segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Saraiva devassa, Gradiva edita e Coelho guincha

Próximo dia 26 de Setembro. Não sei, nem me interessa saber a que horas. Os media, penso, comparecerão em peso. Tudo o que seja escândalo, sexo, vidas de políticos, eventos de múltiplos mortos e desgraças é matéria-prima que impulsiona a venda de papel e capta audiências para TV’s. 
Mas o que verdadeiramente me interessa é imaginar o ‘El Corte Inglés’ repleto. Estará presente toda a corte da curiosidade depravada e patológica. Parece que estou a vê-los. A elas e eles. 
Na primeira fila, bem cedo, sentar-se-ão a D. Guilhermina e Milinha, sua neta. A senhora ficou viúva há anos do Sr. Pepe, abastado negociante de vinhos com adegas no Gradil, lá para os lados de Mafra. No bairro onde vivia, um homem de má-língua, reformado, alcunhou a D. Guilhermina de ‘Condessa de Gouvarinho’. O epíteto, dizia, devia-se a um romance clandestino que a senhora mantinha com o dono de uma pastelaria das proximidades.
A plateia, pressuponho, será composta por gente de várias idades, sugadora da devassa da vida alheia, característica da obra literária José António Saraiva; obra, acentue-se, promiscua e abjecta de que Passos Coelho será apresentador. O obscuro político utilizará, como é habitual, o discurso impreparado, recheado de frases próprias de quem ignora a moral, a ética e até básicas regras de sintaxe.
Custa aceitar esta cerimónia em que Coelho exaltará um livro de mexericos, uma verdadeira mixórdia de descrição de vidas alheias, baseada, segundo o autor, em conversas privadas. Tudo isto sem que haja o escrutínio e o direito ao contraditório, por morte de alguns que, consequentemente, estão silenciados para eternidade. E, mesmo sem formação em direito – sou economista – duvido que Saraiva e Gradiva não estejam a infringir a Lei do Código Penal, Art.º 192.º - Devassa da vida privada.
Sinto ainda mais a existência do considerável número de doentios curiosos por livros reles e ofensivos, gente inculta e incapaz de ler obras de Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, Patrícia Reis, João Tordo, Valter Hugo Mãe e outros que, menos ou mais jovens, começaram a percorrer o complexo caminho da literatura de qualidade, sem se centrarem no aberrante sensacionalismo e no lucro a qualquer custo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O jornalismo tacanho de Carvalho e a análise sábia de Stiglitz

Manuel Carvalho publicou no ‘Público’ o artigo ‘Maldita rentrée’.  O texto caminha por jargões e comentários, cheios de epítetos habituais em baixa política, visando sobretudo António Costa. Fala do Prof. Marcelo e também refere Passos Coelho, ao considera-lo um falhado no resultado final das políticas neoliberais adoptadas, não poupando, é óbvio, nas críticas a Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.
Por outro lado, Carvalho refere superficialmente a Europa e o euro, mas enreda-se na problemática do défice, sem que, do ponto de vista das doutrinas e políticas económico-financeiras, saia qualquer análise, ideia ou proposta de solução.
O artigo é, de facto, pobre, subjectivo e impulsionado pelo notório propósito de hostilizar o governo de António Costa, terminando nos seguintes termos:
E o PS tinha prometido um “virar de página” alicerçado na confiança, no investimento e no futuro. Bastou uma semana para nos recordarmos de que tudo isso é cada vez mais uma miragem. Maldita rentrée. »
A este jornalismo tacanho, da crítica pela crítica, oco de conceitos e repleto de adjectivação burlesca, oponho a sábia análise de Joseph Stiglitz, publicada no ‘Expresso’ do último Sábado, pelo Nobel de Economia, ex-assessor económico de Clinton e ex-vice-presente do Banco Mundial.
O artigo do prestigiado professor da Universidade de Columbia começa com o seguinte ‘lead’:
“A culpa é mais do euro do que das políticas e estruturas dos países e estruturas dos países. A zona euro impôs o tipo de rigidez do padrão-ouro.” [Observação minha: o padrão-ouro significou a adopção de um regime cambial fixo por parte de praticamente todas as grandes potências económicas, do século XIX até 1914).
Em função da extensão do artigo de Joseph Stiglitz, vou procurar sintetizar as suas conclusões no sentido de uma solução para a zona euro:
“O euro só poderá funcionar se forem alteradas as regras e as instituições da zona euro. Isto obrigará a sete alterações:
  • abandonar os critérios de convergência que obrigam a que os défices sejam inferiores a 3% do PIB;
  • substituir a austeridade por uma estratégia de crescimento, suportada por um fundo solidário para a estabilização;
  • desmantelar um sistema propenso a crises, onde os países têm de contrair empréstimos numa moeda que não é controlada por eles, e passarem a depender de Eurobonds ou de um mecanismo similar;
  • repartir melhor as responsabilidades durante o ajuste, com os países que apresentem superávites a comprometerem-se a aumentar salários os gastos fiscais [orçamentais, em meu entender]…;
  • alterar o mandato do BCE que se centra apenas na inflação, ao contrário da Reserva Federal dos EUA, que considera também o desemprego, o crescimento e a estabilidade;
  • estabelecer um seguro comum de depósitos, o que evitaria que o dinheiro fugisse de países com fracos desempenhos…;
  • e encorajar, em vez de proibir, políticas industriais concebidas para garantir que os retardatários da zona euro possam alcançar os seus líderes.
E Stiglitz remata com uma conclusão interessante. Diz o professor que, de um ponto de vista económico, estas mudanças são pouco importantes; mas à liderança actual da zona euro pode faltar vontade política para implementá-las.
Tudo o que transcrevi e o restante do artigo extenso do Nobel norte-americano devora e reduz a banalidades próprias de conversa desconexa de café o escrito por Manuel Carvalho.

