sábado, 23 de março de 2013

Chipre sob a irracionalidade da UE

Ministro das Finanças Sarris (à direita)
Amanhã é Domingo. Ignoro a opinião do Papa Francisco a respeito do trabalho dominical. Segundo postulados da Igreja Católica Apostólica Romana, o Domingo é Dia de Celebração e da Eucaristia do Senhor.
Todavia, para a superestrutura da UE, comandada por Merkel, filha de pastor alemão luterano, os preceitos religiosos ou outras politicamente convenientes são flexíveis. Queiram ou não os católicos apostólicos romanos, ou ortodoxos, regras religiosas, éticas ou princípios de respeitabilidade pelos direitos de soberania de povos de países fragilizados, o Chipre nesse caso, se existem, suspendem-se, sem apelo nem agravo.
Amanhã em Bruxelas, lá vai estar a criadagem da chancelerina. Líderes da UE, do FMI, o Draghi do BCE e, desta feita, o moldável Barroso e o burlesco Van Rompuy.
Frustrada a tentativa do ministro Sarris junto da Rússia - o resultado da visita de Barroso a Medvedev‎ é enigmático - nada mais resta a Chipre do que avançar nas conversações com a 'troika' com vista ao cumprimento de um 'Plano B'.
Qual a diferença essencial entre este plano e o anterior? Agora pode ir até 25% a tributação de todos os depósitos acima de 100.000 euros. Na euforia financeira, originária do caos, o estatuto de 'paraíso fiscal' de Chipre, membro da zona euro, funcionou sem baias nem reservas legais. Até foi incentivado. Agora, os cipriotas pagarão a conta em termos de desemprego e recessão, que não se antevêem ligeiros- a Igreja Ortodoxa local já recomenda a saída do euro.
Um exercício: um depositante que tenha 110.000 euros pode ser penalizado com 12,5% e ficar com o depósito reduzido a 96.250 euros, abaixo, portanto, dos 100.000 do saldo de outros depositantes, a quem, e bem, não será aplicada qualquer taxa. Tudo isto é irracional, dirão os críticos. É a matemática, reagirão os lacaios da Sra. Merkel.
Do meu ponto de vista, o que sucede no Chipre, como em Portugal, Espanha, Itália e Irlanda - a França e a Bélgica vêem a caminho - é fruto de graves erros políticos da UE, através da desregulação e descontrolo do sistema financeiro, falta de harmonização económica e fiscal na Zona Euro. O resto é conversa.   

quinta-feira, 21 de março de 2013

TV à portuguesa: a política comentada por políticos

Fonte: Juventude Informada
Concluo que, no ilustrado pela imagem, de mútuas acusações, a razão é  capaz de estar mais do lado da 'televisão', quando acusa: "Telespectador idiota...".
Se olharmos as grelhas de programações, desde o boçal Fernando Mendes aos meninos dos 'Morangos Sem Açúcar', dificilmente se inferirá que a "Televisão é Burra" - errará episodicamente aqui ou ali, mas "burra" de todo não é.
No comentário político, por exemplo, as TV's ocupam um lugar de destaque de originalidade mundial. Do Marcelo ao Mendes, do Assis ao Ramalho, do Bernardino à Odete, do Fazenda à Drago, todos os partidos com assento partidário têm tido lugar cativo, no dito pequeno écran, a horas de consideráveis audiências.
Nenhum dos canais - há estações com vários - poderá negar a participação no pérfido jogo de colocar os cidadãos, ao pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar, a saborearem o comentário político feito por políticos - a minha vizinha do 3.º esquerdo confessou-me há tempos que jamais conseguiria dormir tranquila de Domingo para 2.ª Feira, se não saboreasse os comentários do Prof. Marcelo e as provocações, risos e sorrisos da Judite. Ao Domingo ficou mesmo dispensada de tomar 'Xanax".
Neste ambiente de cumplicidade de televisões e políticos, e longe do objectivo de defender Sócrates mas sim de criticar o modelo, não entendo os 'sound bytes' e o espanto, desta maralha dos jornais, no regresso do ex-primeiro ministro como comentador da RTP em Abril. Qual é a diferença em relação a outros ex-primeiros ministros, ministros, secretários-gerais, deputados? Se há contas a ajustar com Sócrates - e eu penso há, tal como com muitos outros, então que o sistema de justiça funcione, do Ministério Público ao Tribunal Constitucional.
Toda esta 'mise en scène' à volta de 'Monsieur Sócrates' - será comentador gratuito - serve às mil maravilhas para o ex-cervejeiro Ponte desfocar  a atenção dos tais "telespectadores..." e demais cidadãos da ordem de despedimento autoritária, e porventura ilegal, de Nuno Santos, cuja causa fica, deste modo, esbatida na opinião pública.
A propósito, o que é que o patrão da ERC, Carlos Magno, tem a dizer sobre o processo RTP-Nuno Santos? Os "tachos", para se manterem, compelem a comprometedores silêncios.


