sábado, 14 de novembro de 2015

Sous le Ciel de Paris, Edith Piaf



Sinto a obrigação de homenagear Paris e a sua população, em respeito pelas vítimas da bárbara mortandade cometida na passada noite pelo Estado Islâmico. Com este propósito, seleccionei a canção 'Sous le Ciel de Paris' interpretada por Edith Piaf, a deusa eterna da música francesa.
Os bárbaros jiahdistas, através da carnificina assassina de mais de uma centena de cidadãos, acabam de prestar um serviço inestimável à xenofobia e à extrema-direita europeias. Se a Europa com o fenómeno de multidões de migrantes já formava um quadro desconexo, complexo e triste, o atentado do Estado Islâmico tende a incrementar a aversão e a intolerância em relação a cidadãos estrangeiros. Servirá para erguer novas barreiras políticas e físicas num Velho Continente,  pátria modelar da democracia e da cultura.. Sobretudo, a França e a Cidade Luz que, na História Mundial, foram o berço e são o ícone que iluminou o mundo dos saberes da vida e da ciência.
No jornal 'Público', Isabel Moreira, citada aqui sem a mais pequena partícula de partidarismo e apenas em atenção ao papel de cidadã, convida-nos de forma brilhante para uma séria reflexão, ao questionar: "Quem captura quem?"

Paris a ferro e fogo!

Área próxima do 'Bataclan'
Paris está a ferro e fogo! E como meu amo Paris. Iniciei essa relação de amor, depois de assistir, na adolescência, no Cinema Império, em Lisboa, ao filme "Paris já está arder?", pergunta e desejo frustrado de Hitler, ao saber da tomada da capital pelas forças dos aliados.
Quis o destino que, tempos mais tarde e durante 16 anos, ao serviço de certa empresa com capitais de origem francesa, tivesse como missão visitar Paris várias vezes por ano.
A minha adoração por Paris é indiscrítível. Conheço bem a cidade, os seus recantos e os diversos 'arrondissements' em que ela se subdivide de uma forma harmoniosa e ordenada.
Ao saber do morticínio que marcou o final desta 6.ª feira negra - a passagem de 13 para 14-11-2015 remanescerá na História como noite trágica parisiense - acedi ávido de notícias a órgãos de comunicação franceses. 
Concentrei-me no 'Libération' onde, entre outros trechos, li o seguinte:
"Homens armados abriram fogo em vários bares na capital; havia sete ataques no total. 120 pessoas estariam mortas. Quatro assaltantes morreram.
Em  discurso televisionado sexta-feira às 23:50, o Presidente da República, François Holland, decretou estado de emergência em França e o fechamento das fronteiras após "ataques terroristas". 
Informo-me através de outras fontes que, no 'Stade de France' , local onde se disputava um jogo de futebol e donde Hollande foi evacuado, um bombista suicida provocara uma explosão.
Os restantes episódios passaram-se no bar 'Le Carrilon' e na casa de espectáculos 'Bataclan', onde decorria um concerto de uma banda de 'Heavy Metal'. Tudo isto, no 10.º e 11.º 'arrondissements', nas imediações do Boulevard Voltaire. Justamente no Boulevard em que se situava um dos meus locais de peregrinação obrigatória: 'La Librairie Entropie' (Paris). 
Suceder em Paris tem um significado especial. Todavia, se fosse outra a cidade, a minha  revolta e sofrimento seriam como estão a ser, igualmente muito intensos e solidários. Surgem notícias de que os autores são (e alguns já eram) membros do Estado Islâmico. 
A infeliz Europa da era actual está submetida a perturbações e convulsões em que políticos europeus - Barroso, Blair e Asnar - em conjugação com George Bush filho deram fortes contributos para o desastre, através da desorganização do Médio Oriente e vizinhanças. Ajudaram a multiplicar o fundamentalismo islâmico (o Estado Islâmico é, em grande parte, uma emanação dos militares de Saddam que os invasores do Iraque proscreveram e subestimaram). 
Com centenas de milhares de migrantes a procurarem a segurança que não têm nas suas terras (entre quem se podem misturar os agressivos jiahdistas), a construção de muros e protecção de arame farpado a dividir países integrantes da União Europeia, tudo complementado por este tipo de ataque, que, creio, se multiplicará e distribuirá por outras cidades europeias, é legítima a interrogação: para onde vais Europa? Talvez para o precipício colectivo, admito.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Saltos de Coelho: revisão da CRP e o assalto ao poder

