quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As falácias de Maria Luís Albuquerque

Uma mensagem de Maria Luís de Albuquerque, esta tarde na AR, a propósito do escândalo financeiro do BES:

Diz a senhora que o Estado não é accionista, não tem garantias nem o  governo as quer, argumentando que é assim que se defendem os contribuintes.
Esclareça-se que o Estado interveio ao abrigo do DL 31-A/2012 no âmbito do 'Fundo de Resolução'. O regulamento do citado 'Fundo de Resolução', no Anexo, CAPÍTULO I, Disposições gerais, Artigo 2.º, Natureza e objecto, estabelece o seguinte:
  1. O Fundo é uma pessoa colectiva de direito público, dotada de autonomia administrativa e financeira.
  2. O Fundo tem por objecto prestar apoio financeiro à aplicação de medidas de resolução adoptadas pelo Banco de Portugal e desempenhar todas as demais funções que lhe sejam conferidas pela lei no âmbito da execução de tais medidas.
Por não ser irrelevante, acrescente-se que o 'Fundo' em causa é gerido por três elementos: um nomeado pelo BdP, o segundo nomeado pelo Ministério das Finanças e um terceiro indicado por ambas as partes (BdP e MF).
Nestas e em outras circunstâncias impostas pela legislação actual, compete à equipa de Vítor Bento, nomeada pelo BdP com assentimento da MF, gerir o 'Banco Novo' em toda a sua amplitude; isto é, o papel de accionista mesmo que omitido e desempenhado sob especial formato, é da responsabilidade do Estado: o Ministério das Finanças, gestor da dívida pública, deu aprovação à utilização de uma verba significativa (3.900 milhões de euros) dos 12.000 milhões de financiamento da 'troika', para o efeito.
Até à permanência de financiador de verba substancial de capital público ao 'Novo Banco', ao invés do que a Ministra falaciosamente defende, as responsabilidades pela gestão patrimonial e corrente do citado 'Novo Banco' é cometida ao Estado, pelo menos na proporção do montante da participação no financiamento.
- Esta medida é distinta da solução de nacionalização do BPN - diz MLA. Obviamente. No tempo da nacionalização do BPN, preconizada pelo Eurogrupo, a legislação agora existente para a solução aplicada ao BES não existia e foi criada por instruções da Comissão Europeia, e em especial pelo BCE.
Graças à intervenção dos deputados do Parlamento Europeu, incluindo os representantes de todos os partidos portugueses, os depositantes ficaram isentos da punição de verem as poupanças arroladas na lista dos valores capturados pelas autoridades da intervenção. O empenho da Dra. Elisa Ferreira, como líder do grupo de negociação, constituiu um esforço notável e digno de elogios, no seio do próprio e diversificado PE.
O caso dos 'swaps', em que foi participante activa e as declarações a 17 de Julho de 2014 no sentido da solidez do BES retiram a MLA qualquer credibilidade para o discurso actual sobre as responsabilidades do Estado. O que a senhora diz hoje pode ser mera falácia. Recomendar-se-lhe-ia ser menos quente e mais prudente.   



A grande evasão do ‘Novo BES’ para a velha CGD

Jamais foi referido por qualquer membro do governo ou pelo supercalifragilisticexpialidoso governador do BdP, Carlos Costa; contudo, a maior parte dos cidadãos, e porque alguns até se integram no exército dos evadidos, sabe da fuga do ‘Novo BES’ para a ‘velhinha CGD’ e outros bancos, conquanto se ignorem os exactos valores envolvidos. Que são avultados, imagino.
Há mais foragidos, em direcção ao Santander Totta por exemplo, mas os 200 milhões de euros num único dia, 4-Agosto-2014, depositados na CGD, depois do anúncio do milagroso acto conceptivo do ‘velho BES’ e do ‘Novo Banco’, deixa antever que a vida deste último não será fácil, em especial no que se refere a encerramento de balcões e despedimentos - se o Carlos Silva da UGT, trabalhador do BES e grande amigo de Salgado, fosse o primeiro a afastar-se, felicitaria o homem pela manifestação exemplar e pedagógica para o contingente a abater. E o Dr. Vítor Bento, como não poderá perder cabelo, perderá a calvície; sim, porque é muito humano.
O ‘Novo Banco’, em minha opinião, fundada nas ocorrências anunciadas no ‘Público’, sofrerá implacável redução de peso e significância no sistema financeiro português. Desta trajectória de definhamento, coisa distinta não seria expectável, senão uma procura por baixo preço para a entidade agora criada pelo BdP em sintonia com a amanuense Albuquerque. E o prazo para a alienação, que se pretendia curto, dependerá do preço fixado a interessados. Um factor limita o outro.
O facto do BES “estoirado” ser privado e a CGD entidade pública, neste jogo de fuga de depositantes, também se torna em registo satírico; salvo, claro está, para Passos Coelho e mais o esquadrão de neoliberais que o admiram assombrados. Então não é que toda esta tragédia, um acontecimento de privados onde ele jurou nunca intervir, lhe frustrou os intentos de privatizar a CGD! Com os exemplos BES, PT e outros, ficou provado que não há a regra de serem os privados melhores gestores do que os profissionais do sector público. O que distingue o desempenho de uns e de outros são a capacidade, os conhecimentos, a competência e a idoneidade; e finalmente os objectivos atingidos.
Ainda relativamente a Coelho, e ao contrário do que diz o outro, o Verão não lhe faz bem. Aliás, acho que, com ele no governo, nenhuma estação do ano lhe faz bem… e aos portugueses em geral ainda faz pior.  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fundos abutres e a derrocada do PSI-20