quarta-feira, 20 de março de 2013

O eufemismo da Economia da Felicidade

A economia, sim a economia real cujos conteúdos tratam da produção e distribuição de bens e rendimentos, permanece a milhas, de como ciência social, cumprir o papel de teorizar soluções para garantir um mínimo de equidade de milhões de seres humanos no universo.
Há um mar de exemplos de subversão do 'sistema económico' pelo 'sistema financeiro'. Regem-se por doutrinas e objectivos distintos, as mais das vezes opostos.. Atente-se nas prestações do ministro Gaspar e do séquito de apóstolos que o acompanha nas famigeradas sessões no macróbio salão do Ministério das Finanças.
O ambiente socioeconómico do caos, actualmente prevalecente no Sul da Europa, e em que Portugal se integra com o desemprego de mais de 1 milhão de cidadãos e um tecido económico destroçado, torna eufemístico e ridículo o facto do INE e de um grupo de ilustres académicos se dedicarem a preparar e discutir um indicador inédito para medir o 'bem-estar' dos portugueses.
A ONU declarou ser hoje o 'Dia Internacional da Felicidade'. Na submissa pátria lusitana, houve de imediato ilustres pensadores empenhados nas teorias da 'Economia da Felicidade'.
Quem quiser limitar-se ao País onde vive, que estude o grau de 'bem-estar' de quem habita zonas suburbanas degradadas ou no interior onde equipamentos sociais e de saúde têm sido desmantelados a eito, sem atender às carências sem fim da infelicidade de quem aí vive.
Se quiserem fazer uma digressão por esse mundo fora, a dificuldade estará na escolha: Chade, Guiné-Bissau, Etiópia, Angola dos musseques, Brasil das favelas, Venezuela da pobreza agora apenas mitigada, Bolívia, Índia e China serão, entre muitos, os destinos onde encontrarão populações inundadas de fome e miséria.
Espero que um dia, com o realismo do mundo em que vivemos, a ONU declare o 'Dia Internacional da Infelicidade' e o INE e estudiosos habilitados definam os indicadores do 'sofrimento e morbilidade' das populações desprotegidas. Esse capítulo, infelizmente, terá matéria para ser o mais extenso de qualquer obra da 'Economia da Felicidade'.      

