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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Endividemo-nos!

Um governo sem interesse nem consciência em entender a diferença de conceitos e resultados entre políticas de ‘Finanças Públicas’ e de ‘Economia’, com entusiasmo, que vai do patético ao alarve, ufana-se do sucesso de, em operação sindicada por seis instituições financeiras, ter logrado financiar-se em 3.500 milhões de euros, por 15 anos, à taxa anual de 3,9%. Desconhecem-se os custos de comissões.
O referido financiamento, contas simples, terá um custo de 136,5 milhões / ano, apenas de juros, i.e., 36,69% da ‘contribuição de sustentabilidade’, reprovada pelo Tribunal Constitucional para 2015, e segundo a qual o governo se preparava – se é que já desistiu – para espoliar 372 milhões de euros a pensionistas do CNP, reformados da CGA e beneficiários de pensões da Caixa de Previdência de Advogados e Solicitadores – os dois primeiros grupos, CNP e CGA, são de longe maioritários e quem aufere, em termos médios, as prestações sociais (pensão ou reforma) mais baixas.
Sem crescimento económico sólido e sustentado, e na iminência de uma deflação catastrófica de que a Zona Euro está ameaçada (ver este ‘newsrelease’ do Eurostat de 29-Agosto-2014), a anacrónica escolha de mais endividamento – a juros de 3,9% /ano, sem incluir comissões – é de um aventureirismo próprio de quem gere as ‘Finanças do País’, ao estilo de desporto radical; ou seja, actos de diversão inconscientes que, em muitas das vezes, têm resultados catastróficos. Neste caso, não para os amanuenses que os praticam, mas para os cidadãos em geral, vítimas inevitáveis.
Se o financiamento agora contratado não servir para pagar dívida, e só tem sentido regulariza-la se os juros forem mais altos, de súbito o governo adiciona + 2,101% aos 134% sobre o PIB calculados para o endividamento público bruto português em Junho passado.
Referência tão ligeira quanto significativa da notícia do ‘Público’ a respeito da operação: ajuda de um grupo de seis bancos. Como todos sabemos, desde a história do Lehman Brothers ao BES, os bancos não tem outro interesse, senão ajudar-nos. E a amanuense Casalinho, cedida pelo BPI de Ulrich ao Coelho, está empenhada em desempenhar o cargo do IGCP com esse firme propósito; ou seja, a afundar mais depressa o País e conseguir um record de endividamento jamais alcançado por Portugal. E a Economia? Isso não interessa, não é ajuda.
Portanto, endividemo-nos! 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O risco da deflação avoluma-se

A fadiga da austeridade, dos discursos da crise, dos abundantes e variados números macroeconómicos publicados; sim, essa intensa fadiga é motivo compreensível para afugentar os cidadãos de mais uma preocupação: o risco de deflação, muito elevado em Portugal mas igualmente considerável na Europa do Euro.
Evito a repetição; porém, é irresistível o convite à leitura deste meu ‘post’ de 31-01-2014, referindo os receios de Draghi e Lagarde nessa altura. E sublinhe-se que há 6 meses, as preocupações dos responsáveis máximos do BCE e FMI fundavam-se numa taxa de inflação na Zona Euro de 0,7% em Jan-2014, comparativamente a 0,8% em Dez-2013.
A despeito da forte redução das taxas de juro de depósitos no BCE, as notícias do Eurostat de 31-07-2014 - nem há uma quinzena, portanto – agravaram-se para a Zona Euro. Com efeito, a inflação estimada para Jul-2014 é de 0,4%, abaixo dos 0,5% de Junho passado.
Draghi multiplica-se em entrevistas e a influencia notícias sobre o tema. A Bloomberg em 5-Jun-2014 publicava o seguinte texto:
Se a agitação de Draghi é aquela que, de facto, das palavras se depreende, que dizer acerca da inflação portuguesa? Já é negativa há 6 meses consecutivos!, segundo divulgado pelo ‘Público’, com base em números do INE, em Julho de 2014, a variação homóloga do IPC situou-se em -0,9%, 0,5 pontos percentuais (p.p.) inferiores ao observado no mês anterior.
O governo de PPC que, a cada dia, se ufana dos bons resultados (turismo, desemprego em queda (?), juros da dívida historicamente baixos (?), consumidores confiantes), fosse através de um ministro, de um secretário de Estado ou de qualquer ajudante, já deveria ter-se manifestado perante a opinião pública a respeito desta crónica patologia a caminho da deflação, a um ritmo extremamente acelerado.
É provável que calem deliberadamente o que devem dizer – A Dona Albuquerque tagarela, tagarela, mas a este respeito remete-se ao silêncio. Vivem amedrontados com o que Alemanha possa fazer, se denunciarem que este desfecho é o preço da austeridade, da falta de rendimento das famílias e da falta de empregos, como dizia em Janeiro a putativa Sra. Lagarde.
Necessitávamos de taxas reais negativas ou pelo menos ligeiramente positivas, o que implicaria uma inflação da ordem dos tais 2% que Draghi persegue mas não alcança.
Caso continuemos na mesma caminhada de há 3 anos, com a ‘troika’ presente material ou espiritualmente, a probabilidade da deflação aumentará significativamente. A situação económica do País tornar-se-á muito complexa, mas tal risco parece não assustar os nossos (des)governantes. Estamos na hora do Espírito Santo. Ámen!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Zona Euro: inflação cai, deflação ameaça

