segunda-feira, 27 de março de 2017

O 'Capitão Vesgo'

“O mais alto de nós não é mais que um conhecedor
 mais próximo do oco e do incerto de tudo.”,
Fernando Pessoa
Tínhamos a história do ‘Capitão Gancho’, da peça teatral ‘Peter Pan’ . Agora, no processo dos comandos, passámos a ter o ‘Capitão Vesgo’. O primeiro, de mão decepada, valia-se de um gancho para caçar as vítimas; o segundo, vesgo e portanto zarolho, vê apenas a deturpada realidade. Ambos, o ficcional e o real, usam farda e têm o porte de quem comanda.
Diz o ‘Capitão Vesgo’ que o grupo de comandados “era constituído por instruendos na sua generalidade de médio/baixo [nível quanto à] parte física”. Na opinião do zarolho [=vesgo], está explicada assim a morte de dois jovens instruendos – Hugo Abreu, madeirense, e Dylan Silva, de Ponte de Lima.
O ‘Capitão Vesgo’, de má-fé ou por falta de visão, não enxerga o essencial do absurdo e desumano exercício de esforço físico imposto aos jovens militares (sete outros desistiram e um alferes foi internado no Hospital das Forças Armadas) em condições climatéricas muito adversas, de elevada temperatura. Nem sequer questiona a extrema gravidade para a vida humana de exercícios militares de enorme violência.
O que se decidirá, em termos de justiça militar ou civil quanto às responsabilidades dos militares oficiais e sargentos envolvidos, será, quero crer, objecto de processos que transitarão em julgado.
No actual mundo de violência em que faca ou facalhão, ou ainda uma viatura ligeira ou pesada, matam inocente e pacífica gente, parece-me legítimo questionar se a preocupação dominante das forças de segurança, incluindo militares, necessitam do contributo de jovens fisicamente super-dotados ou se o ataque aos adversários da paz deve realizar-se com meios tecnológicos disponíveis em generosa abundância, e a utilizar no respeito pelos princípios elementares dos Direitos Humanos; ou ainda se, em alternativa, com o recurso à antiquada e animalesca ideia de que a defensores da ordem democrática tem de ser cometida a incumbência a quem, de facto, na gíria é designado como verdadeira besta.  

terça-feira, 21 de março de 2017

Dijsselbloem, o lacaio louco do Sr. Schäuble

A 'teoria das dicotomias', aplicada aos povos europeus e perfilhada por certa gente de lá de cima, é clara: a Norte está a nata, no Sul a escumalha.
Se usarmos o método dicotómico para classificar duas criaturas reais do Norte da Europa, poderemos concluir que temos dois casos de deficiência: um, o amo alemão Schäuble, deficiente físico e personagem sinistra da política anti-sulista; outro, o lacaio holandês Dijsselbloem, deficiente mental - a pose, o olhar semi-estrábico e até o penteado, revelados na imagem, constituem provas da psicótica figura (a psicose, convém sublinhar, tem carácter permanente ao contrário da neurose que é temporária).
Dijsselbloem, apesar de ser engenheiro agrónomo formado na Irlanda (ver aqui, no 'The New York Times'), exerce as funções de ministro das finanças da Holanda, cumulativamente com o cargo de presidente do Eurogrupo por imposição da Alemanha. Como é possível reconhecer correcta a atribuição a um homem da área da agronomia a presidência do Eurogrupo? Apenas uma resposta: a função, no caso especial do holandês, não requer conhecimentos em finanças públicas, umas vez que é exercida na estrita condição de comissário político às ordens de Schäuble.
O louco Dijsselboem acusou os europeus do Sul de gastarem dinheiro em "copos e mulheres"
A mim, lisboeta que conhece a Holanda, rejeito a ofensa, dado o estado mental de quem a proferiu. Nem sequer vou entrar em comparações entre quanto se bebe nos bares de Amesterdão e nos de Lisboa, ou, se devido às 'red lights', há mais prostitutas lá do que cá. Cairia na mesma imbecilidade do louco ministro holandês.
No fundo, o que está a desassossegar a perturbada mente de Jeroen Dijsselboem é o resultado obtido pelo seu partido PvdA, dito de centro-esquerda, nas recentes eleições holandesas - obteve somente 9 deputados. Foi considerado o partido com a maior derrota eleitoral, com a natural consequência da saída da coligação governamental que tem estado no poder e de Dijsselboem ser afastado da presidência do Eurogrupo em Janeiro de 2018 - em meu entender, deveria ser logo que terminado o mandato de ministro das finanças da Holanda.
Um louco frustrado incomoda, mas não tem o poder de ofender quem quer que seja.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Trump e republicanos empenhados no desmantelamento do ‘Obamacare’