terça-feira, 19 de março de 2013

Parlamento cipriota defendeu a soberania do País

Parlamento de Chipre
O Parlamento de Chipre deu um exemplo à Europa, em especial à Alemanha de Merkel. Demonstrou que um povo soberano e independente não pode estar à mercê de um bando de loucos que, às tantas da madrugada de determinado dia, resolve deliberar lançar um imposto extraordinário instantâneo sobre as poupanças de nacionais e estrangeiros, depositadas nos bancos do País.
O bando em questão, Euro Grupo, FMI, CE e BCE, em que se integrava o nosso Gaspar, nem sequer respeitou os princípios legais da Zona Euro sobre a garantia de reembolso de depósitos até 100.000 euros.
Agora tem a resposta. Merkel e Schäuble - este já antes começara a lavar as mãos da asneira de que foi cúmplice - sentiram-se desrespeitados, assim como Holanda e Finlândia, companheiros da aventura a quem já chamei os sudetas da actualidade.
Não esperavam de todo a concorrência da Rússia. O ministro das finanças cipriota, Sarris, tem estado em Moscovo a negociar um financiamento daquele país.
O Chipre, diz-se, dispõe de abundantes reservas de gás natural, um trunfo que é capaz de ser utilizado contra esta UE da austeridade, da consolidação orçamental a qualquer preço, ou o mesmo é dizer da pobreza e da miséria.
Talvez Chipre venha a mandar às urtigas a UE, a Zona Euro e, é claro, o próprio euro. Há muito que se sabe das ambições geoestratégicas da Rússia em relação ao triângulo Chipre-Grécia-Turquia. Quem nos garante que não estejamos perante o mero início de um período complexo para a UE? Onde, diga-se, os recursos energéticos são dos mais escassos do mundo em relação às necessidades.
Aguardemos...
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Chipre: a sinergia de vinte imbecis

Cipriotas protestam

Desta vez, e porque rejeito ser militante partidário e politicamente sectário, estou de acordo com Cavaco Silva. Tanto mais que o PR se limitou a reconhecer o óbvio:
Estava longe de imaginar a possibilidade de um esquizofrénico ataque de imbecilidade englobar um colectivo de 17 ministros de finanças do Euro grupo - o nosso Gaspar marcou presença - a elegante Lagarde do FMI - e também da Cartier, da Hermés e da Louis Vuitton - um tal Asmussen, alemão, do BCE e a fechar o finlandês Oli Rhen da CE. 
Do que se conclui da leitura da imprensa portuguesa e internacional, o esquizofrénico grupo actuou por conta de Merkel, associada aos sudetas dos tempos modernos: Holanda e Finlândia. 
Ninguém de bom senso, e ciente da crise grave e transversal de diversos países periféricos, entre os quais Portugal; ninguém de bom-senso, dizia, tomaria a iniciativa de fazer uma apropriação indevida de parte de depósitos bancários no Chipre ou em qualquer outro lugar.
Tomar de assalto 6,75% a quem tem aforrada uma quantia até 100.000 euros transgride uma 'regra de ouro' em países da Zona Euro: o Estado dos países do euro, lembre-se, obriga-se a usar 'fundos de garantia' para indemnizar os depositantes, no caso de falta de liquidez de qualquer banco. Em adição, aplicaram uma taxa de 9,9% do imposto instantâneo a depósitos acima dos 100.000 euros.
Se do ponto vista financeiro, a decisão é abstrusa; do ponto de vista geoestratégico é mais do que desastrosa, para mais considerando os interesses da Alemanha sobre as reservas de gás natural da ilha mediterrânica.
Os russos, através de Putin, já responderam à D. Merkel com firmeza. Por sua vez, a potente empresa russa Gazprom propõe pagar o resgate do Chipre. É evidente que não se trata de acção de benemérito desinteressado, mas ligado ao objectivo de eventual oportunidade de exploração do gás cipriota.
Sábado de madrugada foi uma noite desastrada para as vinte 'eminências pardas' que tomaram uma decisão que pode potenciar uma crise ainda mais profunda no sistema bancário europeu. Todos ficaram responsabilizados pela decisão.
E voltando ao PR, tendo até em atenção o desempenho ministerial de Vítor Gaspar, pleno de erros e incompetência, seria natural que Cavaco Silva declarasse a falta de confiança no ministro, com mais esta comparticipação em deliberação absurda. A tanto, porém,  nunca chegará. Ser condescendente e ter compaixão com quem alinha são rotas que jamais ficarão órfãs da fé do PR no governo integral de Coelho.
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Hollande, o Tozé 'franciú'

 
 
