quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Poupança das Famílias em queda acentuada

Hoje é um dia de más notícias para o governo. O INE, em simultâneo com o anúncio do agravamento do défice de 2014 para 7,2% por força da injecção de 4,9 mil milhões no Novo Banco, revela que a poupança das famílias portuguesas diminuiu consideravelmente no 2. º T de 2015.
Fixou-se em 5,0%, como ilustra o gráfico, tornando-se na percentagem mais baixa desde 1999. Na interpretação do INE, explicitada pelo 'Jornal de Negócios', a causa principal parece centrar-se no aumento do consumo privado (+ 1,0%) conjugado com um residual acréscimo do rendimento (+ 0,1%).
Os portugueses, se considerados em termos de gastos e rendimentos globais, tornaram-se mais gastadores e menos aforradores? A pergunta é objectiva, mas a resposta, a meu ver, é complexa, sobretudo no que diz respeito à variação do consumo privado detalhado por nacionais e estrangeiros.
Com efeito, nem INE nem outra instituição ou órgão de informação realizaram qualquer análise mais fina que permita obter a informação do impacto nas vendas no retalho (consumo privado) a nacionais de outros países, em especial angolanos endinheirados, que realizam compras de valores significativos, os quais, ao fim e ao cabo, se integram no cálculo do 'consumo privado'.
Há tempos fiz um levantamento, por questionário empírico, e apercebi-me de que em lojas do Centro Comercial Colombo, da Avenida da Liberdade, da zona da baixa lisboeta (Chiado, em particular) as vendas a visitantes externos de bens e serviços  era considerável - a Ourivesaria Portugal, no Rossio, dito pelo proprietário, sobrevivia bem, devido aos 'Rolex' e jóias transaccionados com clientes de Angola.
A minha dúvida subsiste: como trata o INE dos valores destas vendas no âmbito do cálculo macroeconómico do 'consumo privado'? Talvez um dia seja esclarecido, porque as citadas transacções comportam também um benefício de receita fiscal não negligenciável: o aumento ingresso do IVA nos cofres das Finanças.
O Dr. Paulo Portas, se se pronunciasse sobre este fenómeno, diria pura e simplesmente que se tratam de receitas de turismo, equivalentes a exportação e eram fruto da sua 'diplomacia económica'. 
Persisto na minha incerteza, porque segundo o Instituto Nacional de Estatística, a publicação 'Estatísticas de Turismo 2010' se refere apenas à capacidade de alojamento, hóspedes e dormidas, bem como proveitos obtidos nos estabelecimentos de alojamento colectivo classificados de interesse turístico no Turismo Portugal IP, nada dizendo sobre outros estabelecimentos de venda de bens e serviços. 
Na grande maioria, os portugueses, com o governo actual, vivem de forma mais modesta e, a meu ver, pior do que as estatísticas indiciam. 

Novo Banco e novo e mais elevado défice 2014 (7,2%)

O alerta tinha sido dado ontem por Catarina Martins do BE, a propósito do agravamento do défice de 2014 para 7,2%, hoje divulgado pelo INE - pouco abaixo dos 7,4% registados em 2011. 
Com défices desta ordem, no começo e no fim do mandato, então o que é que mudou na vida dos portugueses por acção do governo de Coelho e Portas? Muito, porque o défice poderia ser ainda mais acentuado, caso não tivesse beneficiado do brutal aumento de impostos, do corte de salários na função pública e dos cortes de pensões. O número de portugueses em risco de pobreza aumentou (ver Eurostat), o desemprego jovem regista valores catastróficos, os salários desceram (1/5 auferem o SMN contra 1/9 há 4 anos). Enfim, este é o tipo de temas de que Coelho e Paulo Portas fogem a sete pés na campanha eleitoral, a fim de se concentrarem apenas nas críticas do programa do PS, já que do seu apenas se pode admirar o vácuo.
Preto no branco, o INE no documento PDF anexo à notícia é categórico:
..."as revisões dos resultados para 2014 reflectem, sobretudo, a inclusão de 4,9 mil milhões de euros relativo à capitalização do Novo Banco (NB) como transferência de capital"...
Coelho e a amanuense Albuquerque, com a servil conivência de Carlos Costa do BdP, andaram a propagar duas mentiras: (i) a injecção de capital no Fundo de Resolução não implicaria custos para os contribuintes, (ii) o governo nada tinha a ver com a matéria do BES e Novo Banco, porque - diziam - tratava-se de um assunto do Banco de Portugal, o regulador.