sábado, 3 de setembro de 2016

Investimento e Crescimento

Passos Coelho, há dias, criticou a quebra de investimento público do actual governo. A queda é um facto. Todavia, deveria lembrar-se das privatizações de empresas lucrativas e susceptíveis de criar liquidez para reinvestimento – recorde-se apenas a alienação pelo Estado dos CTT, da ANA e da EDP, transformadas em património estrangeiro e com reflexos negativos no défice externo.
Coelho, como sabemos, é um economista altamente qualificado, tornando-se, por isso, mais absurda a crítica formulada. Ou é a alta qualificação que é absurda?
Assunção Cristas revela-se preocupada com a subida da dívida pública externa e a falta de investimento. Confesso também a minha inquietude. Contudo, da ministra de um governo em permanente endividamento, a observação é estranha. Depois de 2010 (Sócrates), esse governo chegou a 2015 com um agravamento de 79,1 mil milhões de euros (de 94% evoluiu para 128,7% do PIB).
Quanto ao investimento, Coelho e Cristas sabem – ou deveriam saber – que durante o mandato do governo, que ele liderou e ela integrou como ministra, houve uma redução de 5,5% de Formação Bruta de Capital Fixo (Investimento).
O governo actual continua a tendência de queda, mas tem diversos motivos para a justificar:
  • Encerrou em 2015 o QREN (fundos estruturais da EU) que permitiu ao executivo anterior atenuar a intensidade da queda;
  • O programa subsequente de fundos estruturais, Portugal 2020, se bem aproveitado, poderá proporcionar o relançamento do investimento público e privado;
  • A herança legada a António Costa e ao País por Coelho, no sector bancário (Banif, Novo Banco e CGD), é demasiado pesada - o Banco de Portugal, sob o comando de Carlos Costa, tem fortes responsabilidades neste descalabro;
  • Os cortes salariais e o brutal aumento de impostos, da autoria dessa figura sorridente e oportunista chamada Vítor Gaspar, traduziram-se em acentuados decréscimos de consumo e poupanças, assim como em pesado impacto de insolvências e desemprego.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

PMBD, partido dos presidentes emergentes da morte de antecessores

Os aspectos políticos, sociais, artísticos e intelectuais brasileiros, o modo de estar na vida dos cariocas, baianos e nordestinos em especial, toda aquela sociedade do lado de lá que é capaz de sambar até na infelicidade, o Brasil e o seu povo, fascina-me.  
Obviamente, também os fenómenos da vida partidária brasileira me captam a atenção. Ontem, dei conta que membros do PMDB apenas conseguiram aceder à Presidência da República do Brasil, por três vezes e em todas elas, por morte física ou política do antecessor. Vejamos:
  •        Com a morte física de Tancredo das Neves em Abril de 1985, José Sarney (PMBD) subiu de vice a Presidente da República de 1985 a 1990;
  •       Com o ‘impeachment’ Collor de Mello (morte política) em 1992, Itamar Franco, então já no PMBD, de vice ascendeu ao cargo de Presidente da República;
  •        Ontem com o golpe que aniquilou Dilma Rousseff do PT, é também um membro PMBD, Michel Temer, que ascendeu (ilegitimamente) ao lugar de Presidente da República.

