacique feliz

seguroSeguro pertence ao conjunto de políticos forjados nas ‘jotas’, no caso a JS. Os padrões e capacidades em geral dessa gente, em aspectos de ordem intelectual, cultural e de consciência de homens de Estado, estão a léguas de corresponder aos desafios da governação do Portugal actual. Além do mais, atravessamos tempos de crise aguda por efeito de acumulados erros internos (mais de 30 anos!), dos desmandos do sistema financeiro internacional e ainda da obstinada recusa das economias desenvolvidas, Alemanha à cabeça, para em definitivo extinguirem a crise ou o euro – quanto tempo e dinheiro, fora o descalabro do desemprego e de outras chagas sociais, já custou a milhões de europeus a persistência da crise? Com certeza, não foi a todos. Há sempre uns a quem a UE, a Zona Euro e por tabela o Estado Português facilita uma doce vida.
Seguro, seguramente, como Passos e Gaspar, é o chamado político instantâneo, estilo ‘pudim Alsa’ ou ‘penso rápido’, sem visão estratégica – propositadamente não cito Paulo Portas, porque esse, tenho de reconhecer, tem outra envergadura e eficácia na preservação da imagem para descrever sucessivas curvetas, arregimentando um conjunto de manipuláveis marionetas. Claro que não actua em consonância com o interesse nacional, entenda-se.
Seguro, a meu ver em acto de profunda hipocrisia, declarou-se um líder “muito feliz”, a propósito de António Costa reconhecer publicamente ter condições para, se necessário, candidatar-se a secretário-geral do Partido Socialista. Seguro está ciente de que, além de perseverante cacique, a correr e manipular potenciais eleitores do País rural e urbano, nada tem de comparável com as qualidades de Costa para pegar no leme, nas tenebrosas águas em que navegamos e às quais a política de Passos e da ‘troika’ mais turbulência acrescentará.
António José Seguro, sem nunca lograr ter transcendido a mentalidade provinciana, relembre-se, é um cacique em peregrinação pelas secções do PS por esse País fora. Ora se bate com anho e arroz no forno em Baião, ora petisca sardinha assada em Portimão. E assim vai captando votos.