Coelho é trapalhão e quanto a contas não é certo nem atempado; sejam as contas pessoais (Finanças e Segurança Social), sejam as contas do Estado  - o lapso do pagamento ao FMI que não existirá, sendo mais um de muitos a juntar a inverdades contínuas. 

A amanuense é campeã das contas falhadas. Bateu todos os recordes relativos ao número de orçamentos rectificativos e prepara-se uma vez mais para errar a valer. Segundo o "Jornal de Negócios" de hoje, a UTAO, sustentando-se no défice no 1.º semestre atingiu 4,7%, considera muito problemático atingir o objectivo de 2,7% para este ano, como o governo prevê.

Doutorado em Finanças Públicas, o que dirá Cavaco de tudo isto? Nada ou então que fiquemos tranquilos porque tudo é louvável neste governo, até a asneira.  

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A Dona Bonifácio vota Passos - Que tenho eu a ver com isso!

A Dona Bonifácio, historiadora doutorada, é uma das muitas figuras desse imenso rebanho de funcionários públicos intelectuais pagos bem demais (trabalhou com o Correia Guedes, auto-alcunhado de Pulido Valente). Têm bons padrões de vida graças a lugares em organizações do Estado, e contraditoriamente são os mais duros críticos dos gastos dos dinheiros públicos em pessoal.
Esta Dona Bonifácio tornou-se, nos últimos tempos, uma figura com acesso à exibição mediática. Já a vi uma ou duas vezes na SIC Notícias e hoje lá me apareceu no 'Público', com o estilo de opiniosa agressiva que a caracteriza. 
Tenho-me abstido de comentar ou sequer citar a campanha eleitoral, por duas razões fundamentais: (i) sou de esquerda, mas entendo ser pura perda de tempo imaginar que influenciaria o sentido de voto de alguém, porque já o fiz no passado e apercebi-me de que, fora familiares e amigos próximos, os opiniões e opções eleitorais só as minhas, ficam comigo e com o reduzido núcleo das minhas relações; (ii) escrevi em jornais, integrei um blogue colectivo de grande audiência - O 'Aventar' que desmascarou, com palavras do próprio, o género de homem reles que se chama Pedro Passos Coelho.
Da integridade, da constância e da intrepidez com descreve a personalidade do Coelho, apenas lhe reconheço a última, no que respeita à coragem de ser um político sem vergonha e sem palavra. De Coelho como homem (uma frase absurda), que namorou e viveu em comum com a minha ex-vizinha Fátima Padinha, de quem tem duas filhas, sei bem do comportamento de jovem marginal,, companheiro do confesso Morais Sarmento nos maus hábitos, e mais tarde pai irresponsável. É um cidadão de passado pouco recomendável, coisa de que a Dona Bonifácio não pode acusar Costa.
Sobre a seriedade na vida, poderá não ser idêntico ao que alegadamente se suspeita de Sócrates, mas os casos Tecnoforma, Foral, as dívidas à Segurança Social e ao Fisco suscitam muitas dúvidas no que toca à integridade defendida pela senhora professora doutora historiadora.
Coelho, diz a Dona Bonifácio, nada tem a ver  com a vinda da 'troika'. Leia-se a carta que o 'Público' hoje publica em que PM solicita a Sócrates o pedido de intervenção externa.
Referimos a seguinte passagem do que a Dona Bonifácio escrevinhou no já citado 'Público':
"Nada me parece mais natural e necessário do que lembrar e reivindicar pelo mérito da limpeza do ajustamento financeiro."
O endividamento externo agravou-se em 30.000 milhões de euros para 130% do PIB; o 'gap' da mediana relativa de pessoas em risco de pobreza, segundo o Eurostat, subiu acentuadamente de 24,8 em 2010 para 34,1 em 2013, último ano para que há dados disponíveis para Portugal; o desemprego, esquecidos os números de centenas de milhares de imigrados, estagiários e programas de formação, é uma variável que é tratada do ponto de vista estatístico de forma uniforme na UE, mas não reflecte o número total de desempregados de qualquer País, como sabemos há anos e até de outros governos do próprio PS; a anedota de que o Coelho é um pensador da globalização do Século XXI é uma nota de humor de mau gosto - coitado do Stiglitz, do Krugman, do Lucian Ball e de outros que são uns aprendizes.
O fanatismo da Dona Bonifácio e tão intenso que, no texto, começa por roçar o disparate. Dá ao artigo o título "Obviamente, voto Passos"; logo no primeiro parágrafo diz que decidiu quando da "demissão irrevogável" de Paulo Portas, sem dar conta de que vai votar Passos e vai votar Portas. Plagiou o estilo de uma célebre frase de Humberto Delgado - Obviamente, demito-o - acabou por se espalhar, por aquilo que escreve não reflectir o que vai fazer: votar na coligação.
E por último: diz votará Passos e depois? Que tenho eu a ver com isso!

