sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Cavaco em discurso faccioso, sórdido e desconexo

Classifico de normal que Cavaco Silva tenha indigitado Passos Coelho para formar governo. Aguardemos as consequências: governo de gestão ou a coligação PS+BE+PCP.
Na União Europeia de hoje, totalmente diferente daquela dos tempos de Jacques Delors. Tornou-se regra renegar os direitos de soberania de um povo.
Willy Brandt, Olaf Palm, François Mitterrand, Filipe Gonzalez ou Mário Soares, criadores e fomentadores da Europa do Estado Social, seriam hoje esquerdistas proscritos.
A actividade política, a ética e a ideologia de fundo das correntes políticas e dos políticos citados foram clamorosa e despudoradamente abandonadas pela 3.ª via do trabalhista Tony Blair, de quem Francisco Assis era um entusiasta seguidor. A continuidade desta 3.ª via foi assegurada por outros social-democratas europeus, destacando-se Gerhard Schröder que deixou um belo e útil legado anti-social a Angela Merkel.
Os movimentos da 3.ª via nos trabalhistas ingleses e em partidos europeus da mesma família política constituíram a resposta aos neoconservadores, encimados por Thatcher (UK) e Reagan (EUA). Imitaram a diabolização da intervenção do Estado na produção de bens e serviços, eliminando, sobretudo no Reino Unido, parte de políticas sociais do Estado. Isto, lembre-se, facilitado pela queda do muro de Berlim e o início do desmoronamento da URSS de Gorbatchov em 1989.
Cavaco foi um aluno devotado de Thatcher, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, um dito ‘social-democrata’ e outro autoproclamado ‘democrata cristão’, formam o trio do neoliberalismo radical, em sintonia e cega obediência à UE dos tempos modernos.
Cavaco, que desde a nascença tem complexos de presumida superioridade e inteligência falsas, acaba este segundo mandato desastradamente. Não, em meu entender, porque tenha indigitado Passos Coelho – esta ‘conta’ ele próprio pagará mais tarde, antes de regressar a casa.
Sobretudo, foram o tom e as passagens sensíveis do discurso que, uma vez mais, o distinguem como o ‘ditador de araque’ deste canto sem humano encanto. Ora façamos alguns comentários a algumas dessas passagens:
  •    Esta situação é tanto mais singular quanto as orientações políticas e os programas eleitorais desses partidos [PSD; PS e CDS] não se mostram incompatíveis, sendo, pelo contrário, praticamente convergentes quanto aos objectivos estratégicos de Portugal.
Comentário: é curioso que tenha esquecido essa situação singular, ao tempo do governo do PS de Sócrates e tenha feito um discurso mais do que sórdido na AR anti PS.


  •      Assim ocorreu em todos os actos eleitorais em que a força política vencedora não obteve a maioria dos deputados à Assembleia da República, como aconteceu nas eleições legislativas de 2009, em que o Partido Socialista foi o partido mais votado, elegendo apenas 97 deputados, não tendo as demais forças políticas inviabilizado a sua entrada em funções.
Comentário: não viabilizaram a sua entrada em funções, mas inviabilizaram a continuação em funções a meio da legislatura; nessa altura, Cavaco até ficou grato à votação conjunta do PSD, CDS, PCP e BE para derrubar Sócrates.
  •        …é meu dever, no âmbito das minhas competências constitucionais, tudo fazer para impedir que sejam transmitidos sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados…
Comentário: os sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados ficaram acesos e bem vivos desde já por Cavaco – caso a coligação PàF venha a ser afastada do poder por votação de moção de rejeição na AR, a coligação à esquerda que eventualmente lhe sucederá já tem a indelével marca negativa que Cavaco lhe plasmou.       
  • É aos Deputados que compete decidir, em consciência e tendo em conta os superiores interesses de Portugal, se o Governo deve ou não assumir em plenitude as funções que lhe cabem.
  • Como Presidente da República assumo as minhas responsabilidades constitucionais.
  • Compete agora aos Deputados assumir as suas.
Comentário: o trecho mais reles da comunicação cavaquista está compreendido nestes três pontos com que Cavaco finalizou o faccioso, sórdido e desconexo discurso – um PR a tentar incrustar o divisionismo na bancada parlamentar socialista classifica Cavaco como um homem de carácter rasteiro.

Que Cavaco Silva regresse quanto antes à Travessa do Possolo e se entretenha a falar com o senhor da mercearia da esquina. Que haja festança depois da saída de Belém nas marquises do País, porque os muitos cidadãos anti Cavaco também precisam de comemorar o alívio da partida com regozijo.


(Nota: reafirmo a minha não militância partidária e os meus ideais de esquerda).