O desmantelamento do 'Obamacare' foi promessa eleitoral. Obcecado, desde a tomada de posse, Donald Trump empenhou-se activamente em captar o suporte de correlegionários republicanos para o sórdido objectivo. 
Nos últimos dias, no congresso dos EUA, membros do Partido Republicano têm avançado no sentido de revogarem a Lei dos Cuidados de Saúde Acessíveis de Obama ('Affordable Care Act') notícias e artigos a este propósito são elucidativas, conforme se poderá comprovar em  'The New York Times' ou 'The Nation'.

A fim de avaliar e qualificar a iniciativa de Trump contra a acessibilidade de milhões de norte-americanos a cuidados de saúde, ao abrigo do programa 'Obamacare', é necessário, em nosso entender, ponderar os seguintes aspectos:
  • as despesas com prestação de cuidados de saúde comparticipadas pelo governo dos EUA, desde 1965, ocorriam sob cobertura de dois programas: 1) Medicare, programa de seguro subvencionado por fundos fiduciários e dirigido a cidadãos acima dos 65 anos, jovens deficientes e doentes necessitados de hemodiálise; 2) Medicaid, programa assistencial de serviços de saúde para cidadãos de baixo rendimento e em função do número de membros da família, em muitos casos sem co-pagamento;
  • o 'Obamacare', promulgado por Barack Obama em 2010, constituiu uma transformação muito significativa, ao alargar a milhões de cidadãos - calcula-se que mais de 20 milhões - a prestação de cuidados de saúde a custos controlados por entidades públicas, federais e estaduais, com planos de saúde, aumentando igualmente o número de beneficiários do Medicaid;

quarta-feira, 8 de março de 2017

O Comentador Minhoca

À semelhança do verme que lhe empresta o nome, o comentador minhoca vive sob entulhos e em terras enlameadas. Segundo veio a público em 2014, aqui, o citado comentador, em conjunto com o empresário Joaquim Cabrita, lesaram o Estado em 773 mil euros. Agora, notícia do ‘Público’, também o tristemente célebre comentador fez saber que vai pronunciar-se como testemunha no processo judicial dos vistos ‘gold’; fá-lo-á por escrito, beneficiando do estatuto de membro do Conselho de Estado e desde que o dito e douto Conselho o autorize.
O comentador minhoca é baixo, visivelmente baixo quando está de pé ou sentado e, acima de tudo, quando como politólogo de direita exprime publicamente, na TV, opiniões, avisos e recomendações de carácter político, sem o mínimo sentido ético ou mero bom senso.
Em vez de barrar a intervenção pública a figuras deste calibre, a ‘democracia portuguesa’ acolhe-as com repugnante generosidade. A SIC do Dr. Balsemão, mediante perguntas pré combinadas e o olhar arregalado da loura Clara de Sousa, disponibiliza tempo de antena domingueiro ao comentador minhoca. O ‘Público’, actualmente dirigido pelo neoliberal David Dinis, e o ‘Jornal de Negócios’, às 2.ªs feiras, prestam-se ao papel de ‘caixa-de-ressonância’ dos sarilhos e sentenças do ‘minhoca’, da véspera.
A sociedade portuguesa, nomeadamente como outras europeias, asiáticas e dos EUA, está condicionada por estereótipos e homens de poder e seus agentes, orientando-se no sentido da consolidação do domínio financeiro por uma minoria de personagens, a nível global. O 'minhoca' é um desses agentes.
O olímpico e crescente desprezo pelos mais básicos direitos humanos, entre estes o direito à vida, atinge milhões de seres humanos, entre crianças, mulheres (hoje é o Dia Internacional da Mulher – uma saudação especial a todas as mulheres amigas do ‘Facebook’) e homens desvalidos. Todavia, os poderes institucionais e instâncias internacionais revelam-se incapazes de combater a ultrajante desigualdade em expansão no mundo. 
Resta aos humanistas a iniciativa da luta, cada um à sua maneira e dentro de possibilidades, na maioria dos casos, limitadas. Nem que seja, apenas, a de mandar o comentador minhoca para o entulho.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O ‘Big Brother’ atacou-me