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O Banco de Portugal 'borregou' de vez na venda do Novo Banco.


O Banco de Portugal fracassou na venda do Novo Banco. O proeminente comunicador da ciência económica e financeira já explicou do cimo da cátedra a razão: os chineses do grupo Fosun recusaram-se a aumentar o preço de aquisição que haviam oferecido. 
José Gomes Ferreira tem sempre de dizer algo sobre política e acontecimentos económicos, colando-se às posições do governo. Nos comentários do video, limitou-se a referir a Fosun. 
Entretanto, a SIC Notícias, anunciou, com destaque de notícia de 'última hora', que igualmente os norte-americanos da Apollo se desinteressaram da compra.
O preço pretendido pelo Banco de Portugal, entendido como demasiado elevado pelos dois grupos citados, constituiu a causa da renúncia da aquisição. É natural. 
Os custos previsíveis para um aumento de capital de mil milhões de euros ou mais  é um dos factores que pesou na decisão da Fosun e da Apollo. Mas, sobretudo, é o risco de outros encargos devidos  a litígios, uns certos outros prováveis, da poderosa Goldman Sachs (800 milhões de euros) aos detentores de papel comercial que leva ambos  a considerar o preço elevado face a riscos elevados.
A tudo isto, que não é de somenos, há a adicionar os resultados negativos do Novo Banco em 2014 e no 1.º semestre de 2015, totalizando também cerca de 700 milhões de euros e o crédito concedido a entidades, como a Ongoing, que implicam o reconhecimento de imparidades (prejuízos) de valores avultados.
As notícias anunciam que este ciclo de venda findou com insucesso para o BdP e que só haverá novas negociações depois das eleições legislativas.
O primeiro-ministro de um governo que tenta negar o evidente, Passos Coelho, hoje em Portalegre, dizia que agora só faltava que a oposição acusasse a sua governação pela falha da venda. Como fosse a oposição a ter estabelecido o modo de resolução e a meta do tempo, finais de Agosto, para concretizar o negócio.
O governo bem pode esforçar-se para se furtar a responsabilidades neste caso, mas com toda a certeza o Eurostat é que manda e não está afastada a hipótese das contas públicas, que são matéria inalienável dos deveres da gestão governativa, não sejam objecto de rectificação do défice de 2014 para um montante acima dos 7%,
Os factos demonstram que o Banco de Portugal, ao tornar-se pioneiro na UE na aplicação da legislação do Fundo de Resolução, cometeu um crasso erro, como, em altura própria, denunciou Vítor Bento e a sua equipa de gestão que, além do mais, exigia um período mais longo para normalizar a situação do BES / Novo Banco.
Os motivos da demissão foram tornados públicos pela comunicação social. O 'Público', por exemplo, noticiou tratar-se de divergências entre os demitidos (Vítor Bento, José Honório e Moreira Rato), por um lado, e o Banco de Portugal e Governo, por outro. O tal governo que assevera nada ter a ver com este complexo caso,
É bom que o BdP comunique a situação ao senhor PR que, coitado, tal como todos nós, diz que o banco central tem informações que ele não conhece. Sabe apenas que não se trata de uma questão que diga respeito ao governo. É pouco, além de falso.