Estes e outros eventos da pátria irmã despertam-me interesse, desde a infância; ou melhor, desde os tempos em que o meu pai recebia a revista ‘O Cruzeiro ’, enviada pelo tio Joni (português mas carioca). Se ele estivesse vivo, na sua casa junto de Copacabana, diria: 
“Você sabe, no Brasil todo o mundo está sempre sambando, suceda o que suceder, mas o povo brasileiro também sabe lutar com empenho e o apoio de muita gente da música, da cultura e das artes em geral” 
Mário Lago, o famoso actor e autor, era dos seus maiores amigos.
O Brasil, devo confessar, é minha segunda pátria, precisamente por ser a pátria de Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Vinícius, Jobim, Dorival Caymmi, Óscar Niemeyer (falecido há algum tempo e tio de Chico Buarque),o próprio Chico, Elis Regina, Gal Costa, Nara Leão, Elza Soares, Caetano Veloso, Maria Betânia, Marisa Monte… enfim uma lista construída  ao sabor da memória que poderia ser muito, muito exaustiva.
(Ah! E dia 7-Set-2016 vou ao Coliseu dos Recreios de Lisboa assistir ao espectáculo de Caetano Veloso que trás a jovem cantora Teresa Cristina. Vou viver um pouco de Brasil)

Diferenças: as “pedaladas fiscais” de Dilma e de Fernando Henrique Cardoso

Na política não há amigos
Ignoro se a opinião pública portuguesa, parca de conhecimentos das realidades do próprio país, sabe o significado do conceito de “pedalada fiscal”. A despeito de, para homens de direito ou economistas brasileiros, puderem constituir formas de desobediência à Lei de Responsabilidade Fiscal pelo PR, existe também quem advogue não ser legítimo alegar essa infracção à Lei de 2000, com o propósito de requerer a invalidação do mandato desse PR – veja-se notícia respeitante à ADJ – Associação de Juízes para a Democracia.
Dilma
“Pedalada fiscal”, em resumo, consiste em financiamento informal ao Estado, sem autorização prévia do Congresso. No caso de Dilma, o governo sob a sua chefia, sem fazer as transferências de fundos necessárias, contou com a cooperação de bancos (Caixa Económica Federal, Banco do Brasil e BNDES). Estas instituições, nos pagamentos mensais, substituíam-se ao Estado ao liquidar prestações sociais (aposentações, ‘Bolsa Família’ e outras).
O governo, com esta intervenção dos bancos, evitava desembolsar verbas nas alturas de pagamento, criando um superavit primário, em vez de défice, no orçamento do Estado, e favorecendo, desse modo, a imagem financeira governamental.
Mais tarde, o governo de Dilma liquidava aos bancos as quantias adiantadas por estes e respectivos juros, resolvendo a situação. Um exemplo: estes financiamentos informais, e que na interpretação de alguns juristas dispensavam autorização prévia do Congresso, eram posteriormente regularizados pelo governo de Dilma – em Janeiro de 2014 estavam totalmente pagos aos bancos os adiantamentos de 2013.
Fernando Henrique Cardoso
O expediente das “pedaladas fiscais” já havia sido utilizado por anteriores presidentes, incluindo Lula e o ‘social-democrata’ Fernando Henrique Cardoso (FHC), ambos sujeitos à mesma Lei de Responsabilidade Fiscal. Nenhum dos ex-presidentes foi sequer interpelado pelo Congresso pela prática.