Estou a ser alvo de um vil, duro e injustamente incriminatório ataque do ‘Big Brother’, personagem que, no meu caso e infelizmente, não é fictícia. Tem nome, neste momento irrevelável. Sei que esse ‘Grande Irmão’ me está a observar - "Big Brother is watching you", alertou, e bem, George Well no romance ‘1984’.
O que está em causa, na minha existência que já vai longa, é tudo o que cá em casa, de forma honesta e sem máculas, se conseguiu amealhar ao longo de mais de cinquenta anos de trabalho e que é insuficiente para me classificar de rico – somos, eu e quem me acompanha há mais de quarenta anos, dos cidadãos que integram o que se designa por ‘classe média’. Nada mais.
A minha ausência do ‘Facebook’, nos últimos tempos está, portanto, justificada. A amigas e amigos, uns apenas virtuais e outros reais, asseguro que, uma vez alcançada a derrota do monstro, regressarei.

Até um dia destes.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares partiu, fica a obra política

Maria de Jesus Barroso e Mário Soares
Um aperto de mão selou o meu primeiro encontro com Mário Soares. Foi na sede da CEUD na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa, onde deixei um donativo no âmbito da angariação de fundos para a campanha eleitoral de 1969. Ele, sentado na sala, ergueu-se e veio ao meu encontro agradecer e cumprimentar-me. Eu era um jovem, naturalmente orgulhoso naquele momento.
Jamais esquecerei este episódio, ocorrido há cerca de 48 anos. Sem me ter filiado como militante do PS ou de qualquer outro partido político, aprendi a ser de esquerda, democrata e republicano com o meu avô paterno. Todavia, o Dr. Mário Soares foi o mestre que o substituiu.
Nos últimos anos, na carreira de persistente lutador pela Democracia e Liberdade, encontrei-o com frequência em manifestações e acções de luta. As últimas ocasiões ocorreram na Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa, na companhia de Helena Roseta, minha amiga, e na Avenida da República, em manifestação anti troika e, naquele local preciso, anti FMI.
A causa da Democracia Portuguesa tem em relação a este insigne Homem e Político uma enorme dívida.
Embora esperada, a notícia da morte de Mário Soares, que ouvi na SIC Notícias, entre as 15:30 h e as 16:00 h, inundou-me de tristeza. De súbito, dei comigo a meditar que ele foi o último a partir de uma geração de políticos devotos da causa democrática que a História de Portugal há-de gravar, no capítulo do percurso pós-25 de Abril.
Há tempos, sofri com a morte de Maria Barroso que também conheci pessoalmente. A sua irmã Fernanda, falecida há muito, foi minha camarada de trabalho na Covina.
O desaparecimento há ano e meio de Maria de Jesus Barroso e hoje de Mário Soares são acontecimentos que devem obrigar à reflexão os políticos actuais, quase todos saídos das ‘jotas’ e que acederam à política sem a barreira da ditadura feroz. Exige-se que passem a respeitar o legado de objectivos políticos de Democracia, de Liberdade e de Justiça Social que herdaram de um grupo de notáveis antifascistas de que o Homem falecido hoje era figura eminente.
Da obra de Mário Soares resulta, pois, o dever imperativo de servir com justiça e equidade os legítimos interesses e direitos das gerações de portugueses de hoje e do futuro. É impossível ignorá-la.
Obrigado póstumo ao Dr. Soares, por tudo quanto fez pela Democracia Portuguesa, e uma manifestação de solidariedade à família, em especial filhos e netos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Editorial de ‘The New York Times’ de 02/01/2017 (Tradução)

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Por que as  grandes corporações empresariais estão a ajudar Donald Trump a mentir sobre empregos

