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sábado, 3 de outubro de 2015

'Les feuilles mortes' de Yves Montand


Outono. O cenário dos dias torna-se mais triste. O céu está semiescondido por uma nebulosidade alta. O Sol também. Se voltar nos tempos próximos, a visita será provavelmente efémera. As folhas dos choupos à volta da minha casa precipitam-se sem cessar no solo que é o seu abismo. A criancinha pequena liberta-se da mão da mãe e salta com prazer sobre 'as folhas mortas'. Houve os estalidos da folhagem pisada e ri-se de alegria. É a chegada do Outono percebida pela inocência de um petiz a quem qualquer brincadeira faz feliz. 
O que vejo na felicidade da criança trouxe-me à memória a canção 'Les Feuilles Mortes' que adopto como melodia deste plúmbeo Sábado de Outubro. 
Confesso que, na intimidade dos meus sentimentos, desejo que aquele movimento de declínio se transforme, neste fim-de-semana, em metáfora da queda dessa repugnante gente que, neste País, tem tido o prazer sórdido de disseminar a pobreza, a injustiça social e a alienação ao desbarato de bens patrimoniais e enormes fatias da soberania de uma Nação com 9 séculos de História. Revelo ainda que, com alegria semelhante à da criança a calcar as folhas dos choupos, espezinharia com felicidade capitosa essa canalhada atirada por terra. Oxalá tenha a oportunidade de tal regozijo.     
   

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Os milhões do pontapé na bola, a obscenidade dolorosa

Do prazer ao rancor, assim posso sintetizar a evolução dos meus sentimentos em relação ao futebol.
Há que hierarquizar os acontecimentos da vida colectiva. Nos actuais tempos de crise em que as sociedades europeias estão mergulhadas, com milhões de cidadãos punidos pela pobreza e mesmo a miséria, obsceno é o menor dos desqualificativos apropriado para etiquetar o negócio do futebol actual.
Mesmo incluindo a Alemanha, expressão do domínio económico do Velho Continente, na União Europeia (28 países) sobrevivem 24.850 milhões de desempregados e na Zona Euro (18 países) o desemprego, a uma taxa de 11,5% em Julho 2014, atingiu 18.409 de cidadãos de ambos sexos.
O desemprego juvenil é naturalmente elevadíssimo: 5.062 milhões de jovens é a estimativa; sublinho estimativa, porque aos cálculos do Eurostat partem de critérios, os quais Portugal também aplica, e conforme o ‘Expresso’ demonstra à exaustão, na edição do último Sábado, menorizam ardilosamente a dimensão real deste desastre social.
É neste cenário de falta de trabalho, de remunerações ao nível da escravatura dos tempos modernos, de crescente número de famílias na pobreza e miséria, que os milhões e milhões de libras ou euros aplicados na transacção de jogadores de futebol me agitam a alma. A revolta é impulsionada por essa gentalha triunfadora da desgraça e da falta de tino alheias, pertençam à mafia russa, às oligarquias árabes ou grupos privilegiados – um exemplo destes últimos é constituído pelos dirigentes do Real Madrid e Barcelona, com gastos de 161 milhões de euros em dois jogadores, Suarez e James Rodriguez, ambos colombianos. Todavia, a taxa de desemprego em Espanha era de 25,2% em Julho passado, a segunda maior dos 28 países da UE depois da Grécia com 27,2%.
Nas terras de sua majestade, que poderão ficar amputadas da Escócia, apenas um clube, Manchester United, investiu 188 milhões de euros. Em Portugal, confinado à sua pequenez, através dos 3 grandes também se transaccionou, na compra e venda, diversos jogadores, na casa de alguns milhões. Mais de 20, estou certo.
Esta sociedade do futebol e de outras ignomínias, a mim, aqui neste interior de Portugal de velhos e pobres, causa-me indignação, mas igualmente sofrimento. A Comunicação Social, SIC Notícias e TVI 24 em especial, com vastos tempos de antena dados ao futebol, pela voz de alguns impreparados que praticam uma espécie de AO falado, suscitam-me repugnância.
O retorno de Judite de Sousa, cuja dor da perda de um filho respeito, parece-me não ter sido a mais recomendável, ao escolher o CR7 para a entrevista de regresso.
Outras figuras portuguesas, bem menos propaladas e de elevado prestígio no mundo científico, mereceriam a preferência desse destaque – a Prof.ª Elvira Fortunato ou o Prof. Sobrinho Simões ou a Prof.ª Maria do Carmo Fonseca ou qualquer outro dos muitos investigadores, mulheres e homens da ciência. Compreendo e refuto a razão por que foram preteridos: não pertencem ao abominável mundo da ‘imprensa cor-de-rosa’.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cavaco Silva, o presidente irónico de mau gosto

A falsidade é susceptível de uma infinidade de combinações;
 mas a verdade só tem uma maneira de ser.
Jean-Jacques Rousseau



Fonte: SAPO Vídeos
Produzidas na presença dessa figura encardida de nome Branquinho - o tal que declarou na AR ignorar o que era 'Ongoing' e em seguida ingressou nos quadros dessa infestada empresa - as palavras de Cavaco Silva, carregadas de triste ironia e cinismo, não iludem. 
Com efeito, de um homem que "nunca se engana e raramente tem dúvidas" as declarações públicas jamais me equivocam ou me causam incerteza. O actual PR é do género de quem hoje diz e faz uma coisa e amanhã é crítico dos resultados nefastos do que defendeu e decidiu anteriormente. Sem assumir responsabilidades.
A profunda cumplicidade de Cavaco com o governo de Passos e Portas retira-lhe qualquer legitimidade para, por exemplo, defender criticamente que "devem ser corrigidas as situações de injustiça nos últimos anos nesta fase de vida do país."
No zelo de um forte aliado do governo, o PR focou a "melhoria dos indicadores económicos" que, todavia, milhões não sentem, antes pelo contrário sofrem com dificuldades crescentes; e introduziu um novo conceito macroeconómico curioso: "O dividendo orçamental do crescimento económico, proporcionado pelos aumentos das receitas dos impostos e pela redução dos subsídios de desemprego."
Qualquer cidadão com meio-dedo de testa, perante esta falta de verticalidade, questionará com mais do que justificada razão: "Este não foi o PR que promulgou todas as leis que permitiram justamente ao governo cortar subsídios de desemprego, reformas, pensões e salários que tornaram complexa e, em certos casos, causar grave sofrimento a milhares e milhares de famílias portuguesas?"
A hipocrisia em política sempre foi uma figura de estilo e uma componente do acto de governar. No entanto, na 'Democracia de Abril', com este Presidente e esta maioria, nos últimos anos, foram largamente ultrapassados os limites do tolerável. Seria preferível que o PR permanecesse no caminho das vacuidades que lhe são peculiares, em vez de pretender aliar-se aos prepotentes e às vítimas destes. É demasiado contraditório.