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quinta-feira, 18 de maio de 2017

A sorte da Lituânia e o azar de Portugal

João Vieira Pereira (JVP), Director-adjunto do jornal “Expresso”, publicou na edição ‘online’ do “Expresso Diário”, um artigo sob o título “Sorte? Sorte têm os lituanos”.
JVP é um jornalista conhecedor das regras deontológicas da profissão, nomeadamente a objectividade, a imparcialidade e a ética na missão de avaliar, informar e comentar – ainda hoje no “Expresso Curto” crítica, duramente e bem, a abjecta divulgação de um vídeo pelo “Correio da Manhã” de uma alegada violação de uma jovem num autocarro do Porto.
O conhecimento das citadas regras e dos deveres do jornalismo, no caso de JVP, constitui uma razão acrescida para, no comentário do desempenho económico governativo ou de qualquer outro tema, afastar do que escreve o ressabiar, a mesquinhez e a falta de rigor com que trata António Costa. Criticar com fundamento é uma coisa, atacar com superficialidade e má-fé é outra, bem distinta e condenável.
De entrada, JVP reconhece que António Costa é um “político exímio”. Todavia, logo acrescenta que, conquistada a esquerda para as políticas de direita, Costa “está a colher frutos de uma estratégia que não é a sua”. Impõe-se perguntar: então de quem é? Como a oposição de direita ao actual governo tem uma devoção por figuras transcendentais, em que JVP se revê, admitamos que é Lúcifer o autor da estratégia.
Com aviltante simplismo, e baseando-se no facto de Portugal ter tido um acréscimo do PIB de “apenas” 2,8% no 1.º trimestre de 2017, considerando o período homólogo de 2016, e a Lituânia 4,1%, JVP escreve:
“[…] estamos mais próximos do bem-estar da Roménia ou da Bulgária do que dos países com os quais nos costumávamos comparar. Este ano é a vez de a Lituânia nos dizer adeus.”
Concluir isto através do PIB de um trimestre é demasiado redutor e, digo-o sem receio, intelectualmente desonesto. Comparemos somente alguns dados demográficos e macroeconómicos de um e de outro país:

População
Portugal: 10.265.566
Lituânia:   2.786.187

Salário Mínimo Nacional (2015)
Portugal: 589,17 Euros
Lituânia: 300,00 Euros
Fonte: Eurostat

PIB (2016)
Portugal: 205.860 mM de USD
Lituânia:   42.780 mM de USD
Fonte: FMI

Taxa de Desemprego (2016):
Portugal: 11,2%
Lituânia:   7,8%

O desemprego na Lituânia está, de facto, abaixo do nível percentual de Portugal. Todavia, é preciso sublinhar que, depois da adesão à UE em 2004, o país báltico, desde 2007, registou uma diminuição da população de cerca de 17,3% (-582.813 cidadãos residentes), por efeito da forte emigração para destinos da UE em 9 anos. Portugal, no mesmo período, teve um decréscimo de 2,60% (-274.340 cidadãos residentes).
Quanto ao crescimento do PIB da Lituânia, e tendo em conta a adesão à UE em 2004, nas causas desse aumento encontrar-se-á certamente o investimento público auxiliado por fundos europeus, fenómeno que em Portugal se registou nos tempos de Cavaco Silva e António Guterres e que, para o caso, não é despiciendo. Igualmente não é desprezível a posição da Lituânia como destino de indústrias deslocalizadas a partir de países de custos de mão-de-obra mais elevados, nem as multi fronteiras com a Bielorrússia, a Letónia, a Polónia e a Rússia - Portugal tem Espanha e o Mar.
Comparar países apenas através do PIB trimestral, sem atender a outros factores, é um erro, demasiado grave se propositado.



terça-feira, 29 de abril de 2014

Sucessivamente menos e mais velhos

O ‘Público’ revelou os dados demográficos do INE, ilustrados pelo gráfico seguinte:
Jamais se registou um número anual de nascimentos tão reduzido (83.114) em relação ao número de óbitos (106.855); uma diferença de – 23.741 que projecta a taxa de natalidade para um valor muito mais baixo do que o índice de mortalidade. Somos, de facto, cada vez menos, nós os portugueses, e mais idosos.
Os sociólogos começaram por considerar que, no período pós-industrial iniciado em 1973, a quebra das taxas de natalidade estava equilibrada com a taxa de mortalidade, o que proporcionava um ajustamento demográfico, na generalidade dos países desenvolvidos – EUA e Europa.
Todavia, esse equilíbrio no Velho Continente tem-se vindo a deteriorar, sendo Portugal dos países mais afectados. A situação é comprovada pela estrutura demográfica do País em 2013:
 0-14 Anos: 16% (masculino 900,758/feminino 827,219)
15-24 Anos: 11.4% (masculino 655,365/feminino 581,010)
25-54 Anos: 42.4% (masculino 2,303,445/feminino 2,270,380)
55-64 Anos: 11.8% (masculino 595,464/feminino 681,506)
65 Anos e acima: 18.4% (masculino 811,005/feminino 1,173,118)
Os estudos sociológicos afloram diversas causas do tipo de transição demográfica com que nos debatemos: acesso mais fácil e recorrente a meios contraceptivos, urbanização, redução ou mesmo eliminação do trabalho infantil e custos de investimento dos pais na educação dos filhos. O saldo migratório também entra nos cálculos, e é muito desfavorável nos últimos anos a Portugal.
Também são abordadas, de forma abstracta, alterações económicas. Todavia, e porque os estudos se fundamentam em sociedades com taxas de substituição mais equilibradas e são de carácter genérico, omitem – e é aceitável que o façam – países de menor dimensão, caso de Portugal.
Por outro lado, o que não me parece tão tolerável, é não acentuar que, na luta pela produtividade + competitividade, a totalidade do tempo de trabalho libertado pela racionalização e a introdução de novas tecnologias não é, de facto, recompensado, por manifesta incapacidade de extensão indefinida da esfera económica.
É, pois, no enquadramento do citado binómio, que privilegia os défices e esquece os cidadãos, que o número de portugueses, a viver em solo pátrio, vai definhando, no número e no estilo de vida. Trata-se de um princípio ideológico de fundo que a Europa, o nosso actual governo, o próximo, o próximo a seguir ao próximo e por aí adiante, inseridos na lógica do capitalismo pós-moderno, jamais reverterão.
A única saída possível, e porque os portugueses não estão sós nesta trincheira, reside na acção colectiva de várias sociedades europeias e outras que se empenhem no combate contra a desigualdade e pela transformação radical dos sistemas internacionais económico e financeiro. Provavelmente serão necessárias décadas; porém, a humanidade ainda não chegou, de facto, ao “fim da história”.