O supremo objectivo de Pedro Passos Coelho (PPC), desde 2010 (ou até antes), é materializar a revisão da Constituição da República Portuguesa. Agora mais do nunca, porque o homem está de alma mutilada pela perda do poder. 
Sem qualidade cultural e especialista em discursos palavrosos e manipuladores, Coelho acaba de manifestar desesperada disponibilidade para fazer uma revisão constitucional extraordinária, a fim de se realizarem eleições já. Concretamente afirmou:
"Estou inteiramente disponível para dar o meu apoio à revisão constitucional para que o Parlamento possa ser dissolvido."
Esta frase é apenas compreensível num político profissional mentalmente perturbado. Com efeito, pretendendo PPC retirar do posicionamento para PM António Costa - posicionamento, porque Cavaco ainda não o indigitou e não é completamente seguro que o indigite - é total ausência de lucidez comunicar em publico a vontade que o anima no sentido de rever a CRP. A mente desordenada de Coelho ignora que, para atingir este objectivo, necessita do PS? - veja-se o que estabelece o Artigo 286.º, n.º 1, da Constituição:

Artigo 286.º
Aprovação e promulgação

Outra pergunta se impõe: PPC pensará que António Costa e a vasta maioria do PS estariam na disposição de lhe facilitar a sonhada "revisão constitucional extraordinária", em prejuízo do próprio partido? Como se diz na gíria dos dias de hoje, o Coelho endoidou mesmo.

Sabe-se, repito, que, desde 2010 e com uma comissão chefiada por Paulo Teixeira Pinto, PPC está dominado pela alucinação de rever a CRP para eliminar e limitar direitos fundamentais da cidadania e do exercício democrático. O Prof. Jorge Miranda disse-o de outra forma em Dezembro de 2012:
"Há um programa, o projecto de revisão constitucional do doutor Passos Coelho de 2010/2011, em que há um projecto de refundação do Estado num sentido que tem sido chamado de neoliberal. Acho que há esse projecto por detrás dessa ideia de refundação."
Agora brinco eu em estilo abrasileirado: criem-se as condições porque "ditador de araque"já temos. E para apoiar o gabinete do Coelho até contamos também com um ministro providencial, irrevogável mas revogado, que pode ser uma espécie do Dr. Castro Fernandes da era moderna.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Juros em queda ou a notícia irritante para a direita

Disse-o e repito-o: o 'Jornal de Negócios', relativamente à maioria parlamentar de esquerda que rejeitou o governo da coligação PàF, tem tido um comportamento impróprio de um jornalismo da democracia, i.e., responsável, imparcial e consonante com os interesses do País. Comporta-se ao estilo do "Diário da Manhã" ou do "Diário". Transformou-se em pasquim económico de direita.
Previu o caos imediato - inferia-se com facilidade das notícias e comentários; porém, a realidade da bolsa em queda está a ser contrariada pelos resultados (o índice do PSI-20 sobe neste momento 0,54%) e, para agravar o estado de irritação dos desejos contrariados da direita que o 'JN' representa, os JUROS DA DÍVIDA PORTUGUESA ESTÃO EM QUEDA. Os escribas da anedota Helena Garrido foram compelidos a publicar a notícia de que se reproduz o texto seguinte:
"Os Juros a 10 anos, que é considerada a maturidade de referência, estão a cair 1,1 pontos base para 2,776%, depois de terem já avançado cinco pontos esta manhã. A "yield" a cinco anos está a recuar 1,2 pontos base para 1,452%. No prazo mais curto, a dois anos, os juros estão a cair 5,2 pontos base para 0,172%.Entre as principais congéneres europeias, a queda da "yield" portuguesa é a mais acentuada. ..."
Os juros caem e a tensão arterial da gente da direita sobe. Cuidado com AVC's e enfartes!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A Comunicação Social do Subdesenvolvimento

