terça-feira, 18 de abril de 2017

De Djerba à ‘Madrugada’ de Manuel Bandeira

Sinto saudades da Djerba, ilha de praia e mar quentes e de inesperados afectos. Recordo a luz solar intensa, em que parti naquela manhã a caminho de Tataouine, onde, no mercado da praça central, fruí de perfumes deveras exóticos e envolventes, de especiarias e legumes do Magrebe. Jamais os esquecerei.
No declínio solar, horas depois de Tataouine, avancei no Sahara, onde a noite imponente trucidou, com suavidade, o meu olhar. Estrelas em abundância, muitas delas, cadentes, desafiaram esse mesmo olhar, então deslumbrado. Da escuridão, vinda do céu estrelado e riscado, veio o sono. Adormeci em absoluta serenidade.
Que saudades do Sahara tunisino, que relembro nesta aldeia alentejana. Sob a negridão de noite quente do Alentejo do Alto, olho o céu igualmente estrelado e leio o poema ‘Madrugada’ de Manuel Bandeira, à luz trepidante de branca vela, iluminando o plácido tempo de me embalar:

Madrugada

As estrelas tremem no ar frio, no céu frio…
E no ar frio pinga, levíssima, a orvalhada.
Nem mais um ruído corta o silêncio da estrada,
Senão na ribanceira um vago murmúrio

Tudo dorme. Eu, no entanto, olho o espaço sombrio,
Pensando em ti, ó doce imagem adorada!...
As estrelas tremem no ar frio, no céu frio,
E no ar frio pingam as gotas da orvalhada…

E enquanto penso em ti, no meu sonho erradio,
Sentindo a dor atroz desta ânsia incontentada,
- Fora, aos beijos glaciais e cruéis da geada,
Tremem as flores, treme e foge, ondeando o rio,

E as estrelas tremem no ar frio, no céu frio…