quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Brasil: a corrupção golpeou a Democracia

O esgoto, a latrina, a cloaca do Congresso brasileiro, assim baptizado e deixado à nossa opção por Alexandra Lucas Coelho (jornal ‘Público’ de 24-Abr-2016), dilatou e capturou o Senado. Este órgão igualmente hediondo, por 61 votos contra 20, retirou o mandato a Dilma Rousseff, primeira mulher eleita presidente do Brasil.
A verdadeira causa do pedido de invalidação do mandato – impeachment – suporta-se, e essa é a realidade autêntica, na deliberação de Dilma favorável ao prosseguimento do ‘Lava-jacto’ e de outros processos judiciais de corrupção sobre elevadas figuras do Estado. De entre estas, num total de dezenas de congressistas e senadores corruptos, além do presidente Temer, ontem empossado, sobressaía Eduardo Cunha, presidente demitido do Congresso. Cunha cometeu crimes de lavagem de dinheiro e de corrupção passiva, recorrendo à transferência de milhões para contas, suas e de familiares, na Suíça.
O sinistro Cunha retaliou contra Dilma, na referida cloaca, com um duplo processo de invalidação do mandato e de perda de exercícios de cargos públicos.
Hoje, no Senado, Dilma perdeu o mandato, permanecendo, todavia, a usufruir dos direitos ao exercício de cargos públicos.
Para Temer, impedido de candidatar-se por indícios de corrupção, ainda restou um amargo de boca intenso. O presidente do Senado, Renan Calheiros, ao criar votações separadas para ‘a perda do mandato’ e ‘a perda dos direitos do exercício de cargos públicos’, criou, de facto, em Temer uma decepção sem limites, assim como a uma fracção significativa dos membros do PMBD, do Congresso e Senado – 42 votos contra Dilma, na votação dos direitos, foram insuficientes.
A corrupção, portanto, deu um golpe na Democracia do Brasil, mas parte significativa da população, incluindo artistas e intelectuais, revela-se disposta a fazer da luta contra Temer, o governo presidencial e acólitos uma batalha incessante de contragolpe de sentido democrático.
No futuro próximo ou longínquo, ou em ambos, a vida política e social no Brasil será de perturbação continuada, a não ser que, entretanto e na extensão dos fortes contingentes policiais já utilizados, o exército tome parte no conflito. E das forças armadas a ordenar e condicionar a governação, parte do povo do Brasil, fora os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar, retém na memória o sentimento e imagens dessa dura e longa punição.