quinta-feira, 20 de abril de 2017

O sucesso dos autocratas em regimes democráticos

No próximo fim-de-semana, terão lugar as eleições presidenciais em França, 1.ª volta. Segundo sondagens, Marine Le Pen tem a probabilidade de as vencer, o que, a suceder, constituirá um pesado revés para a pátria francesa, da fraternidade, da igualdade e da liberdade. 
A democracia francesa salvar-se-á do poder de uma nacionalista, xenófoba e anti-europeísta convicta, apenas porque o sistema eleitoral do País prevê uma 2.ª volta e, aí sim, o candidato vencedor será quem recolher mais do que 50% dos votos expressos – Macron, dizem também as sondagens, é considerado o favorito.
Parte substancial das super-estruturas da UE, se Macron ganhar, respirará de parcial alívio. A tranquilidade não será, pois, absoluta. Os nacionalismos tornaram-se endémicos na Europa, tendo vindo a ignorar-se, por exemplo, o comportamento da Hungria e da Polónia no sentido desse movimento. Igualmente absurdo será subestimar-se a representatividade que a extrema-direita (AfD) venha a obter nas próximas eleições na Alemanha – as sondagens atribuem-lhe um resultado à volta de 10%.
Todavia, se dispersado o olhar, o mundo e o assalto ao poder por populistas e nacionalistas autocratas, observamos que da endemia europeia passamos à epidemia mundial. Tivemos Chavez, e agora Nicolás Maduro, na Venezuela, a tortuosa ascensão ao poder de Temer no Brasil, a concentração de poderes alcançada por Putin na Rússia, a eleição do odioso Trump nos EUA e, como a maldição é, de facto, epidémica, no último fim-de-semana, a Turquia, através de pseudodemocrático referendo, atribuiu a Ergodan plenos poderes para governar, no seu estilo autoritário, o país de Mustafa Atatürk durante mais de uma década.
Os autocratas, através de campanhas e acções urdidas sem escrúpulos, estão a obter um sucesso paradoxal em estados democráticos. Conseguem-no no seio de regimes de liberdades, derrotando os defensores dos valores da livre expressão de opiniões, da convivência pacífica e universal, do respeito pela diferença de opções políticas, credos, nacionalidades e mesmo etnias.
Os riscos dos exacerbados e propagados nacionalismos, assim como o assalto ao poder por métodos sinuosos constituem um custo demasiado pesado da prodigalidade das democracias que, vítimas de tanta generosidade, acabam mitigadas ou mesmo, em certos casos, dizimadas.
Resta esperar um futuro melhor para o mundo e que a penosa onda de autocracia desfaleça. Todavia, as barreiras, as existentes e outras a caminho, desafiam a um papel activo e de combate por todas as mulheres e homens alinhados pelo culto e a veneração da democracia plena, substancial nos princípios e sólida nos objectivos.