domingo, 20 de abril de 2014

O Papa Francisco e o cardeal Clemente



Há imagens suficientemente elucidativas. Sobretudo, se habilitam à comparação do comportamento de homens. Sem manipulações tecnológicas ou outras, retratam com fidelidade semelhanças e diferenças; neste último caso, se se tratarem de figuras de idêntica instituição ou organização social, política ou religiosa, os contrastes tornam-se mais claros, por contradição. Às vezes chocantes. Veja-se a decente - e acredito que sentida - meditação e clemência do Papa Francisco (há dias na Via Sacra) e o ar de abjecta euforia do cardeal Manuel Clemente.
As imagens, porém, podem induzir a interpretações inexactas; mas, depois, há as palavras de um e de outro, a seguir destacadas:
Papa Francisco:
"Na cruz vemos a monstruosidade do homem, quando permitimos ser guiados pelo mal, mas também vemos a imensidão da misericórdia de Deus, que não nos trata segundo os nossos pecados, mas segundo a sua misericórdia". E solidarizou-se com desempregados, sem-abrigo, doentes, imigrantes, idosos ou presos, atrás de uma cruz de madeira, que simboliza o "sacrifício" de Jesus.
Palavras do cardeal Clemente:
"A esperança com que saímos do 'programa de assistência' sobrevém da nossa capacidade de resistir e inovar"
É uma afirmação política tendenciosa, que tentou reforçar de forma ténue, imprecisa, com a banalidade de quem, tendo que dizer algo como chefe religioso, jamais integra o ideário que o Papa Francisco tem revelado com frequência. Disse, depois, o cardeal:
“Interrogar-me-ei decerto e no plural sobre se, depois de termos acompanhado na paixão de Cristo o destino de todos os injustiçados, ficámos mais comprometidos num rumo de solidariedade e entrega, que triunfa sobre a própria morte - todos os tipos de ‘morte’” 
É um discurso demasiado opaco e teórico. Construído sem o pragmatismo e a crítica ao poder exercido por gente impreparada, sem valores e referências humanitárias e com o desprezo peculiar da ICAR de João Paulo II e Bento XVI, reaccionária e incapaz de combater escândalos de vários géneros (financeiros, sexuais e sociais) que constituem máculas nojentas da igreja do Vaticano há décadas.
Curioso a notícia integrar a descrição de um casal de desempregados inebriados pela fé religiosa de ultrapassarem o adverso trajecto em que estão envolvidos. Num país governado por um PM que jurou em Bruxelas, Berlim e Lisboa empobrecer o povo português, sem que o cardeal Clemente o denuncie, é complexo que as centenas de milhares que lutam contra dificuldades, como este mais de um milhão de estudantes, logrem resolver os problemas da vida com o credo e a doutrina da profissão de fé.
Sou agnóstico.