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acto de inauguração dos HSdoB - Manuel Agonia e Passos Coelho na Capela em 02-12-2014 |
O maior hospital privado do País
está em agonia e em risco de encerramento em Abril próximo, anuncia o [Público],
citando o Jornal de Negócios. Quem divulgou o caminho da tragédia foi o
proprietário; por casual ironia, o senhor chama-se Manuel Agonia. Cada vez que
escreve ou assina o nome, sofre pesada tortura.
O estado do Sr. Agonia é visivelmente
de perturbação aguda. Desesperado, no ‘site’
do HSdoB está reproduzido um trecho de uma entrevista ao ‘Jornal Terras do
Ave’. Foi categórico na defesa de extinção do Ministério da Saúde – e,
pergunto, porque não a Organização Mundial de Saúde, assim como a Organização
dos Médicos sem Fronteiras e todas as instituições, públicas ou privadas, que
valem a doentes sem recursos para despesas de saúde?
Bom, vamos ao historial dos HSdoB.
Na unidade, refere
o ECO, foram investidos 100 milhões de euros, tendo sido inaugurada em 2 de
Dezembro de 2014. Como a fotografia demonstra, lá estão o Sr. Agonia e o PM da
ocasião, o Dr. Pedro Passos Coelho, hoje catedrático do ensino superior público (ISCSP).
O cenário seleccionado para
ilustrar o acto foi uma capela. Poderia ter sido o bloco operatório, o
laboratório de análises clínicas ou uma enfermaria. Mas não. A capela é o lugar
crucial de qualquer hospital que prossiga o objectivo de prestação de cuidados
de saúde, sobretudo a extrema-unção. O hospital, na óptica do Sr. Agonia, é um templo sagrado. Conquanto
agnóstico, não resisto a citar o Padre António Vieira em o ‘Sermão do Mandato’
(1645):
“… o principal intento do Evangelho foi mostrar a ciência de Cristo, e
o principal intento de Cristo mostrar a ignorância dos homens.”
Quanto à situação financeira, o
Sr. Agonia alega que, há mais de um ano, o SNS é devedor dos Hospitais do
Senhor do Bonfim. Acredito e as dificuldades de tesouraria agudizam-se pelo
atraso de meses e meses da ADSE e outras instituições do Estado (um ano de
atraso, penso). Sei desse tipo dificuldades, por experiência própria. São 500
mil euros que, argumenta, impediram o pagamento de salários dos meses de
Janeiro e Fevereiro a 350 trabalhadores. Feitas as contas, e tomando por
verdade que os citados 500 mil euros são a verba em falta para esses salários,
conclui-se que o salário médio bruto dos HSdoB é de pouco mais de 714 mensais.
Manifestamente escasso para profissionais hospitalares que incluem médicos,
enfermeiros, técnicos de análises e de imagiologia, operadoras auxiliares e
administrativos.
O que está em causa, acima da
dívida inaceitável do Estado, é a sustentabilidade de uma unidade de saúde que
foi projectada para facturar 44 milhões de euros anuais e, em 2017, viu esse
valor ficar reduzido a 3 milhões. Estamos perante um investimento megalómano,
sem a menor racionalidade económica, que, excluídos os doentes de convenções
com Estado, no âmbito do SNS, não tem, de facto, a mínima sustentabilidade
económica. Por que razão foi dimensionado com 549 camas, o dobro do Hospital da
Luz em Lisboa? Por pura incompetência na concepção e realização do projecto. É
o resultado dos empresários ambiciosos e impreparados que temos, assim como dos
técnicos do projecto contratados.
Sugiro que o Sr. Agonia se
aconselhe junto do Dr. Passos Coelho, agora catedrático de ‘Administração
Pública’. Terá a receita milagrosa para solucionar o problema.
O Estado é sempre o alvo de
acusações de empresários incompetentes, mas não compete aos contribuintes pagar
asneiras dessa gente, muito menos da dimensão daquela que ditou a agonia do
hospital do Sr. Manuel Agonia.
Termino com uma confissão: estou,
de facto, demasiado agoniado com este caso e a forma como a comunicação social
o trata.