sexta-feira, 4 de abril de 2014

Passos Coelho: a doentia visão da saúde





Dados divulgados, também hoje, pelo jornal 'Público':

O PM, com a falta de ética e rigor que o distinguem, afiançava na Casa da Democracia, o Parlamento, que não há menos saúde no País com o seu governo, em resposta ao deputado e médico, João Semedo, do BE.
Em primeiro lugar, quando Passos Coelho diz que, em Portugal, não há menos saúde, pretendia dizer que no SNS não se registam quebras na prestação de cuidados de saúde. Como dizia ontem na SICN Maria do Carmo Vieira, professora e autora do livro 'O Ensino do Português", basta ouvir os nossos governantes e imediatamente se percebe que são "broncos". Temos, portanto, de descodificar as mensagens grosseiras, mas infelizmente já estamos habituados.
Saltando da forma para o conteúdo, torna-se  claro  que as palavras do PM não passam de uma intrujice, se tomarmos em consideração o evidenciado no gráfico acima reproduzido e o seguinte texto da notícia:
"Os hospitais públicos fizeram menos 44 milhões de actos complementares de diagnóstico (análises e exames como radiografias ou endoscopias) e menos 2,6 milhões de actos complementares de terapêutica (fisioterapia, radioterapia, etc.), entre 2010 e 2012. Em contrapartida, neste período as unidades privadas aumentaram substancialmente a sua actividade nestas duas áreas, ainda que isso não tenha sido suficiente para compensar a redução verificada no sector público. Nestes dois anos, o número total de exames e análises caiu 26,5%."
Entre esta mensagem concreta e o discurso de Passos Coelho há uma enorme diferença, que jamais uma intrujice pode esconder: a falsidade das declarações do PM, por um lado, e a realidade dos serviços de saúde em hospitais do Estado que a evidencia, por outro.  
Há diversas opiniões a premiar Paulo Macedo pelo desempenho como Ministro da Saúde. Uma delas, cito-a por ser figura muito mediática, chama-se Clara Ferreira Alves. Saberá esta senhora que, em hospitais públicos, uma consulta de cardiologia tem um tempo de espera de cerca de 10 a 12 meses? Ou ainda que um doente com uma dor ciática, além de quatro injecções de 'Voltaren + Relmus' receitadas pelos serviços de urgência, é enviado para uma consulta hospitalar de reumatologia com um tempo de espera igualmente de meses? 
Neste cenário, e  segundo outra interpretação possível, da mensagem de Coelho também se pode inferir que "não há menos saúde", porque uns, com posses, recorrem aos serviços de prestadores privados e outros sem meios financeiros morrem, contando estes últimos para as estatísticas de óbitos.
(Adenda: seguindo idêntica tendência é também demonstrado pelo Público que a nível geral, actividade hospitalar em particular, os serviços de cuidados de saúde público diminuíram a actividade em favor do sector privado - O PM ainda está mais afastado da verdade)