terça-feira, 29 de abril de 2014

Sucessivamente menos e mais velhos

O ‘Público’ revelou os dados demográficos do INE, ilustrados pelo gráfico seguinte:
Jamais se registou um número anual de nascimentos tão reduzido (83.114) em relação ao número de óbitos (106.855); uma diferença de – 23.741 que projecta a taxa de natalidade para um valor muito mais baixo do que o índice de mortalidade. Somos, de facto, cada vez menos, nós os portugueses, e mais idosos.
Os sociólogos começaram por considerar que, no período pós-industrial iniciado em 1973, a quebra das taxas de natalidade estava equilibrada com a taxa de mortalidade, o que proporcionava um ajustamento demográfico, na generalidade dos países desenvolvidos – EUA e Europa.
Todavia, esse equilíbrio no Velho Continente tem-se vindo a deteriorar, sendo Portugal dos países mais afectados. A situação é comprovada pela estrutura demográfica do País em 2013:
 0-14 Anos: 16% (masculino 900,758/feminino 827,219)
15-24 Anos: 11.4% (masculino 655,365/feminino 581,010)
25-54 Anos: 42.4% (masculino 2,303,445/feminino 2,270,380)
55-64 Anos: 11.8% (masculino 595,464/feminino 681,506)
65 Anos e acima: 18.4% (masculino 811,005/feminino 1,173,118)
Os estudos sociológicos afloram diversas causas do tipo de transição demográfica com que nos debatemos: acesso mais fácil e recorrente a meios contraceptivos, urbanização, redução ou mesmo eliminação do trabalho infantil e custos de investimento dos pais na educação dos filhos. O saldo migratório também entra nos cálculos, e é muito desfavorável nos últimos anos a Portugal.
Também são abordadas, de forma abstracta, alterações económicas. Todavia, e porque os estudos se fundamentam em sociedades com taxas de substituição mais equilibradas e são de carácter genérico, omitem – e é aceitável que o façam – países de menor dimensão, caso de Portugal.
Por outro lado, o que não me parece tão tolerável, é não acentuar que, na luta pela produtividade + competitividade, a totalidade do tempo de trabalho libertado pela racionalização e a introdução de novas tecnologias não é, de facto, recompensado, por manifesta incapacidade de extensão indefinida da esfera económica.
É, pois, no enquadramento do citado binómio, que privilegia os défices e esquece os cidadãos, que o número de portugueses, a viver em solo pátrio, vai definhando, no número e no estilo de vida. Trata-se de um princípio ideológico de fundo que a Europa, o nosso actual governo, o próximo, o próximo a seguir ao próximo e por aí adiante, inseridos na lógica do capitalismo pós-moderno, jamais reverterão.
A única saída possível, e porque os portugueses não estão sós nesta trincheira, reside na acção colectiva de várias sociedades europeias e outras que se empenhem no combate contra a desigualdade e pela transformação radical dos sistemas internacionais económico e financeiro. Provavelmente serão necessárias décadas; porém, a humanidade ainda não chegou, de facto, ao “fim da história”.