quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fundos abutres e a derrocada do PSI-20

A falta de vontade política, desde os principais líderes europeus a Obama, constitui o motivo imperativo da subsistência de uma regulamentação permissiva e ineficaz do ‘sistema financeiro internacional’.
Os desmandos dos sagrados mercados e investidores, sem controlo, tornam-se consequência natural do que sucede no mundo através de ‘paraísos fiscais’ e de mecanismos ardilosos e imorais – se é que em termos de banca, os actos de poderosas organizações financeiras podem ser avaliados segundo regras da moral ou da ética.
Os países mais frágeis, caso de Portugal, tendem a ser os mais vulneráveis às práticas de insolência da influente ralé de jogadores bolsistas e de gestores igualmente sem escrúpulos; gentalha sem ponta de decoro que actua com cruel frieza e causa a destruição de condições sociais de milhões de seres humanos.
Com a conivência, voluntária ou inconsciente, da generalidade dos meios de comunicação social de maior influência na opinião pública, catapultaram a vida colectiva para um regime de austeridade. Serviram-se de falacioso argumento conducente à transformação em ‘crise de dívidas soberanas’ do fenómeno de ‘criminosa especulação financeira’, iniciada nos EUA com a liquidação do Lehman Brothers em 2007; e propagada à Europa, graças ao elevado grau de integração do ‘sistema financeiro internacional’.
Os neoliberais no poder – caso de Portugal – adoptaram e reforçaram com forte convicção as injustiças do PAEF, o programa de austeridade do qual saímos artificialmente em 17-Maio-2014, mas sob o qual na realidade permanecemos através de políticas de cortes e impostos, bem como de outras medidas lesivas do Estado Social.
Um dos objectivos principais do PAEF e do empréstimo da sinistra ‘troika’, FMI, CE e BCE, privilegiou financeiramente a banca. Registem-se as parcelas de recapitalização bancária de 12 mil milhões de euros e de reforço do Fundo de Garantia de Depósitos e do Fundo de Garantia de Crédito Agrícola Mútuo de 35 mil milhões de euros. Salvar a banca, sob a desonestidade da encapotada necessidade de austeridade imposta ao povo.
Se reflectirmos no ambiente e nas condições ardilosas utilizadas, e em especial pelo capital financeiro à solta, no qual se integram os tenebrosos ‘hedge funds’ (ler notícia do ‘Público’), apenas um míope, verdadeiro ou por conveniência, terá a coragem de se surpreender que operadores especialistas em ‘fundos abutres’ tenham amealhado uns milhões com a queda de valor das acções do BES.
O BdP governado por Carlos Costa, propagandeado como supervisor de qualidade ímpar, tem óbvias responsabilidades. Lembre-se a afirmação de Carlos Costa de que se tinha apercebido em Set-2013 de irregularidades no BES; como é dito na gíria, deixou as raposas na capoeira com as galinhas.
Para piorar o cenário financeiro português, o PSI-20 registou, hoje, um ‘crash’ monumental – queda do índice calculada em - 4,07%. O BCP, que procedeu recentemente a um aumento de capital de 2.250 milhões de euros, foi o recordista desse ‘crash’, com uma redução de 15,07%; o valor das acções caíram para 8,79 cêntimos. Os investidores que aderiram ao referido aumento de capital, ao preço de 6,5 cêntimos por acção, devem estar em ‘estado ansioso agudo’, combatido com doses reforçadas de Xanax XR 3 mg. E o Dr. Nuno Amado poderá estar sujeito, penso, a idêntica terapia.
Claro que a bolsa é um casino e o futuro é imprevisível. Afinal, as condições legisladas no DL 31-A/2012 de 10 de Fevereiro, aplicadas pelo Dr. Carlos Costa e sua equipa, não evitaram que, logo de início, o ‘velho BES’ e o ‘Novo Banco’ contaminassem o sistema bancário.
Falta saber por quanto tempo. Porém, tratando-se de um caso de feitiçaria de casino, só a Maia conseguirá desvendar o segredo precocemente deste jogo de azar ou sorte.