quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Como o governo nunca falha, é o OGE que se engana

Uma maioria de cidadãos sabe que, em macroeconomia, a probabilidade de acertar previsões, valor do PIB por exemplo, é muito condicionada. O OGE 2015, composto por texto pretensioso e tecnocrático, estabelece pressupostos incompletos e objectivos incertos. 
No fim de 2015, com o reforço de múltiplos rectificativos intercalares, conheceremos os resultados reais do desempenho económico do País – raramente os valores coincidem com os números projectados de início.
Um governo integrando um PM bronco no discurso e convencido de ser um génio; e ainda uma ministra das finanças a transpirar inverdades, vacuidades e erros, dos ‘swaps’ aos orçamentos; um governo deste género, iria dizer, até por casos sucedidos, é alvo de natural desconfiança.
Em documento demasiado erróneo e omisso na especificação de cerca de 40% de austeridade, (isto segundo o Conselho das Finanças Públicas), estabelece no OGE2015 as seguintes metas para o crescimento do PIB e défice orçamental:
PIB ……………………………1,5%
Défice Orçamental: …………....2,7%
(Relatório OE 2015 ‘Economia Portuguesa: Evolução Recente e Perspectivas para 2015’ Quadro 1.3.3)
Azar dos azares, como não fossem suficientes os erros e torturas a que os governantes submetem o País, de uma rajada o OGE2015 é atingido por dois chumbos e dos pesados:
  • ·      Primeiro, foi a Comissão Europeia a declarar que o PIB em 2015 se limitará a crescer 1,1%, prevendo um défice de 3,3% - para 2014, estima um crescimento de 0,9% do PIB, igual à previsão do BdP e abaixo de 1,2% projectado pelo governo.
  • ·   De seguida, vem o FMI prever, para Portugal, um défice orçamental de 3,4%, defendendo a reestruturação da dívida privada, a despeito de custos para a Banca – [Obs.: É estranho que o FMI rejeite, ocultando, igual medida de reestruturação para a dívida pública e se tenha revelado adverso à actualização do ‘Salário Mínimo Nacional’; esta crítica só é compreensível à luz da ideologia do empobrecimento e desvalorização da vida de quem trabalha, no antro do neoliberalismo da instituição de Lagarde e onde se encaixou o nefasto Gaspar.]
O que escrevi no início do ‘post’ a respeito de falibilidade das previsões macroeconómicas é aplicável, naturalmente, à Comissão Europeia e ao FMI – jamais previram a débacle do sistema financeiro internacional de 2007 e muito do que se lhe seguiu.
Todo este jogo de ‘o meu número é melhor do que o teu’, complementada por falta de regulação eficiente e eficaz dos mercados, leva à crescente descredibilização dos políticos, com efeitos no incremento do abstencionismo e na deterioração dos regimes democráticos.
É, pois, neste ambiente selvático, de poderosos predadores do ser humano e promotores da intensificação de uma nova escravatura, que a amanuense Albuquerque e o chefe Coelho deram início ao desfilar de contradições, natural pela imaturidade e falta de seriedade de ambos no discurso:
Será que “ajustar a estratégia orçamental para sair do procedimento do défice excessivo em 2015” significará recorrer à maldita austeridade? Oxalá esteja enganado, mas suspeito que a resposta será afirmativa.
O governo jamais falha; o OGE é que se engana e os cidadãos comuns levam a bordoada do costume.