segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O jornalismo tacanho de Carvalho e a análise sábia de Stiglitz

Manuel Carvalho publicou no ‘Público’ o artigo ‘Maldita rentrée’.  O texto caminha por jargões e comentários, cheios de epítetos habituais em baixa política, visando sobretudo António Costa. Fala do Prof. Marcelo e também refere Passos Coelho, ao considera-lo um falhado no resultado final das políticas neoliberais adoptadas, não poupando, é óbvio, nas críticas a Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.
Por outro lado, Carvalho refere superficialmente a Europa e o euro, mas enreda-se na problemática do défice, sem que, do ponto de vista das doutrinas e políticas económico-financeiras, saia qualquer análise, ideia ou proposta de solução.
O artigo é, de facto, pobre, subjectivo e impulsionado pelo notório propósito de hostilizar o governo de António Costa, terminando nos seguintes termos:
E o PS tinha prometido um “virar de página” alicerçado na confiança, no investimento e no futuro. Bastou uma semana para nos recordarmos de que tudo isso é cada vez mais uma miragem. Maldita rentrée. »
A este jornalismo tacanho, da crítica pela crítica, oco de conceitos e repleto de adjectivação burlesca, oponho a sábia análise de Joseph Stiglitz, publicada no ‘Expresso’ do último Sábado, pelo Nobel de Economia, ex-assessor económico de Clinton e ex-vice-presente do Banco Mundial.
O artigo do prestigiado professor da Universidade de Columbia começa com o seguinte ‘lead’:
“A culpa é mais do euro do que das políticas e estruturas dos países e estruturas dos países. A zona euro impôs o tipo de rigidez do padrão-ouro.” [Observação minha: o padrão-ouro significou a adopção de um regime cambial fixo por parte de praticamente todas as grandes potências económicas, do século XIX até 1914).
Em função da extensão do artigo de Joseph Stiglitz, vou procurar sintetizar as suas conclusões no sentido de uma solução para a zona euro:
“O euro só poderá funcionar se forem alteradas as regras e as instituições da zona euro. Isto obrigará a sete alterações:
  • abandonar os critérios de convergência que obrigam a que os défices sejam inferiores a 3% do PIB;
  • substituir a austeridade por uma estratégia de crescimento, suportada por um fundo solidário para a estabilização;
  • desmantelar um sistema propenso a crises, onde os países têm de contrair empréstimos numa moeda que não é controlada por eles, e passarem a depender de Eurobonds ou de um mecanismo similar;
  • repartir melhor as responsabilidades durante o ajuste, com os países que apresentem superávites a comprometerem-se a aumentar salários os gastos fiscais [orçamentais, em meu entender]…;
  • alterar o mandato do BCE que se centra apenas na inflação, ao contrário da Reserva Federal dos EUA, que considera também o desemprego, o crescimento e a estabilidade;
  • estabelecer um seguro comum de depósitos, o que evitaria que o dinheiro fugisse de países com fracos desempenhos…;
  • e encorajar, em vez de proibir, políticas industriais concebidas para garantir que os retardatários da zona euro possam alcançar os seus líderes.
E Stiglitz remata com uma conclusão interessante. Diz o professor que, de um ponto de vista económico, estas mudanças são pouco importantes; mas à liderança actual da zona euro pode faltar vontade política para implementá-las.
Tudo o que transcrevi e o restante do artigo extenso do Nobel norte-americano devora e reduz a banalidades próprias de conversa desconexa de café o escrito por Manuel Carvalho.