segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O jogo: ‘cautelar’ ou ‘saída limpa’?

Cara ou coroa? Nesta fase do jogo da programa de “ajuda” da ‘troika’ é pergunta equivalente aqueloutra (‘programa cautelar’ ou ‘saída limpa?’) que muitos formulam, os governantes portugueses não debatem externamente e, em jeito de maior apropriação da nossa soberania já de si condicionada, as opiniões da Alemanha, dos ‘lobbies’ de Bruxelas e dos membros do Eurogrupo dividem-se pelas duas alternativas.
Sublinhe-se que, entre os “amigos da onça” da Zona Euro, os critérios de escolha não se fundamentam em condições mais vantajosas para Portugal. Baseiam-se, isso sim, nos interesses dos próprios países e em opiniões também interesseiras de individualidades de que o ‘Público’ nos dá conta. Destacamos os seguintes exemplos:
  • ·        A ‘saída limpa’  é a preferência da Alemanha e países nórdicos – que incomodativo a Sr.ª Merkel e PM’s com ela alinhados terem de justificar perante o Tribunal Constitucional alemão e/ou parlamento a operação de apoiar Portugal com um ‘programa cautelar’!
  • ·        A França e Oli Rhen alinham pelo ‘programa cautelar’.
  • ·       Verifica-se ainda o ilegítimo objectivo de influenciar o comportamento do PS, pretendendo-se impor aos socialistas, como membros do ‘arco da governação’, um consenso com PSD e CDS sobre a estratégia orçamental para os próximos dez anos.


Esta última opção, além de repugnante intromissão no funcionamento do sistema político do Estado Português, é defendida por fonte anónima – e, nestas coisas de decisões estratégicas, o papel do anónimo é normalmente nefasto para os países dependentes de instâncias internacionais, como é o nosso caso.
O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, com a experiência académica de agrónomo, habituado a calendarizar os tempos de plantios e colheitas, é, involuntariamente, mais pragmático, ao afirmar:
Trataremos dessa decisão mais tarde, em Março ou Abril, tendo em conta também os últimos desenvolvimentos, (designadamente) o acesso aos mercados…
Ou seja, Dijsselbloem, inadvertida mas oportunamente, deixou a mensagem de que em função do registo climático em Portugal no início da Primavera, logo se verá se haverá sol ou chuva e consequentemente sair-se-á à rua com tempo ameno ou limpo ou, então, bem coberto por um ‘programa cautelar’ a servir de gabardina.
O mais intrigante é constatar que, centrando-se o debate em torno da saída do maldito programa da ‘troika’, a intervenção externa de governantes portugueses é pouco mais do que insípida – os outros decidirão e bem por nós, pensarão eles.
Todavia, este confronto entre ´saída limpa’ ou ‘ programa cautelar’ é efeito de, desde sempre, o governo ter andado a ufanar-se com o slogan “somos a Irlanda, não somos a Grécia”. Como a Irlanda teve condições e deliberou ‘sair limpa’, a escolha de alternativa tornou-se mais complexa para os portugueses. E justamente porque não somos a Irlanda nem a Grécia, as nossas condições políticas de regresso ao mercado, se melhores do que as dos helénicos, serão muito mais dispendiosas do que as taxas de juro cobradas pelas obrigações portuguesas.

Tome-se em consideração o seguinte quadro:


Comparação e Diferencial de Taxas de Juro de PT e IE
Prazo da Dívida Portugal (PT) Irlanda (IE) Portugal v Irlanda (%)
2 anos 1,931% 0,780% 147,56%
5 anos 3,718% 1,730% 114,91%
10 anos 5,025% 3,330% 50,90%

Fonte: Investing.com
Hora: cerca das 13h50




(Para confirmar taxas de juro: 1) 'click' numa taxa portuguesa ou irlandesa 2) 'click' na opção 'Cotações' e dentro desta caixa 'click' em Obrigações; 3) na caixa 'Todos os Países', abrir e seleccionar Portugal e 'click' em Pesquisar no lado direito; 4) repita idêntico procedimento para seleccionar Irlanda)

A comparação demonstra como, pelo mesmo tipo de empréstimos, pagamos muito mais do que a Irlanda e desmistifica a ideia lançada para a opinião pública de que apenas os nossos juros é que estão em baixa. Mais, o movimento das taxas de juro, como se sabe, é volátil e, daqui até Abril, percentagens certas só no tempo próprio.