sábado, 12 de setembro de 2015

Mozart - A Pequena Serenata Nocturna


Pausa de fim-de-semana. Pausar sem retirar do pensamento a turba contínua e interminável de refugiados  a caminho da Europa. Uns morrem, no mar ou em terra; outros avançam com alma sofrida e fisicamente exangues. Crianças, mulheres e idosos são quem mais sofre.
Foragidos das forças do Daesh ou das miseráveis terras da África Subsariana, têm de ultrapassar, em territórios estrangeiros, árduos obstáculos. A Hungria, onde a maldita xenofobia barra caminhos e encara os pobres foragidos como se tratassem de animais,é o buraco negro de uma Europa, ou UE, política e socialmente desconexa e sem rumo comum.
Os que morrem caem na noite do sono eterno; mas, quem sobrevive, mesmo que o Sol esteja radioso, está sob pesadas e persistentes trevas. 
Em homenagem a essa  infeliz gente, e porque a a harmonia musical sempre ajuda a aliviar os males do espírito, seleccionei esta bela melodia de Mozart que, segundo os cânones das doutrinas da música, por ser um nocturno, apenas se toca à noite; no caso, a escuridão em que centenas de milhares, entre mortos e sobreviventes, perecem ou lutam pela vida.










sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Cavaco e o Novo Banco ou a sentença conveniente do momento

Dito em linguagem de navegação aérea, o Banco de Portugal "borregou" duas vezes na venda do Novo Banco diante dos chineses de Anbang, em primeiro lugar, e agora face ao grupo Fosun.
Na vaga crença de que às três é de vez, será tentada a venda aos norte-americanos da 'Apollo'. O sucesso não é garantido. "Apollo" é o mesmo do que Apolo, o deus da mitologia grega que conquistou a Geia o oráculo de Delfos. Se os homens da 'Apollo' encararem a transacção do Novo Banco como uma serpente, teremos mais um insucesso,  neste caso divino. 
 "Apollo" em romano ou Apolo em grego - é o mesmo - é quem terá a última palavra que, tudo indica, não terá em conta nem deixará de ter o conselho de Cavaco Silva aos portugueses:
"Deixemos o Banco de Portugal fazer o seu trabalho que terá todas as informações, que nós não conhecemos..." 
Esta do "deixem trabalhar" é um velha tirada da oratória de Cavaco. Surgiu quando foi PM e, como se conclui, veio para ficar.
Outro aspecto interessante desta intervenção do PR é a expressão "informações que nós conhecemos", integrando-se ele próprio na vasta comunidade de cidadãos portugueses que ignoram, de facto, o que Carlos Costa e a sua equipa do BdP sabem da matéria. E, além de interessante, a frase revela-se também contraditória se justaposta ao lado das afirmações que, segundo a TSF,  proferiu sobre a matéria, na Coreia do Sul, em Julho de 2014:
"O Banco de Portugal tem sido peremptório e categórico a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cumprir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa", afirmou Cavaco Silva
Questão de memória ou de falta de honestidade intelectual? Não importa a classificação, porque ao menos confirma-se que Cavaco é um Chefe de Estado de comportamentos e discursos contraditórios. Já o sabíamos e o recorde da popularidade negativa nas sondagens não é mero fenómeno do acaso.

Outra proclamação da retórica presidencial denunciadora de facciosismo, a favor da coligação de Coelho e Portas, consiste em expressar que "o governo não deve interferir na transacção do Novo Banco".  Compreendo que, como sempre o fez, Cavaco tente proteger o governo que temos, mas de forma tão impudente é inaceitável. 

Deve-se lembrar que, embora o PM e a Ministra das Finanças tenham assegurado que não haveria custos para os contribuintes, foi com o dinheiro destes que valeu em cerca de 4 mil milhões de contos à capitalização do Novo Banco pelo Fundo de Resolução. Argumentam que essa verba não afecta o défice. Se o Novo Banco permanecer nas mãos do Estado - do governo., só o Eurostat estará em condições de decidir se o défice de 2014 se fixa realmente nos 4,5% anunciados ou se superará os 7%. 

Aguardemos porque o romance ainda está longe do desenlace e, do conjunto de todos os cidadãos que pagam impostos, há a destacar a apropriação das poupanças dos 'Lesados do BES'. 