Vi o debate da AR e o que demais o rodeou; mas, nem sempre muito atento. Um tipo das causas fundou-se em ocupações de tarefas em simultâneo. Outro centrou-se no desinteresse causado pela falta de imparcialidade e a manipulação da opinião pública através de imagens e comentários.
A minha amiga Sarah publicou no 'fb' estas imagens. A superior foi aquela que vi  na SIC-N - com fundamentado desprezo, sublinho. Da segunda, tomei conhecimento através do 'fb'.
A comparação das duas imagens, do mesmo aglomerado de pessoas, leva-nos a significações distintas. A primeira dá-nos a ideia de que a convocatória feita por certo militante do CDS correspondeu a uma multidão à frente da AR. A imagem inferior transmite-nos, com fidelidade e rigor, que estiveram apenas algumas dezenas, talvez nem três centenas, de manifestantes de direita.
Esta e outras técnicas de manipulações através da imagem é muito, muito antiga. Certos jornalistas são recorrentes nesse método de trabalho, como os da SIC-N agora comandados por um tal Alcides, homem-de-mão de Balsemão.
O truque reside exactamente em captar um grande plano de grupos que se pretendem impingir, a quem observa, como numerosos; todavia, trata-se de acção ardilosa conhecida e fácil de denunciar - os srs. jornalistas, além do mais, estão convencidos que nenhum telespectador, neste caso, ou leitor tenha tido o interesse em estudar pequenos mas ilustrativos e pedagógicos textos de Comunicação, como 'Introdução ao Estudo da Comunicação' de John Fiske. Estão redondamente enganados.
Da SIC-N, saltemos para o 'Jornal de Negócios' da triste Helena Garrido. Títulos atrás títulos, nos últimos dias de um governo em agonia, o reles jornal lança o alarme da queda do PSI-20 (bolsa de Lisboa) e do aumento dos juros da dívida pública. Todavia, os mercados apostaram em contrariar as previsões do caos do 'JN'. Hoje, o índice do PSI-20 caiu apenas 0,33% e devido ao vulnerável BCP e os juros a 10 anos da dívida pública portuguesa recuaram para 2,774%.
São legítimas as preocupações da Comunicação Social com o futuro político do país. Todavia, são inaceitáveis manobras grosseiras seja na imagem ou na palavra dita ou escrita, de forma a enganar os portugueses e, sobretudo, influenciar algumas entidades estrangeiras que dominam os mercados.
Parece-nos estarmos dominados, salvo raras excepções, por um género de imprensa próprio de um Estado não desenvolvido. Não têm autoridade para criticar o 'Jornal de Angola'. Usam exactamente os mesmos estratagemas e modelos.
  

Puseram os 'pa-li-tós' à direita

No 'facebook', o meu amigo e ex-companheiro do 'Aventar', Fernando Moreira de Sá, a propósito da queda do governo PàF, publicou a seguinte mensagem:

    Ouvido ao meu lado: "Agora as manifestações são de blazer".
A resposta saiu-me de súbito: 
    No Brasil, diz-se de paletó. Tanto que também o fenómeno também é gozado através da frase: puseram os "palitós" à direita.
O maldito AO sempre serve para alguma coisa. Seguindo a teoria, e inspirado na pronúncia carioca, nem eu, nem o leitor ouvirá um cidadão do Rio de Janeiro dizer pa-le-tó, mas sim "pa-li-tó", o que, prescindindo do acento na última sílaba, se transforma em 'pa-li-to'. A direita anda  em maré de azar, nem blazer pode usar. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Para o registo do escatológico caso BES: a pensão de Salgado & Administradores Associados