Uma das maiores fragilidades da Europa, e consequentemente de Portugal, reside na falta de qualidade e de capacidade dos líderes políticos. Não acredito em homens providenciais, mas a missão política deteriorou-se há muito, pelo facto do poder cair nas mãos de ineptos e insensíveis sociais.  
O lugar de estadistas de envergadura cultural e política foi usurpado, em vários países europeus, por personalidades cinzentas, de limitados saberes e experiências de vida. É assim que surgem os Coelhos, os Relvas, os Tozés Seguros, toda uma cambada formada nas jotas, que, para serem eleitos, fazem autênticas peregrinações pelo país - a ala esquerda do parlamento, por idiossincrasias ou sectarismo, também não tem revelado condições para se reformar e afirmar como alternativa.
Toda isto vem a propósito de Hollande que ganhou a preferência da maioria dos franceses para substituir, Nicolas Sarkozy, o parceiro moldável de Merkel.
O Der Spiegel, ilustrado por fotografia, confirma que Hollande perdeu o estado de graça dos franceses e precisa:
Hollande, lamento dizê-lo, é uma espécie de antecipação do Tozé 'franciú'. De facto, é triste e causa-me algum incómodo ver o Partido Socialista ser dominado para estes meninos da 'jota' e do aparelho que, com o estrito propósito de se ufanarem de chegar ao poder, relegando para papel secundário a necessidade de servir o País e o seu povo. Exactamente como Coelho com a ajuda do Relvas, correm todas as secções do partido para obter apoios. Hoje em Boticas, amanhã em Olhão.  
É por esta e por outras que, às mãos dos incapazes, Portugal está em processo de degradação contínua, não surpreendendo saber que cada vez mais jovens vendem ou cultivam droga por causa da crise
 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Klaus Regling, o propagandista alemão

Amanhã estará em Lisboa Klaus Regling, director executivo do FEEF e do MEF. Vem em missão de propaganda e promoção da política de austeridade que nos está a ser imposta. A leitura da entrevista concedida ao 'Público' é recomendável, para se perceber quem é e que ideias e interesses representa esta deplorável figura alemã, certamente muito próxima de Merkel e de Schäuble.
Lembremos os trabalhos, equipamentos e financiamentos de bancos do Norte da Europa a autoestradas, PPP, submarinos e, em 2004, 'Jogos Olímpicos' e Metro de Atenas para se ter uma ideia do processo de endividamento dos países periféricos; endividamento esse que, no total, comporta a parcela da dívida pública e, no caso português, outra no valor do dobro respeitante à dívida do sector privado, quase exclusivamente banca.
Será útil tomar em consideração que os subsídios europeus, os tais fundos filantrópicos, fixaram-se em 60% ou 70% das obras subvencionadas, motivo por que a verba complementar de investimento foi-se transformando em dívidas a níveis, de facto, insustentáveis.
Uma UE, e sobretudo uma 'Zona Euro', solidária e respeitadora da soberania dos Estados mais frágeis, deveria ter cuidada concepção e execução das políticas de ajuda,  respeitando a chamada coesão social, tão apregoada pelos primeiros dirigentes da CEE, entre eles Jacques Delors.

sábado, 9 de março de 2013

Hasta siempre commandante


'Hasta siempre commandante' ainda é canção emblemática dedicada a Che Guevara. Publico-a ao jeito de homenagem póstuma a Hugo Chávez - este é o meu primeiro escrito dedicado ao falecido presidente da Venezuela.
No conceito de 'democracia iliberal' do ensaísta norte-americano, Fareed Zakaria, a democracia esgota-se no direito do povo a eleger os políticos. Estes, uma vez eleitos, com frequência desrespeitam aquilo que Zakkaria designa por 'constitucionalismo democrático'; ou seja, as regras fundamentais e disciplinadoras do exercício democrático do poder - a liberdade de expressão, o respeito pela propriedade privada e outros parâmetros de liberdades da vida em sociedade.
Por influência destes conceitos, e de um populismo que a imprensa ocidental denunciava insistentemente, nunca fui adepto incondicional de Chávez. É oportuno, contudo, reconhecer que o que se passou na Venezuela de Chávez, não é essencialmente diferente do que sucede na Rússia de Putin, igualmente eleito, na Índia, em Angola e em diversos países onde o homens do poder são eleitos - vamos esquecer os oligarcas da China, bem como os regimes da Arábia Saudita e dos Emiratos, onde os processos eleitorais são farsas ou nem sequer existem, além de direitos humanos negados.
Dominado pelas cenas de milhões de cidadãos que, de vários pontos da Venezuela, têm vindo dar o último adeus a Hugo Chávez, sou compelido a reconhecer que, afinal e a despeito das minhas reservas, as políticas do falecido presidente da Venezuela têm merecido o reconhecimento de numerosos extractos populacionais desprotegidos e mesmo de indigentes, que os seus antecessores de direita ostracizaram décadas a fio.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O truca-truca de Natália Correia

