segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Um País politicamente transtornado

Tenho sido contido em matéria de política, no que concerne à disputa e ao desfecho eleitoral. Na qualidade de cidadão com direito a voto e à participação política, bato-me naturalmente por ideais em defesa de uma sociedade socialmente justa, onde prevaleça o humanismo – “Cada vez mais uma utopia”, dizem os críticos. “Cada vez mais um dever colectivo”, replico.
A coligação PàF venceu as eleições, com a despromoção para uma maioria relativa. Terá algum mérito próprio, mas houve algo mais a ajudar a vitória da direita. Desde logo, a infame falta de imparcialidade da comunicação social, com destaque para as TV’s. Depois, o género de povo que somos. Mesmo no litoral, do Minho ao Algarve, devoram-se milhares de ‘Correios da Manhã’; uma espécie de ‘Pravda’ da direita populista portuguesa. Para terminar, a despeito do bom desempenho do BE e dos estereótipos do PCP, a luta eleitoral foi vencida tranquilamente pela direita, com um PS inconsistente nos formatos e conteúdos comunicacionais da campanha.
António Costa praticamente foi um homem só a percorrer ruas e cidades do País. Coelho e Portas, com mais eficácia, fecharam-se em salões e realizaram os tais 1.500 almoços ou jantares, com um regime de gratuidade que incluía o petisco regado e os autocarros lotados.
 O contexto mundial complexo, dominado pelos mercados e os extremistas da teoria da ‘mão-invisível’ de Adam Smith, conduziram o Ocidente a uma crise profunda. Os efeitos, em especial no sistema financeiro, prevalecem. Não é, por mero acaso, que BPP, BPN e BES se evaporaram conjuntamente com os milhares de milhões de euros dos contribuintes portugueses – acrescente-se que a banca portuguesa - BPI, Montepio Geral, Millennium BCP, Novo Banco e mesmo CGD - vive momentos de depressões financeiras e causadoras de preocupações – embora haja publicidade defensiva, em sentido inverso.
Portugal, com uma economia que o poder classifica de forte mas é frágil, deve ser tratado com pinças sob o ponto de vista político (tenha-se em atenção a subjugação do Syriza e dos gregos aos directórios da UE). Recomendar-se-ia que fosse evitado revelar com estrondo as fracturas internas para o exterior. Porém, nada disto está a suceder; mas, precisamente o inverso.
O decadente Cavaco Silva, em atentado contra a própria CRP (Art.º 187.º, n.º 1), privilegiou o líder do seu partido, Passos Coelho, incentivando-o a tentar encontrar uma solução de governo pós-eleições. Apenas hoje falou com António Costa, que a cada dia de progresso de conversações com o PCP e o BE, mais isolado fica no partido (a derrota, depois da confrontação com Seguro por este ter obtido escassa superioridade eleitoral nas ‘Europeias’ já constituía pesado fardo). Ontem, o diletante Sérgio Sousa Pinto, a seguir o sindicalista banqueiro Carlos Silva e o silêncio comprometedor de Assis e outros estão a criar as condições golpistas que, segundo vaticino, acabarão por derrubar Costa.
Os comentadores também não o poupam, minimizando, nas prestações públicas as críticas à coligação PSD-CDS que só hoje, e não ontem, cumpriu a entrega do prometido documento de base para as conversações com o PS.
O País está, de facto, a atravessar um momento muito delicado, embora haja quem mitigue e disfarce a complexidade da situação política portuguesa. Melhor ou pior, uma solução há-de chegar, creio. Vamos ver como a imprensa e a opinião pública reagirá a uma eventual saída de esquerda (PS, BE, PCP, coligados ou governo do primeiro sob acordo parlamentar com os restantes). Veremos se uns quarentões que por aí escrevem, que tinham entre 0 e 5 anos em 1974/75, agitam o fantasma do PREC e se a esquerda portuguesa terá de ficar eternamente prisioneira de acontecimentos políticos de há mais de 40 anos.