Uma última nota, retirada do 'Diário Económico' on-line:
Se isto não augura uma nova intervenção do governo no dossier 'Novo Banco', então qual será a entidade responsável pela contratação deste acréscimo de dívida pública? Cavaco não "expilica"...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O Ocidente, Os aliados árabes e a Turquia Erdogan, face às vítimas do ISIS

Há oito dias, fui um dos milhões de seres humanos atingidos pelo golpe brutal desta imagem. Asylan, um menino de 3 anos, morreu afogado próximo da península turca de Bodrum. 
A mãe e o irmão de 5 anos também foram engolidos pelo mar; mas Asylan é que se converteu em ícone da desgraça humana que se propagou do Afeganistão ao Iraque e à Síria. 
Noutra frente de desgraça, a Líbia tornou-se a a porta de saída para a Europa (Itália) e para morte de seres humanos de vida despedaçada.
Os políticos ocidentais, em especial George Bush (filho), Asnar, Blair, Obama, Sarkozy e Cameron, uns mais do que outros, têm a forte responsabilidade em relação a causas remotas mas decisivas que, passados estes dois anos, deram origem à criação e ampliação do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante). 
Os projectos desses políticos tiveram motivações de natureza diversa. Todavia, entre estas, o traço comum é o acesso ao petróleo, mesmo que o custo em termos de perdas de vidas humanas e instabilidade social seja elevado. 
Saddam Hussein foi deposto e morto no Iraque, numa guerra que era anunciada como curta e precisa quanto aos alvos a atingir. Afinal, tornou-se num conflito arrastado, justificado através de mentiras em que Durão Barroso foi conivente, deixando milhares de mortos, entre civis de todas as idades, e um País destruído de que as tropas norte-americanas, sob as ordena de Obama, se retiraram.
O Afeganistão tem também incrustado, física e socialmente, a marca norte-americana que se saldou com o êxito da morte de Bin Laden. O líder da Al Qaeda foi um produto criado pelos EUA nos combates contra a então União Soviética, Só razões de amizade e interesse de negócios justificam que  à família de Bin Laden tenha sido facilitada a saída dos EUA logo após o 11 de Setembro, como demonstra Michael Moore no documentário 'Fahrenheit 9/11'.
No derrube e morte de Kadafi, as preocupações de Sarkozy e Cameron não se centraram nos interesses da defesa dos direitos e liberdades do povo líbio, mas nos benefícios do petróleo desse País, cuja qualidade é das mais elevadas no mundo. Obama e Berlusconi ajudaram à festa. 
A 'Primavera Árabe' foi saudada no Ocidente. Deu em borrasca. Olhemos para o que se passa no Egipto e na Tunísia: sai ditador, entra ditador. A instabilidade causada pelo terrorismo aumentou.
Temos ainda os aliados. Primeiro, os árabes da  Arábia Saudita e Emiratos, cheios de dinheiro e  de desprezo pelo sofrimento humano de centenas de milhares de crianças, mulheres e homens que sofrem os horrores da organização do Estádio Islâmico, entretanto florescida no seio de enorme caos.
Contudo, dos aliados, cumpre-me distinguir a Turquia e as seguintes passagens da tradução do que Bem Taub escreveu em 'The New Yorker':

"O rebelde afirmou que uma grande carga de armas ucranianas estava a ser conduzida da Turquia para a Síria, para Ahrar al-Sham, para uma brigada islâmica com turvas conexões com a Al Qaeda. As luzes voltaram aproximadamente...
O governo Turco insiste que tal transporte era impossível — que ele não estava fornecendo armas para grupos rebeldes na Síria — mas vários relatórios indicam o contrário. Num caso, camiões escoltados pelos serviços de inteligência Turcos foram encontrados a transportar milhares de morteiros e oitenta mil cartuchos de munições para a fronteira Síria, de acordo com relatórios do jornal turco 'Cumhuriyet'. As munições tinham marcações em Cirílico e, de acordo com o depoimento de um motorista, foram resgatadas de um avião estrangeiro em Ancara. O governo apresentou acusações de traição contra as forças de segurança, que conduziram a pesquisa, e o Presidente Recep Tayyip Erdoğan, que era então primeiro-ministro, disse que não tinham o direito de parar os camiões pertencentes aos serviços de inteligência. Um governador local, seguindo ordens do Erdoğan, autorizou os camiões a continuar até à fronteira... 
Então, a Turquia também começou a bombardear o P.K.K., um grupo de militantes curdos que lutavam contra o ISIS, agitando uma luta de décadas entre a Turquia e os curdos...
 (Nota: Não foi por esquecimento ou ignorância que omiti a situação humanitária de populações de outras paragens, como o Sudão, o Egipto e vastas áreas da região subsariana. As imagens de crianças cadavéricas nos braços de mães indigentes e desnutridas também me ferem a alma. O anonimato é total, ao invés do caso de Asyan, e as cenas são reveladas por programas televisivos a altas horas, como o 'Toda a Verdade' da SICN, sempre madrugada adentro.)


