terça-feira, 17 de março de 2015

Ó meus amores, ajudem os reformadores

Do indiano da ‘troika’ a Cavaco, do Zorrinho a Cadilhe, deste e do outro extremo do famoso segmento curvo do distinto ‘arco do poder’ (PS, PSD e CDS), a ordem é clamar por ‘reformas estruturais’. A fim de satisfazer tal ânsia reformista, logo que encontre o Zé Pedro ou o Tim dos Xutos, implorarei: “Reformulem a letra da canção ‘Contentores’, para que regressem os amores a este recanto do mundo em auxílio dos reformadores…”.
A hora é de retorno às zonas de conforto na Pátria. Zé Pedro e Tim poderão auxiliar-me na minha abstrusa proposta e ao sábio programa de incentivos ao regresso de emigrantes qualificados, da autoria do preclaro Lomba, uma medida de arromba! Ainda mais abstrusa.
Insistem os grandes mestres, da nossa desgraça, que temos de dotar o País de ‘reformas estruturais’. Ainda ontem, Miguel Cadilhe defendeu esse objectivo no ‘Clube dos Pensadores’, em consonância com o pensamento manifestado em Paris por Cavaco“um irmão deve sempre estar sempre em consonância com o outro”, diz, pleno de acrítica convicção, o beato de inabalável fé, sem enxergar que Francisco não é igual a Bento, da mesma forma que oficial não é sargento.
A expressão ‘reformas estruturais’, pronunciada amiúde por eminentes figuras, transformou-se em jargão. A omissão de objectivos não é inocente. Para as eminências defensoras da tese, estão em causa números, as contas públicas, mas, acima de tudo, as despesas com o Estado Social que nos resta. Sim, porque atingir milionários e corporações poderosas da sociedade, que evito discriminar, é impensável; aliás, demasiado embaraçoso para as elites do poder.
A racionalização das contas públicas, na óptica dos distintos pensadores, reduz-se a afectar direitos dos pobres e da classe média em degenerescência: dos desempregados aos reformados, das crianças a velhos carenciados.
É premente, isso sim, solucionar o défice orçamental, sem incomodar os acomodados e os detentores de fortunas que se multiplicam a ritmo superior ao do empobrecimento de milhões das camadas sociais desprotegidas – ler ‘O Capital no Século XXI’, de Thomas Piketty ajuda, e de que maneira, a compreender o fenómeno da expansiva desigualdade no mundo e a imunidade das oligarquias financeiras às ‘reformas estruturais’.
Cantemos, pois, “Ó meus amores, ajudem os reformadores”. Acabem com o pouco que sobra aos cidadãos comuns. Quando sobra, porque em regra falta.