Temos uma direita social e funcionalmente estruturada para o mal. Sob o halo da injustiça social, da protecção dos inimputáveis, mesmo em relação a autores de gravíssimas infracções à lei e avultados prejuízos causados aos cidadãos, a direita portuguesa, sob as ordens de Cavaco, Passos e Portas, tem-se esmerado, de facto, em afirmar-se como abjecto instrumento de produção de excrementos com que vive em estado de sublime volúpia do despudor.
Notícia fresquíssima do ‘Expresso’:
“Antigo líder do Banco Espírito Santo vai passar a receber uma pensão mensal de 90 mil euros, o triplo do que recebe hoje…… Só Ricardo Salgado recebe retroactivos de um milhão de euros, diz ainda a TVI. E a partir daqui receberá uma pensão de cerca de 90 mil euros por mês, o triplo dos 29 mil que recebia até aqui.Além de Ricardo Salgado, há mais dez antigos gestores do BES beneficiados por esta decisão. A TVI cita os nomes de Rui Silveira, José Manuel Espírito Santo, João Freixa e António Souto, e ainda a viúva de Mário Mosqueira do Amaral… também José Maria Ricciardi [um homem com quem Passos Coelho compartilha a mesa de refeições… e talvez a mesma gamela] receberá uma pensão nos mesmos moldes quando reformar.”
Os ‘Lesados do BES’, que hoje se manifestaram pela enésima vez junto à sede do Novo Banco em Lisboa, receberam este incentivo no sentido de endurecerem a luta fermentada por situações revoltantes. Se alguém se perturbar e optar pela violência, não me causará surpresa.
O governo tem-se esquivado, inabilmente, de fortes responsabilidades que lhe cabem no caso. De resto, ofereceu em bandeja de platina ao Sr. Carlos Costa um segundo mandato na governação do Banco de Portugal pelos serviços oficiosos por ele prestados. O objectivo da deliberação foi obviamente uma desajeitada tentativa de demonstrar que a autoridade do governo, sobre o caso BES / Novo Banco, era nula.
Há, todavia, outros focos de análise aos centros de responsabilidade: (i) a injecção de 3.900 mil milhões de euros em fundos públicos no Novo Banco emanou de um acto governativo; (ii) a escolha do ex-ajudante – no léxico cavaquista – do Ministério da Economia, o beirão Sérgio Monteiro, para a venda do Novo Banco (um insucesso de Costa e sua equipa) foi assumida pelo BdP, mas o verdadeiro decisor da matéria foi o governo de Passos e Portas.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Cavaco em discurso faccioso, sórdido e desconexo

Classifico de normal que Cavaco Silva tenha indigitado Passos Coelho para formar governo. Aguardemos as consequências: governo de gestão ou a coligação PS+BE+PCP.
Na União Europeia de hoje, totalmente diferente daquela dos tempos de Jacques Delors. Tornou-se regra renegar os direitos de soberania de um povo.
Willy Brandt, Olaf Palm, François Mitterrand, Filipe Gonzalez ou Mário Soares, criadores e fomentadores da Europa do Estado Social, seriam hoje esquerdistas proscritos.
A actividade política, a ética e a ideologia de fundo das correntes políticas e dos políticos citados foram clamorosa e despudoradamente abandonadas pela 3.ª via do trabalhista Tony Blair, de quem Francisco Assis era um entusiasta seguidor. A continuidade desta 3.ª via foi assegurada por outros social-democratas europeus, destacando-se Gerhard Schröder que deixou um belo e útil legado anti-social a Angela Merkel.
Os movimentos da 3.ª via nos trabalhistas ingleses e em partidos europeus da mesma família política constituíram a resposta aos neoconservadores, encimados por Thatcher (UK) e Reagan (EUA). Imitaram a diabolização da intervenção do Estado na produção de bens e serviços, eliminando, sobretudo no Reino Unido, parte de políticas sociais do Estado. Isto, lembre-se, facilitado pela queda do muro de Berlim e o início do desmoronamento da URSS de Gorbatchov em 1989.
Cavaco foi um aluno devotado de Thatcher, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, um dito ‘social-democrata’ e outro autoproclamado ‘democrata cristão’, formam o trio do neoliberalismo radical, em sintonia e cega obediência à UE dos tempos modernos.
Cavaco, que desde a nascença tem complexos de presumida superioridade e inteligência falsas, acaba este segundo mandato desastradamente. Não, em meu entender, porque tenha indigitado Passos Coelho – esta ‘conta’ ele próprio pagará mais tarde, antes de regressar a casa.
Sobretudo, foram o tom e as passagens sensíveis do discurso que, uma vez mais, o distinguem como o ‘ditador de araque’ deste canto sem humano encanto. Ora façamos alguns comentários a algumas dessas passagens:
  •    Esta situação é tanto mais singular quanto as orientações políticas e os programas eleitorais desses partidos [PSD; PS e CDS] não se mostram incompatíveis, sendo, pelo contrário, praticamente convergentes quanto aos objectivos estratégicos de Portugal.
Comentário: é curioso que tenha esquecido essa situação singular, ao tempo do governo do PS de Sócrates e tenha feito um discurso mais do que sórdido na AR anti PS.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A necessidade de solidez e realismo na coligação à esquerda