  

Refugiados - Tradução de Artigo do "The New Yorker" de 01-09-2015


TRADUÇÃO


1 de Setembro de 2015

BEM TAUB em “THE NEW YORKER”

Em uma tarde escaldante em Julho de 2013, um motorista de táxi no sul da Turquia comprometeu-se a levar-me do Aeroporto de Gaziantep a Kilis, perto da fronteira Síria, por uma taxa curiosamente baixa. Eu havia viajado nesta rota duas vezes e estava desconfiado de favores, mas um amigo sírio tinha aval para esse condutor e arranjou a prestação do serviço. Por isso segui-lo através do estacionamento do Aeroporto — últimos veículos da ONU, um autocarro cheio de refugiados chegava e enfaixados lutadores inclinando-se sobre muletas — para seu pequeno Opel amarelo, onde ficou claro porque o preço tinha sido reduzido: Eu não era o único passageiro.
O homem sentado ao lado do motorista tinha uma barba longa e escura, que roçou sua 'jelaba' branca imaculada na barriga. Usava um boné tradicional muçulmano e segurava uma bolsa de couro numa mão e um "iPhone" na outra. Eu instalei-me atrás do motorista e proferi um olá tranquilo, mas o passageiro, que parecia estar na casa dos trinta, nem olhou para trás para corresponder à saudação. Por meia hora, o carro dirigiu-se ao sul na auto-estrada vazia, passando por casas em ruínas e colinas empoeiradas, sem vida, e ninguém disse uma palavra. Quando nos aproximamos da periferia de Kilis, notei que o passageiro estava a ler um artigo de "The Guardian" no seu 'iPhone'. Eu inclinei-me para diante e perguntei de onde ele vinha. "Área de Londres," respondeu. Ele estava "ajudando os irmãos" na Síria como um médico de campo em Azaz, uma pequena cidade do outro lado da fronteira, que, na época, abrigava uma temível presença de Estado Islâmico. Perguntou onde eu iria ficar, e disse-lhe que seria em Kilis durante o Verão. Ouvindo isso, o motorista pediu para confirmar que o meu destino era o Hotel Istambul, no centro da cidade. Desejei que ele não tivesse questionado; Depois de falar com o passageiro, eu tinha resolvido desembarcar antes de atingir a morada de destino.
O Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (à direita de Damasco – traduzido por Levante na imprensa portuguesa) [ISIS=Estado Islâmico do Iraque e do Levante] ainda não era um nome familiar nos Estados Unidos, mas jornalistas e a ajuda humanitária que operam na zona temeram o grupo mais do que qualquer outro e estavam muito desconfiados daqueles associados a ele. Enquanto encontros com outras brigadas 'jihadistas' às vezes foram cordiais, lutadores de ISIS foram transformando metodicamente o norte da Síria num buraco negro. Anteriormente conhecido como o estado islâmico do Iraque, o grupo anunciou sua presença na Síria, em Abril de 2013. Em Junho, detinham pelo menos onze reféns ocidentais, dois dos quais tinham sido raptados numa carrinha que eu tinha utilizado uma vez. Naquele Verão, o ISIS aterrorizou moradores sírios e assassinou uma criança por blasfémia na frente da mãe. Outros grupos rebeldes apareceram relutantes ou com medo de enfrentá-los. Tomar ao mesmo tempo o ISIS e o governo sírio parecia uma tarefa impossível, diziam rebeldes quando agitavam cubos de açúcar em pequenas taças de chá em cafés de Kilis. Além disso, o ISIS ajudou ocasionalmente na pausa através de impasses em batalhas contra o regime.