O ‘Eurostat’ também fornece informação inquietante. Hoje, p.e., anunciou a estimativa do valor de 0,7% para inflação neste mês de Janeiro. Em Dezembro de 2013, a mesma inflação havia sido de 0,8%.
Várias vezes Mario Draghi tem manifestado preocupação com este comportamento de quebra da inflação e ainda mais com um desfecho que seria trágico, a deflação. Christine Lagarde há cerca de duas semanas denominou-a de monstro e fez um forte apelo à criação de empregos.
Draghi e Lagarde estão, de certo modo, em pânico com a deflação e os riscos desse fenómeno são, de facto, muito, muito preocupantes. A deflação, ao invés do que muitos cidadãos imaginam, não é uma situação episódica. Dura para aí 2 meses e pronto já passou! Isto é inflação negativa.
Como aconteceu ao Japão, a deflação é um processo, durável por longo tempo, de queda de preços e os efeitos são desastrosos. Citamos alguns desses efeitos:
  • para os grandes devedores é trágico, porquanto as dívidas permanecem idênticas, mas os preços e os rendimentos caem acentuadamente (imagine-se uma PME que tenha contraído empréstimos bancários, na expectativa de certa rendibilidade do negócio e, por longo tempo, sente a queda de lucros por efeitos da redução de preços e, consequentemente, da rendibilidade esperada);
  • uma família que tenha adquirido um apartamento para pagar em prestações fixas, se conseguir, acabará por pagar a casa a um preço muito superior ao que a mesma vale por efeito do processo deflacionário;
  • consumidores e empresas adiam compras na expectativa de vir a beneficiar de preços mais baixos e, assim, a actividade económica diminui e tendencialmente cai também o emprego;
  • salários e rendimentos também vão perdendo valor;
  • como as receitas públicas dependem, em grande medida, da actividade económica, portanto, o encaixe de fundos pelas finanças é menor.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Portugal e Zona Euro sob ameaça da deflação

A imprensa portuguesa, escrita, em áudio ou audiovisual, prefere ser omissa e ignorante de factores e riscos graves para a debilitada vida dos cidadãos. Por norma, descura ‘problemas agudos a que o País está sujeito’; problemas estes que, diga-se, podem envolver uma dimensão geográfica mais ampla – Zona Euro – e, porque assim é, mais complexos se tornam para o pequeno país e a débil economia que somos.
Hoje, porém, fez-se alguma luz na nossa comunicação social. O ‘Público’ alerta:
“A taxa de inflação homóloga em Portugal caiu em Outubro para -0,2%, o valor mais baixo desde 2009…”
Sinto um primeiro mal-estar, por saber que esta notícia da Zona Euro estar sob o risco de deflação já tem dias, sem ter sido divulgada em Portugal. De resto, foi esse motivo para o Sr. Draghi anunciar a redução da taxa de refinanciamento do BCE de 0,50 para 0,25%.
Trata-se da reacção do BCE ao decréscimo da taxa de inflação para 0,7% em Outubro, inferior a 1,1% registado em Setembro. Draghi e companheiros perseguem o objectivo de manter a inflação ligeiramente abaixo dos 2%.
A queda da inflação, se continuada, pode obviamente transformar-se em deflação e é este o fenómeno temido. No ‘site’ da CNBC há dois dias, poderia ler-se o seguinte:
No título da notícia, questiona-se: “Está a zona euro em risco de deflação ao estilo do Japão?”. Há mais de década e meia que os nossos amigos nipónicos lutam contra esse mal e só agora parecem iniciar a fuga ao problema.
Outros ‘sites’ referem-se ao tema. Por exemplo, aqui, a Bloomberg em 7 de Novembro.
Os resultados da deflação são desastrosos: as empresas baixam os preços, mas os consumidores retraem-se nas compras e o investimento, entre nós já muito reduzido, declina pesadamente. O desemprego aumenta, em função da eliminação de postos de trabalho.
Tudo isto, como não poderia deixar de ser, é produto da política europeia imposta pela Alemanha e, no tocante aos periféricos como Portugal, os resultados agravam-se em consequência das desastrosas medidas de austeridade a que estamos submetidos pela ‘troika’.
O silêncio a este respeito, por cá, é sepulcral. Nem ‘o escreve e fala barato’ Camilo Lourenço o aborda. A Albuquerque nem saberá o que fazer. Passos e Portas entretêm-se a comentar Machete, o ‘pivot’ do disparate. O PR assobia para o lado.

(Nota final: no caso de deflação, o mecanismo de alterar as taxas de juro utilizado pelo BCE é de aplicação impossível; não descer abaixo dos 0% e este é o drama que os japoneses tão bem conhecem).