terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Líbia, a Síria e o Ocidente


Tripoli está a ferro e fogo. Os rebeldes sob o comando CNT (Conselho Nacional de Transição) controlam grande parte da cidade, mas ainda há núcleos de resistência pró-Kadhafi e Saif al-Islam,  um dos filhos do ditador, acabou por fugir dos captores e falou aos jornalistas no Hotel Rixos, em Tripoli. Obama, entretanto, já declarou o fim do regime líbio e apela no sentido de uma transição pacífica. O melhor, digo eu, é esperar para ver. Onde existe a alta negociata do petróleo e dinheiro a rodos, as relações de poder e da coesão social, normalmente, corrompem-se facilmente.

Com o mesmo Kadhafi a dirigir, houve várias 'Líbias' a relacionar-se com o Ocidente: (i) a Líbia dos anos 1980, década em que prevalece a morte de 270 pessoas devido à queda do avião da Pan Am em Lockerbie e atentados bombistas em vários pontos da Europa, em especial em França; (ii) a época de recuperação do ditador líbio para o círculo de amigos do Ocidente, patrocinada por Bush, materialmente aproveitada por Berlusconi e, finalmente, defendida com amizade por Aznar - duas figuras do quarteto dos Açores que o "nosso" Barroso e Blair completam.
Na vaga dos levantamentos populares do Magreb e do Médio Oriente, Kadhafi foi inundado pela mesma maré. E a compaixão ocidental, cínica, selectiva e interesseira, viu a oportunidade de intervir militarmente na Líbia, através da NATO. Tudo em nome da defesa dos direitos humanos do povo líbio.
É, pois curioso, em simultâneo e semana após semana, assistirmos à carnificina de dezenas de sírios pelas tropas de Bashar al-Assad, sem que o Ocidente passe da oratória de recomendações. Qual então a causa de abordar situações semelhantes com acções divergentes? Falta de solidariedade e de respeito pelos direitos do povo sírio? Parece inequívoco. A motivação de fundo dos dirigentes ocidentais para agir diferente é apenas uma: a posição geoestratégica e demográfica, assim como o valor económico do petróleo da Líbia superam a complexa localização geográfica da Síria - entregue-se a tarefa aos turcos - e ainda mais a reduzida importância da produção petrolífera do país de Bashar al-Assad.
Do argumento político, não colhe a estafada justificação de que Kadhafi já estava no poder desde 1969; há 42 anos portanto. Também o clã al-Assad, através do pai Hafez, detém o poder na Síria desde 1970; há 41 anos. O que conta - sim, verdadeiramente o que conta - é, de facto, os interesses geoestratégicos e os perfis socioeconómicos dos países revelados no quadro acima; do qual destaco os seguintes aspectos:
  • A Síria tem mais do triplo da população da Líbia (3,37);
  • O PIB da Síria reduz-se a cerca de 60% de igual variável da Líbia;
  • O saldo da Balança de Pagamentos Correntes da Síria (US$ 459.000) é apenas 1,29% de igual valor das contas nacionais da Líbia (US$ 35.702.000).
A consulta do quadro permite outro tipo de conclusões consonantes com a relativa importância da Síria, como espaço económico e de negócios, face à Líbia. E se mais provas fossem necessárias, juntaríamos esta notícia que nos revela que, por negociação com o CNT, a França já assegurou a aquisição de um terço de petróleo líbio no futuro. Sem haver poder eleito, note-se.
Temos, assim, a prova da falsidade dos desígnios humanitários dos países ocidentais e, em relação à França, percebe-se a liderança do número de ataques executados - 2.225 aproximadamente 33% do total de 6.745 registados pela NATO em 4 de Agosto.
Entretanto, terminemos a citar o que sucede um bocado mais abaixo: Na Somália, estima-se em 400.000 o número de crianças em risco de morte por fome. Onde está, neste caso, a filantropia do elevado humanismo ocidental? Telefonemos aos diversos Chefes de Governo dos países da NATO, ao FMI, à CE. Ah! Já agora não esqueçamos também Bento XVI, no Vaticano ou em Castel Gandolfo.