O presidente eleito Donald Trump gostaria que todos acreditassem que sua eleição dinamizará a economia, forçando as empresas a criar milhares de empregos nos Estados Unidos. E empresas como Sprint parecem perfeitamente felizes em acompanhar esta ficção, porque sabem que podem lucrar consideravelmente por acomodar o Sr. Trump.
Na quarta-feira, o Sr. Trump afirmou que um alto executivo do Sprint lhe dissera que a empresa gostaria de aumentar 5.000 empregos "por causa do que está a suceder assim como o espírito e a esperança."Mas acontece que os postos de trabalho são parte de um compromisso anterior pela empresa-mãe do Sprint,  SoftBank, cujo chefe do executivo disse na ‘Trump Tower’ em Dezembro, que seriam investidos US $ 50 mil milhões e criar 50.000 empregos nos Estados Unidos. E mesmo essa promessa foi parte de um fundo de tecnologia de US $ 100 mil milhões que o SoftBank anunciou em Outubro, antes da eleição. Em suma, a declaração do Sr. Trump tornou-se ar quente, como o 'tweet' no qual ele agradeceu pessoalmente por um aumento do índice de confiança do consumidor no mês passado.
É fácil ver por que SoftBank e Sprint podem querer ajudar o Sr. Trump a beneficiar do crédito para a criação de postos de trabalho. O chefe executivo da SoftBank, Masayoshi Son, pretende da Divisão Antitrust do Departamento de Justiça e da Comissão Federal de Comunicações a permissão de uma fusão entre a Sprint e T-Mobile. Em 2014, reguladores, nomeados pelo Presidente Obama deixaram claro ao Sr. Son que essas entidades não aprovariam tal transacção porque a mesma diminuiria o número de empresas nacionais de telecomunicações sem fio para três, de quatro, reduzindo a concorrência numa indústria já concentrada. O Sr. Son vê uma nova abertura para o seu negócio no Sr. Trump, que se cercou de pessoas ladeadas por grandes empresas de telecomunicações em debates regulamentares e argumentaram contra a difícil aplicação da lei antitrust.
Este é o capitalismo de compadrio, com consequências potencialmente devastadoras. Se o Sr. Trump nomeia pessoas para a Divisão Antitrust e o F.C.C... que estão dispostos em flutuar na onda através da fusão Sprint/T-Mobile, ele vai fazer danos permanentes à economia que superam de longe qualquer benefício de 5.000 empregos; empregos que podem ter sido criados mesmo sem a fusão. Cidadãos e empresas irão encontrar os custos do serviço sem fio muito mais altos quando tiverem apenas Verizon, AT&T e T-Mobile/Sprint para escolher.
Além disso, Sprint e T-Mobile combinadas diminuiriam inevitavelmente milhares de empregos como executivos da mescla de redes das empresas, lojas, sistemas de facturação, departamentos de serviços ao cliente e assim por diante. Isso aconteceu uma e outra vez depois dos grandes negócios das operadoras de telecomunicação. Quando a AT&T adquiriu a BellSouth em 2006, executivos superiores disseram que esperavam cortar 10.000 empregos depois do negócio ter sido fechado em Dezembro do mesmo ano. Desde então AT&T também adquiriu a DirecTV. No final de Setembro, AT&T empregou 273.000 pessoas ao redor do mundo, muito abaixo de 309.000 em 2007.
Tornou-se claro que o Sr. Trump se distrai facilmente com objectos brilhantes, especialmente se estes reflectem o brilho à volta dele. Ele está mais interessado em gabar-se de pessoalmente ter mil empregos na Carrier, digamos, do que em detalhes de política que poderia fazer a diferença na vida de dezenas de milhões de trabalhadores. Não importa que a Carrier só esteja a manter cerca de 800 empregos e que o seu executivo-chefe tenha dito que a empresa iria livrar-se de alguns desses de qualquer modo através da automação. Isto deve preocupar grandemente os americanos, especialmente as pessoas que estão a contar com o Sr. Trump para reanimar a economia e ajudar a classe média.

(Traduzido por Carlos Fonseca em 02/01/17)

