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sábado, 28 de julho de 2012

Síria, o protectorado de Putin onde o Ocidente não toca

síriaLembremos a Líbia, bem como a bárbara execução do ditador Kadhafi que nenhuma democracia legítima do ponto de vista ético e da superioridade no exercício da justiça. Atacada a ferro e fogo sob as ordens da França de Sarkozy, associadas  à conivência activa de Berlusconi e Obama, os apregoados ideais de defesa das liberdades do povo líbio – ou do petróleo? – ficaram desmistificados. Tudo se resumiu a actos de cruel cinismo.
Da parte dos principais líderes da UE e dos EUA, é chocante a passividade perante os acontecimentos na Síria; onde, desde há um ano, o regime de Bashar al-Assad dizima milhares de vidas - crianças, mulheres e idosos, incluídos - numa das carnificinas mais sangrentas e brutais da actualidade. O Ocidente, nas declarações inconsequentes de Hillary Clinton, nas críticas vagas da UE e nesse vai-e-vem patético de Kofi Annan a Damasco, deixa claro não querer tocar no protectorado de Vladimir Putin.
Verdadeiramente, em termos de petróleo, o interesse da Rússia é nulo, uma vez que dispõe de vastos e diversificados recursos energéticos e, para além disso, a Síria não tem a expressão da Líbia.
As bases em solo sírio integram-se nos desígnios geoestratégicos de Putin homem que é essa herança preciosa do alcoólico Ieltsin, no bailado da “democracia rotativa” dançado com Medvedev. Vale-se de expressão artística e de estética política com talento superior à arte corporal dos bailarinos do Teatro Bolshoi.
Da guerra fria, o mundo evoluiu para os actuais tempos teatrais do absurdo; onde, uns líderes falam sem sentido e outros são impunes a fomentar e manter jogos de guerra.     ‎    

  

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Líbia, a Síria e o Ocidente


Tripoli está a ferro e fogo. Os rebeldes sob o comando CNT (Conselho Nacional de Transição) controlam grande parte da cidade, mas ainda há núcleos de resistência pró-Kadhafi e Saif al-Islam,  um dos filhos do ditador, acabou por fugir dos captores e falou aos jornalistas no Hotel Rixos, em Tripoli. Obama, entretanto, já declarou o fim do regime líbio e apela no sentido de uma transição pacífica. O melhor, digo eu, é esperar para ver. Onde existe a alta negociata do petróleo e dinheiro a rodos, as relações de poder e da coesão social, normalmente, corrompem-se facilmente.

Com o mesmo Kadhafi a dirigir, houve várias 'Líbias' a relacionar-se com o Ocidente: (i) a Líbia dos anos 1980, década em que prevalece a morte de 270 pessoas devido à queda do avião da Pan Am em Lockerbie e atentados bombistas em vários pontos da Europa, em especial em França; (ii) a época de recuperação do ditador líbio para o círculo de amigos do Ocidente, patrocinada por Bush, materialmente aproveitada por Berlusconi e, finalmente, defendida com amizade por Aznar - duas figuras do quarteto dos Açores que o "nosso" Barroso e Blair completam.
Na vaga dos levantamentos populares do Magreb e do Médio Oriente, Kadhafi foi inundado pela mesma maré. E a compaixão ocidental, cínica, selectiva e interesseira, viu a oportunidade de intervir militarmente na Líbia, através da NATO. Tudo em nome da defesa dos direitos humanos do povo líbio.
É, pois curioso, em simultâneo e semana após semana, assistirmos à carnificina de dezenas de sírios pelas tropas de Bashar al-Assad, sem que o Ocidente passe da oratória de recomendações. Qual então a causa de abordar situações semelhantes com acções divergentes? Falta de solidariedade e de respeito pelos direitos do povo sírio? Parece inequívoco. A motivação de fundo dos dirigentes ocidentais para agir diferente é apenas uma: a posição geoestratégica e demográfica, assim como o valor económico do petróleo da Líbia superam a complexa localização geográfica da Síria - entregue-se a tarefa aos turcos - e ainda mais a reduzida importância da produção petrolífera do país de Bashar al-Assad.
Do argumento político, não colhe a estafada justificação de que Kadhafi já estava no poder desde 1969; há 42 anos portanto. Também o clã al-Assad, através do pai Hafez, detém o poder na Síria desde 1970; há 41 anos. O que conta - sim, verdadeiramente o que conta - é, de facto, os interesses geoestratégicos e os perfis socioeconómicos dos países revelados no quadro acima; do qual destaco os seguintes aspectos:
  • A Síria tem mais do triplo da população da Líbia (3,37);
  • O PIB da Síria reduz-se a cerca de 60% de igual variável da Líbia;
  • O saldo da Balança de Pagamentos Correntes da Síria (US$ 459.000) é apenas 1,29% de igual valor das contas nacionais da Líbia (US$ 35.702.000).