Diferenças: as “pedaladas fiscais” de Dilma e de Fernando Henrique Cardoso

Na política não há amigos
Ignoro se a opinião pública portuguesa, parca de conhecimentos das realidades do próprio país, sabe o significado do conceito de “pedalada fiscal”. A despeito de, para homens de direito ou economistas brasileiros, puderem constituir formas de desobediência à Lei de Responsabilidade Fiscal pelo PR, existe também quem advogue não ser legítimo alegar essa infracção à Lei de 2000, com o propósito de requerer a invalidação do mandato desse PR – veja-se notícia respeitante à ADJ – Associação de Juízes para a Democracia.
Dilma
“Pedalada fiscal”, em resumo, consiste em financiamento informal ao Estado, sem autorização prévia do Congresso. No caso de Dilma, o governo sob a sua chefia, sem fazer as transferências de fundos necessárias, contou com a cooperação de bancos (Caixa Económica Federal, Banco do Brasil e BNDES). Estas instituições, nos pagamentos mensais, substituíam-se ao Estado ao liquidar prestações sociais (aposentações, ‘Bolsa Família’ e outras).
O governo, com esta intervenção dos bancos, evitava desembolsar verbas nas alturas de pagamento, criando um superavit primário, em vez de défice, no orçamento do Estado, e favorecendo, desse modo, a imagem financeira governamental.
Mais tarde, o governo de Dilma liquidava aos bancos as quantias adiantadas por estes e respectivos juros, resolvendo a situação. Um exemplo: estes financiamentos informais, e que na interpretação de alguns juristas dispensavam autorização prévia do Congresso, eram posteriormente regularizados pelo governo de Dilma – em Janeiro de 2014 estavam totalmente pagos aos bancos os adiantamentos de 2013.
Fernando Henrique Cardoso
O expediente das “pedaladas fiscais” já havia sido utilizado por anteriores presidentes, incluindo Lula e o ‘social-democrata’ Fernando Henrique Cardoso (FHC), ambos sujeitos à mesma Lei de Responsabilidade Fiscal. Nenhum dos ex-presidentes foi sequer interpelado pelo Congresso pela prática.

Brasil: a corrupção golpeou a Democracia

O esgoto, a latrina, a cloaca do Congresso brasileiro, assim baptizado e deixado à nossa opção por Alexandra Lucas Coelho (jornal ‘Público’ de 24-Abr-2016), dilatou e capturou o Senado. Este órgão igualmente hediondo, por 61 votos contra 20, retirou o mandato a Dilma Rousseff, primeira mulher eleita presidente do Brasil.
A verdadeira causa do pedido de invalidação do mandato – impeachment – suporta-se, e essa é a realidade autêntica, na deliberação de Dilma favorável ao prosseguimento do ‘Lava-jacto’ e de outros processos judiciais de corrupção sobre elevadas figuras do Estado. De entre estas, num total de dezenas de congressistas e senadores corruptos, além do presidente Temer, ontem empossado, sobressaía Eduardo Cunha, presidente demitido do Congresso. Cunha cometeu crimes de lavagem de dinheiro e de corrupção passiva, recorrendo à transferência de milhões para contas, suas e de familiares, na Suíça.
O sinistro Cunha retaliou contra Dilma, na referida cloaca, com um duplo processo de invalidação do mandato e de perda de exercícios de cargos públicos.
Hoje, no Senado, Dilma perdeu o mandato, permanecendo, todavia, a usufruir dos direitos ao exercício de cargos públicos.
Para Temer, impedido de candidatar-se por indícios de corrupção, ainda restou um amargo de boca intenso. O presidente do Senado, Renan Calheiros, ao criar votações separadas para ‘a perda do mandato’ e ‘a perda dos direitos do exercício de cargos públicos’, criou, de facto, em Temer uma decepção sem limites, assim como a uma fracção significativa dos membros do PMBD, do Congresso e Senado – 42 votos contra Dilma, na votação dos direitos, foram insuficientes.
A corrupção, portanto, deu um golpe na Democracia do Brasil, mas parte significativa da população, incluindo artistas e intelectuais, revela-se disposta a fazer da luta contra Temer, o governo presidencial e acólitos uma batalha incessante de contragolpe de sentido democrático.
No futuro próximo ou longínquo, ou em ambos, a vida política e social no Brasil será de perturbação continuada, a não ser que, entretanto e na extensão dos fortes contingentes policiais já utilizados, o exército tome parte no conflito. E das forças armadas a ordenar e condicionar a governação, parte do povo do Brasil, fora os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar, retém na memória o sentimento e imagens dessa dura e longa punição.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A arrogância retribuída com delicada hipocrisia

Li e classifico de genericamente positiva a entrevista de António Costa ao 'Público'. Demonstra coerência em relação a várias mensagens da campanha eleitoral; campanha esta que, disse e repito, deveria ser sido mais enérgica. 
Também sei que Costa esteve muito entregue a si próprio nas digressões que fez pelo País - os apoios de Ana Catarina Mendes, Carlos César e Pedro Nuno dos Santos concentraram-se, acima de tudo, na fase de negociações com BE, PCP e PEV. A formação da maioria parlamentar tem igualmente especial mérito destes três socialistas.
Voltando ao conteúdo da entrevista, e sem me deter em pormenores com que concordo ou discordo, destaco duas breves passagens:

1)
Pergunta dos jornalistas:  Como vê a actuação do Presidente desde as eleições?
Resposta de A.C.:  O primeiro-ministro não avalia a actuação do Presidente.
Resposta curta, sagaz e inteligente. Em sintética afirmação, o PM voltou a colocar à distância o inquilino do Palácio de Belém no que respeita à relação institucional com governo, o qual, tem sublinhado Costa, depende da AR. Não de um PR em fim do 'prazo de validade' e de poderes felizmente limitados.