sábado, 31 de dezembro de 2016

‘Réveillon’ da Sociedade Recreativa e Musical de Ribeira dos Olivais

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Um optimista deve ser realista. Nos contactos sociais, no ‘Facebook’ e nas redes sociais em geral, predomina a frase Bom Ano de 2017. Desejos e votos são generalizados. As heranças de 2016 – Síria, mortes no Mediterrâneo, atentados, eleição de Trump, ameaças de acesso da xenofobia ao poder em eleições na Europa, incremento, em relação a 2015, de 237 mil milhões de dólares das fortunas de umas dezenas dos multimilionários do planeta … - as heranças de 2016, dizia, são tão onerosas e consistentes que me deixam céptico quanto a 2017.
Efectivamente, é imperioso interrogar de que milagre a humanidade beneficiará, de modo a que, à meia-noite de todos os países à volta do Planeta, em uníssono, possam vir a desfrutar da maravilhosa melodia de que, em 1 de Janeiro de 2017, desponta um novo e feliz Mundo? Os mais frágeis do mesmo Mundo (crianças, mulheres, idosos, em especial) continuarão a ser vítimas, aos milhões, à volta da Terra. É a minha convicção, por muitos fortes e sentidos que sejam os desejos de um ‘Bom Ano’.
Sem esquecer os sofrimentos no Oriente longínquo, do Médio-Oriente e nas consideradas potências Ocidentais, entendo que, nada de novo e influente na melhoria das grandes causas humanitárias, se modificará. Optimista contrariado, penso: 2017 será certamente pior ou no mínimo igual a 2016.
Tenho, pois, de conformar-me ao refúgio da pequena vila onde faço a passagem de ano. Uma comunidade de 1.500 pessoas, na estrondosa maioria de idade avançada. Sem pensar nas ralações e infortúnios do dia-a-dia, vividos com tristeza, reencontram a alegria no Réveillon da Sociedade Recreativa e Musical de Ribeira dos Olivais.
Há baile, petiscos e copos. As senhoras, numa noite em trezentas e sessenta e quatro, vestem os vestidos de tafetá, carregados de naftalina, e envolvem-se em ‘écharpes’ de tule. Vestuário do tempo de jovens mães, quando baptizaram os filhos. Eles, de fato e gravata, usam pela enésima vez a indumentária ancestral com que se divertiram em festas de há muitos anos; os tecidos estão puídos, tão brilhantes como os sapatos engraxados.
O ano novo, para esta gente, cinge-se à felicidade de vestir estes trajes e dançar ao som de um quinteto designado ‘Os Rapazes da Rádio’ que é composto por sexagenários. Bailam ao ritmo de tangos, boleros, música portuguesa dos anos 1950 e 1960 e ainda melodias dessa época em inglês e italianas de Marino Marini (‘La Piu Bella del Mondo’, ‘Quando, Quando, Quando’ e outras que a intemporalidade da música exige serem perenes). O vocalista, claro, canta num género de inglês e italiano muito abaixo do que se considera macarrónico.
Entre as festividades institucionais, decoradas de fogo-de-artifício e de falsas promessas de um Mundo melhor, do Terreiro do Paço à Times Square, o Réveillon da Sociedade Recreativa e Musical de Ribeira dos Olivais é mais realista: esta noite vamos gozá-la, o ano que entra vamos sofrê-lo.  

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Défice de 2016, a sofrida frustração da direita neoliberal

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A fim de ser o mais sintético possível, sem, contudo, evitar um texto demasiado árduo pela aridez própria da linguagem económica, decidi fragmentar este ‘post’ em diversas partes.


1)      Contas do 3.º Trimestre de 2016
O INE publicitou aqui que o défice a reportar a Bruxelas, no fim do 3.º T de 2016, foi de 2,5%, calculado na óptica de ‘contabilidade nacional’ exigida pelo Tratado de Maastricht – esta funciona num sistema para a análise e avaliação macroeconómica, no qual é necessário usar um conjunto de contas articuladas que pretendem representar e quantificar todas as actividades económicas do país realizadas durante um período de tempo. Há uma ilação a extrair do citado défice de 2,5%
- é mais baixo 0,9% do que os 3,4% atingidos no período homólogo de 2015 pelo executivo PSD+CDS;
2)  Execução orçamental de Novembro de 2016
A DGO divulgou há dias a execução orçamental de Novembro/2016.  À partida há que sublinhar que os valores, neste caso, são calculados na óptica de ‘contabilidade pública’, segundo a valorização de entradas e saídas de fundos públicos (óptica de tesouraria). Julgo ainda útil adiantar algumas observações:
- o saldo das Administrações Públicas (AP’s) foi de – 4336 milhões de euros o que compara com - 4730 milhões de Nov-2015;
- o ‘saldo primário’ (saldo sem juros) melhorou para 3430 milhões de euros dos 2716 milhões registados em Nov-2015;
- a receita cresceu apenas 1,9% contra os 4,9% previstos no OGE 2016; ao passo que a despesa aumentou somente 1,3% face ao incremento previsto de 5,7%.
3) Investimento público
O investimento público (Formação Bruta de Capital Fixo) situou-se num nível muito baixo – a despesa de capital foi apenas 1% do PIB.
Nesta área, a direita ganha folgo para agressivas críticas. Esquece-se propositadamente do enorme desinvestimento público do executivo PSD+CDS, através da alienação de empresas, algumas estratégicas, que eram activos valiosos do Estado. Cito apenas ANA, CTT e EDP. Nesta última, informava hoje a SIC, já se registou uma retirada de dividendos de 700 milhões pelos chineses que participam no capital.
4) A comunicação social de direita – o ‘Observador’
Neste artigo no ‘Observador’, Ricardo Santos, revelando uma sede de vingança política e uma fragilidade confrangedora de conhecimentos de economia, logo no 1.º parágrafo, começa por colocar no mesmo plano os dados do INE e da DGO. Calinada! Acima demonstrei que as contas doo INE são calculadas em ‘contabilidade nacional’ e as da DGO em ‘contabilidade pública’. Compará-las, de forma ligeira, é erro grave.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O provincianismo do Tavares, escriba do ‘Público’