A bárbara 'camerawoman' húngara

O fenómeno dos refugiados, do Médio Oriente e de África, tornou-se em acontecimento demasiado grave do ponto de vista humano e social. É óbvio.
São milhares os mortos em naufrágios no Mediterrâneo a juntar a muitas outras vítimas, incontáveis, que perecem pelos longos caminhos do Sudão e Eritreia à Líbia, ou por terras do Afeganistão, Iraque e Síria para atingir a Turquia; país este dirigido pelo autoritário e putativo aliado do Ocidente, Erdögan.
No seio da Europa, devido à dissonância entre Estados-membros, o governo húngaro, de direita, chefiado por Viktor Órban, tem desenvolvido acções anti-humanitárias, mediante a construção de muros fronteiriços, de barreiras de arame farpado e do barramento por controlo e mesmo cargas policiais. 
A Hungria, impunemente, viola o Protocolo de Dublin de 1999, como referia há dias "O Globo", citando o cientista político Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim. Estimula, desse modo, outras sociedades da órbita ex-soviética - Eslováquia. República Checa e Polónia - ao exercício da xenofobia e da ofensa física  a desvalida gente -  crianças, mulheres e idosos.
Na terra dos magiares, uma 'camerawoman', de nome Petra Lázsló, em imperdoável acesso de bárbaro nacionalismo, agrediu a pontapé e de forma indiscriminada vários refugiados, crianças ou adultos. Do carácter perverso, a fúria xenófoba sobrepôs-se ao trabalho de reportagem do canal N1TV, ligado ao Jobbik, partido de extrema-direita e apoiante do governo de Órban.    
A Petra Lázsló, que pelo despedimento ficará mais disponível, aconselharia que, em vez de pontapear e derrubar frágeis refugiados - ver imagens  -, se aventurasse a ir até à Síria ou Iraque e bem no centro dos domínios do Estado Islâmico (ISIS - Estado Islâmico do Iraque e do Levante) convertesse a covardia em coragem, lutando corpo a corpo com os guerrilheiros do ISIS. A barbárie é mais autêntica se praticada entre bárbaros.
Tenho a certeza de que esta empedernida Petra nem tempo disporia para a primeira iniciativa de ataque. A xenófoba criatura teria um fim semelhante ao dos infelizes, esses sim infelizes, Kayla Mueller, Steven Stoollof ou qualquer outro dos vários assassinados pelo Estado Islâmico.     

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O Regresso

Jamais parti sem intenção de voltar. Um dia teria de regressar a este meu recanto e às manifestações de muita revolta e escasso contentamento, em desabafos que, minuto a minuto, constroem e reflectem os meus pensamentos.
Voltei, portanto, aqui, ao solitário refúgio, onde o velho piano, semanas a fio, apenas sonorizou uma doentia mudez. Coberto de pó e teclas imobilizadas, sofreu e exprimiu a mágoa da inutilidade da vida, como Fernando Pessoa na 1.ª setilha do poema ‘Estado de Alma’:

“Inutilmente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Inutilmente vivida,
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida…

Com compaixão pelo piano e os seus sons, os ‘solos sem ensaio’, em melodias, boas e más, esconjuntarão o angustiante e triste silêncio de um longo tempo, o qual também a mim um juiz misterioso me condenou.
Estou de novo no paradisíaco refúgio! Afaguei o piano com emocionado afecto. Teclarei sempre em defesa de causas que me pareçam justas. Da verdade, quase sempre ausente do discurso do poder, e continuamente empenhado no objectivo de revogar o irrevogável e atirar o aldrabão de pantanas. Isto e muito mais. Defender as causas do humanismo, neste mundo deveras perverso e marcado pela carência de justiça social e de paz. 
A imagem da criança afogada tornou-se no derradeiro ícone de dramas que atormentam milhões de seres humanos.
Uns classificarão as minhas intenções de mera utopia. Retorquirei que utopia não é um mito, mas um simples e legítimo desejo humano de lutar por caminhos e metas complexas para que, sem poder satisfazer o objectivo integral, são contributo para que a sociedade humana se reestruture e elimine as profundas desigualdades que, neste Século XXI, persistem e se multiplicam assustadoramente.
Os temas da política à economia voltarão, pois, a ser os elementos centrais dos textos a publicar.