A direita europeia já começou a expelir vómitos para amedrontar os portugueses:
“Em conferência de imprensa em Madrid, onde esteve em peso o PPE (Partido Parlamentar Europeu), o presidente deste grupo conservador, o francês Joseph Daul, amedronta a opinião pública portuguesa com a expectativa de que, consumada a possível coligação à esquerda, a situação em Portugal terá contornos semelhantes à Grécia.”
Paulo Rangel, que também está no evento de apoio desesperado a Mariano Rajoy e ao seu PP, em afirmações integradas na voracidade da procura de popularidade, é um dos candidatos a presidente do PPE, também vai dizendo algumas coisas contra a hipotética coligação do PS+BE+PCP (hipotética, assim a considero por enquanto).
Um outro cavalheiro, secretário-geral do PPE e Antonio Lopez-Isturiz de nome, também entrou no jogo de apavorar os portugueses, devido aos efeitos do governo de esquerda sobre os investidores que, segundo o propagandista, são quem nos garante o emprego, a casa e o pão.
Todos estes tons discursivos são, em antes de tudo, estúpidos. Uma parte significativa das pessoas está ciente da ‘revanche’ que Portugal esperará, com juros a subir e outras ameaças a vários domínios da nossa soberania; fenómeno este que, de resto, já sucede com a conivência traiçoeira do governo PSD+CDS.
Por outro lado, os mais atentos, devem atender à prelecção de Varoufakis em Coimbra. Os discursos intimidatórios dos neoconservadores do PPE são uma espécie de certificado de autenticação da comunicação do Professor de Economia grego, na cidade dos estudantes.
Oxalá a esquerda se entenda! É meu desejo profundo. Todavia, devido aos compromissos mais apertados com as normas e tratados europeus, ou o BE e PCP aceitam que, efectivamente tomando em conta o sucedido com o Syriza, o PS tem de gerir com pinças o controlo orçamental; ou então, é preferível nem embarcar em aventuras do tipo do súbito aumento do salário mínimo nacional de 18,81%. Teremos, neste tipo de medidas, uma alteração bastante profunda e susceptível de ameaçar a sobrevivência de PME’s e, consequentemente, de multiplicar o desemprego.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A actual trama da governação de Portugal

A figura da retórica da direita assenta na ideia perversa dos partidos do ‘arco de governação’. No restrito círculo artificial, imiscui-se o CDS-PP, partido minoritário que, em média, obtém 8 a 10% de votos.
Todavia, e a despeito da condição de menor, reivindica o estatuto de ‘partido de poder’. Sempre que o PSD vence, com maioria insuficiente para, por si só, formar governo, lá vai o Dr. Portas e a sua trupe de obedientes para o governo. Foi assim com Durão Barroso e a história repetiu-se nas legislativas de 2011, onde, excepcionalmente, teve 11,70% de votos que se somaram aos 38,65% do PSD. Consequência: uma maioria absoluta de 50,35%.
Sucede que, nas últimas legislativas, 4 de Outubro de 2015, o PSD+CDS, coligados ou não (caso de Açores e Madeira) registaram 38,36% de votos  (107 deputados). Em contrapartida, o PS (32,31%), o BE (10,19% e o PCP (8,25%) totalizaram 50,75% de votos (122 deputados). O PAN obteve 1 deputado eleito.
O Art.º 187, n.º 1, da CRP, estabelece:

1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais.

O que são os resultados eleitorais a ter em conta segundo esta norma? Os votos contados nas urnas, em que a maioria é vencedora, mas apenas com uma vantagem relativa ou o número de deputados eleitos para a AR pelos diversos agrupamentos possíveis, PSD+CDS, por um lado, ou PS+BE+PCP, por outro?
Reside, pois, nas divergências de interpretação do conceito constitucional de ‘resultados eleitorais’ que direita e esquerda esgrimem argumentos a favor da legitimidade do direito à governação.