Natália Correia

São José Lapa, conciliando as comemorações do Dia Internacional da Mulher no Parlamento com  homenagem à saudosa Natália Correia, declamou o célebre poema 'Truca-truca'.  
O episódio a que o poema se refere ocorreu em 1982, no debate sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez (aborto, dito de forma mais prosaica). Um então obscuro deputado do CDS, João Morgado, adversário do projecto-lei do IVG e pai de um único filho, defendeu que "o acto sexual é para fazer filhos".
Com esta frase, o cretino deputado, caiu sem redes nem outros amparos nas mãos da criatividade e espontaneidade de Natália Correia. Sem delongas, e muito menos sem recurso a tecnologias, a poetisa puxou da esferográfica e de uma folha de papel para escrever de rajada o poema 'Truca-truca' ou 'Ficou capado o Morgado', a seguir reproduzido:

“Já que o coito, diz Morgado,
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! – uma vez.
E se a função faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.”

A actriz São José Lapa prestou hoje, na AR, oportuna homenagem às mulheres, e a Natália Correia, quebrando o cinzentismo e estigmatizando puritanas deputadas, das leais falsas às desleais de dissimulada de aparente pureza. Morgados e outros amaneirados, é coisa que por lá também não falta.

A Arundhati Roy e às mulheres jamais esquecidas de o ser


É Dia Internacional da Mulher. Cumpro o ritual, homenageando sentidamente as mulheres.
Respeito a efeméride em memória das mulheres emanantes das saudades mais longas da minha vida – as minhas quatro bisavós; conheci-as todas. Jamais sairão da minha memória. Elas e todas as outras com quem urdi diferentes laços familiares ou de amizade. Pesam, sobretudo, os afectos naturais da família, essa célula social elástica. Ora se contrai, ora se dilata, cadenciado pelo ritmo de quem parte e de quem chega.
Às mulheres da minha vida, mas também a todas as outras jamais esquecidas de o ser – algumas, detentoras de poderes de obscena tirania, constituem um terceiro e abjecto grupo que me repugna – presto a minha homenagem através da combatente antiglobalização, Arundhati Roy. Uma mulher de elevado estatuto intelectual e ético. Nascida na Índia, país onde são correntes ignominiosas acções de violência e segregação de mulheres, a luta de Arundhati por um mundo justo adquire maior significado quanto à coragem de combater em meio adverso e que os homens dominam. Eis um trecho do seu livro ‘O Fim da Imaginação’:
"Os jovens trocistas e esganiçados que derrubaram o Babri Masjid são os mesmos cujas fotografias apareceram nos jornais nos dias que se seguiram aos testes nucleares. Estavam nas ruas, a celebrar a bomba nuclear indiana ao mesmo tempo que “condenavam a Cultura Ocidental” esvaziando grades de ‘Coca-Cola’ e ‘Pepsi’ nas sarjetas. A sua lógica deixa-me algo perplexa: a ‘Coca-Cola’ é Cultura Ocidental mas a bomba nuclear é uma velha tradição indiana? "  
A pergunta de Arundhati é provocadora e satírica, mas em simultâneo reflecte a visão que sustenta para os problemas universais da humanidade. Trata-se de um domínio de luta a juntar a tantos outros, alguns bens ancestrais, em que as mulheres têm de se empenhar. Muitas de vós superam os homens nas lutas por transformações sociais, digo-o com convicção e sem hipócrita adulação.