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Tavares é de Portalegre. E Portalegre, claro, não tem culpa. Todavia, tem de reconhecer-se que, nas mais diversas localidades, há os filhos da terra que tanto podem manchar como prestigiar a cidade, vila ou aldeia onde vieram ao mundo. Exemplos muito claros: um indivíduo tanto pode associar Arouca a actos cometido por um cidadão da burguesia local, como em relação a outro de origem diferente, mesmo migrando para a capital, constatar que não logra dissociar-se do provincianismo que lhe está plasmado na pele e inculcado no cérebro, tornando-se promotor da má imagem da sua própria terra.
J. M. Tavares é daqueles jornalistas que, embora estudando em Lisboa, jamais se emancipou da tacanhez e do provincianismo. É de direita, opção que, no plano dos direitos humanos e da cidadania, qualquer democrata sério respeita.
No entanto, como jornalista que diz que é, deveria esforçar-se para se libertar do papel de provinciano, no estilo de intriga pessoal predominante nos artigos que publica no jornal ‘Público’. É incapaz de escrever sobre temas importantes e objectivos, acantonando-se na prosa subjectiva que visa sempre atingir ostensivamente alguém de esquerda.
A falta de imparcialidade de Tavares, desta vez, escolheu como visados Inês Pedrosa e António Guterres, ambos afectos ao PS.
O que leva Tavares a injuriar apoiantes da escritora? Não o facto de Inês Pedrosa estar a ser acusada pelo Ministério Público por abuso de poder na direcção da Casa de Fernando Pessoa; isto é já matéria de processo judicial em curso. Foi o facto de, em solidariedade com Inês, ter havido a iniciativa de 38 seus amigos do meio cultural subscreverem uma carta aberta em defesa da honra da escritora – entre os subscritores constam figuras destacadas da literatura e da música - Eduardo Lourenço, Tolentino Mendonça, Francisco José Viegas, Lídia Jorge e Sérgio Godinho, entre outros.
Em relação a António Guterres, considera igualmente crime que a AR tenha atribuído o prémio Direitos Humanos de 2016 ao novo Secretário-Geral da ONU (25.000 euros), o qual só poderia ser concedido a quem tivesse tido actividade numa ONG. Como esta condição não foi preenchida, e sem tomar em conta que António Guterres será o primeiro português a ocupar o mais alto cargo a nível da ONU, o juiz Tavares acusou a AR de acto de criminoso. Desvalorizou completamente o facto do homenageado ter passado de imediato, em minutos, o prémio a uma senhora de uma organização humanitária.
Quando um escriba de jornal inventa estes falsos crimes em relação a figuras de esquerda, nunca se empenhando em investigar por que razão outros processos judiciais que envolvem gente de direita estão paralisados (BPN, por exemplo), fica bem claro que, por doentio sectarismo, é incapaz de cumprir a missão de informar e opinar a preceito e com respeito pela deontologia da profissão. Tavares não consegue, de facto, ultrapassar a dimensão do provinciano, entretido com sarilhos que preenchem as conversas de café da pequenez de carácter.