quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

‘Leya’ atentamente, Vossa Graça Senhor Conde de Alferrarede

José Saramago desperta o ódio de condes. Sim, condes autênticos ou virtuais. Primeiro, foi Sousa Lara, 2.º conde de Guedes, então amanuense subsecretário de estado da Cultura do XII Governo Constitucional, chefiado pelo conde virtual da alfarroba, a impedir a candidatura do notável escritor ao Prémio Literário Europeu de 1992. A autoritária figura das terras das alfarrobeiras foi lesto e convicto na aprovação da proposta do subajudante.
Depois da morte do respeitável escritor, Nobel da Literatura de 1998, outro titular da nobreza, Miguel Pais do Amaral, 4.º conde de Alferrarede, desentendeu-se com as herdeiras do escritor. Quebrou-se uma relação de 29 anos entre Saramago e a Editorial Caminho; esta foi adquirida em 2008 pelo grupo Leya, de que o conde das terras dos azeites é proprietário.
Dominador e com ambição material ilimitada, Pais do Amaral, além da ruptura com as herdeiras de Saramago, quebrou igualmente acordos com o jovem escritor João Tordo e, mais recentemente, com Miguel Sousa Tavares, um dos autores de vendas mais elevadas na actualidade, Ao que consta, a lista de autores afastados do famigerado grupo livreiro já é bastante extensa.  

A direita reaccionária, provocadora e ignara começou por atacar as herdeiras de Saramago pelo fim da ligação ao duo Editorial Caminho / Leya. Os ataques na blogosfera foram intensos. Todavia, a verdade de certos negócios ainda conserva uma virtude: mais cedo do que tarde vem ao de cima. A descontinuidade de diversos escritores na sociedade livreira do ilustre conde Amaral é demonstração inequívoca de que as responsabilidades pela extinção de vínculos contratuais não são imputáveis aos autores.
A despeito do grau de concentração de capital atingido, em determinados sectores económicos do país ainda existe concorrência. O sector editorial e livreiro é um deles. O que o 4.º conde Alferrarede rejeitou foi aceite por uma sociedade concorrente.
Dirijo, pois, felicitações à Porto Editora por ter firmado com as herdeiras de Saramago um contrato de 6 anos, dando um passo na defesa do património cultural português, posterior a outros também importantes - caso da aquisição das históricas livrarias Bertrand. A loja do Chiado, em Lisboa, é só a 2.ª livraria mais antiga do mundo, depois de outra existente em Tóquio.
Os católicos fanáticos, em especial membros da ‘Opus Dei’ e jesuítas do tipo César das Neves, alargaram à Porto Editora os ódios com que pensaram, desde sempre, ter demonizado José Saramago, o único Nobel da Literatura de língua portuguesa, até ao presente.  
Igualmente fanático mas por dinheiro, a Pais do Amaral, se o enfrentasse, dir-lhe-ia sarcasticamente: ‘Leya’ atentamente, Vossa Graça Senhor Conde de Alferrarede, a Porto Editora editará a obra de Saramago.”