2)
Frase de A.C. em resposta à 6.ª pergunta: E percebo que a direita esteja irritada e respeito até algum azedume.
Na 'realpolitik', não há espaço para questões de ordem ideológica, muito menos para pensamentos ou divagações de ordem ética ou moral. Shakespeare, no legado cultural deixado ao mundo, integrou algumas frases que se celebrizaram. Eis uma delas: "O diabo pode citar as Escrituras quando lhe convém." 
Os cavalheiros da PàF, a decorar a governação do louco empobrecimento dos portugueses, usaram uma arrogância infame ilimitada. Quisessem ou não, Passos Coelho e Paulo Portas, devido à maioria relativa saída das eleições, perderam toda a capacidade de prosseguir na arrogante e leviana atitude de repescar o PS para se tornar um partido submisso e maleável aos desígnios do PSD+CDS. De resto, o presunçoso Coelho, a 14 de Outubro, afirmou categoricamente que não teria mais conversações com o PS.
Que reacção mais pertinente poderia ter tanta arrogância que, lembre-se, durou 4 anos? A resposta tão delicada quanto hipócrita que António Costa lhes deu no 'Público': "E percebo que a direita esteja irritada e respeito até algum azedume." É uma pequena humilhação das muitas e enormes de que a direita se fez merecedora.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Programa do Jô - Cabaré "Pau não Cessa"

Vídeo recomendado para > 18 anos

Ontem caiu-me este vídeo no 'Facebook'. Aceito haver no conteúdo expressões ousadas. Talvez mesmo demasiado ousadas. Naturalmente alguma parte da audiência contestará a publicação em blogue.
Divulgá-lo ou não foi um complicado dilema. Todavia, ao fim de algum tempo, decidi avançar e eis a entrevista que me divertiu imenso, extraída do 'Youtube'. 
Aqui para os meus lados, mais a mais, está um dia bastante nublado, acentuando o tom plúmbeo deste País entristecido, que me desagrada.
O último dos nossos comediantes a sério, Herman José, deixou-se estigmatizar por modelos tautológicos e evaporou-se. Optou mesmo por certo mimetismo em relação ao formato e estilo do Jô. Mas, diz o povo, cada um é para o que nasce, e Jô Soares é ele próprio, dotado de talento e de enorme capacidade de comunicação e humor, sob uma suavidade sublime. Consegue provocar, com meia dúzia de palavras, a explosão de riso  do público - a última vez que vi o Jô actuar ao vivo em Lisboa foi na representação de um monólogo, no CCB (em Fevereiro de 2005).  Excelente desempenho!
Portugal, já de si, é um país onde os sisudos dominam. De facto, não tem, na actualidade, um comediante digno dessa qualificação. Lembro-me, ao vivo ou em filme, do Vasco Santana, do António Silva, do Humberto Madeira, do José Viana, do Raul Solnado, da Ivone Silva; de Herman, Maria Rueff e Ana Bola que vão subsistindo; os 'Gatos Fedorentos' ludibriaram-nos, jamais foram comediantes.
(Adenda: aos que reprovarem as imagens e o diálogo do vídeo, as minhas desculpas antecipadas.)
   

sábado, 5 de dezembro de 2015

Elis Regina, que saudade!


Hoje estive a ouvir música de todos tempos. Elis, para mim e para muitos, é intemporal. Pelo talento do saber dizer e pela sonoridade melódica com que a sua voz aconchega a minha alma de emoções que me levam para um paraíso que jamais vi, mas que, no momento, sinto dentro de mim.
Que saudades me machucam daquela noite de Domingo, quando assisti, há muitos anos, a um espectáculo no antigo Cinema Roma, agora, creio, chamado Fórum de Lisboa.
'Romaria' foi uma das canções que ouvi nesse espectáculo. A letra é um poema de uma vida dramática, iguais às muitas que, infelizmente, nos tempos actuais perduram e se multiplicam:

  Romaria
Elis Regina
 
É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a sol

Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos
Perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte
Eu não sei, nunca vi

Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir de
Romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar
Meu olhar

Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

(Nota: jibeira é a designação de bolso no Nordeste do Brasil: Jiló é uma planta cujo fruto é o jiloeiro; desavento significa triste, desanimado.)