A falta de vontade política, desde os principais líderes europeus a Obama, constitui o motivo imperativo da subsistência de uma regulamentação permissiva e ineficaz do ‘sistema financeiro internacional’.
Os desmandos dos sagrados mercados e investidores, sem controlo, tornam-se consequência natural do que sucede no mundo através de ‘paraísos fiscais’ e de mecanismos ardilosos e imorais – se é que em termos de banca, os actos de poderosas organizações financeiras podem ser avaliados segundo regras da moral ou da ética.
Os países mais frágeis, caso de Portugal, tendem a ser os mais vulneráveis às práticas de insolência da influente ralé de jogadores bolsistas e de gestores igualmente sem escrúpulos; gentalha sem ponta de decoro que actua com cruel frieza e causa a destruição de condições sociais de milhões de seres humanos.
Com a conivência, voluntária ou inconsciente, da generalidade dos meios de comunicação social de maior influência na opinião pública, catapultaram a vida colectiva para um regime de austeridade. Serviram-se de falacioso argumento conducente à transformação em ‘crise de dívidas soberanas’ do fenómeno de ‘criminosa especulação financeira’, iniciada nos EUA com a liquidação do Lehman Brothers em 2007; e propagada à Europa, graças ao elevado grau de integração do ‘sistema financeiro internacional’.
Os neoliberais no poder – caso de Portugal – adoptaram e reforçaram com forte convicção as injustiças do PAEF, o programa de austeridade do qual saímos artificialmente em 17-Maio-2014, mas sob o qual na realidade permanecemos através de políticas de cortes e impostos, bem como de outras medidas lesivas do Estado Social.
Um dos objectivos principais do PAEF e do empréstimo da sinistra ‘troika’, FMI, CE e BCE, privilegiou financeiramente a banca. Registem-se as parcelas de recapitalização bancária de 12 mil milhões de euros e de reforço do Fundo de Garantia de Depósitos e do Fundo de Garantia de Crédito Agrícola Mútuo de 35 mil milhões de euros. Salvar a banca, sob a desonestidade da encapotada necessidade de austeridade imposta ao povo.
Se reflectirmos no ambiente e nas condições ardilosas utilizadas, e em especial pelo capital financeiro à solta, no qual se integram os tenebrosos ‘hedge funds’ (ler notícia do ‘Público’), apenas um míope, verdadeiro ou por conveniência, terá a coragem de se surpreender que operadores especialistas em ‘fundos abutres’ tenham amealhado uns milhões com a queda de valor das acções do BES.
O BdP governado por Carlos Costa, propagandeado como supervisor de qualidade ímpar, tem óbvias responsabilidades. Lembre-se a afirmação de Carlos Costa de que se tinha apercebido em Set-2013 de irregularidades no BES; como é dito na gíria, deixou as raposas na capoeira com as galinhas.
Para piorar o cenário financeiro português, o PSI-20 registou, hoje, um ‘crash’ monumental – queda do índice calculada em - 4,07%. O BCP, que procedeu recentemente a um aumento de capital de 2.250 milhões de euros, foi o recordista desse ‘crash’, com uma redução de 15,07%; o valor das acções caíram para 8,79 cêntimos. Os investidores que aderiram ao referido aumento de capital, ao preço de 6,5 cêntimos por acção, devem estar em ‘estado ansioso agudo’, combatido com doses reforçadas de Xanax XR 3 mg. E o Dr. Nuno Amado poderá estar sujeito, penso, a idêntica terapia.
Claro que a bolsa é um casino e o futuro é imprevisível. Afinal, as condições legisladas no DL 31-A/2012 de 10 de Fevereiro, aplicadas pelo Dr. Carlos Costa e sua equipa, não evitaram que, logo de início, o ‘velho BES’ e o ‘Novo Banco’ contaminassem o sistema bancário.
Falta saber por quanto tempo. Porém, tratando-se de um caso de feitiçaria de casino, só a Maia conseguirá desvendar o segredo precocemente deste jogo de azar ou sorte.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Novo Banco e os velhos disparates

Sinto enorme aversão a quem, sem mérito, se arrogue da distinção de notável profissional, qualquer que seja o ramo (médico, gestor, professor, bancário, carpinteiro, comandante da marinha ou da aviação, sapateiro…). Todavia, em relação a determinados “profissionais da comunicação social” e ‘opinion makers’ que pululam nos jornais e em programas radiofónicos ou televisivos, a minha aversão sofre um impulso exponencial, devido ao impacto mediático.
Trata-se do caso dos escritos de JM Tavares no ‘Público’, jornal, dito de referência, do qual sou assinante. Esta condição não justifica privilégios especiais. Entendo apenas que, como qualquer leitor do jornal, tenho o direito de exigir rigor no que é publicado, sob a autoria de quem quer que seja.
O citado articulista escreveu há tempos um texto, sob o título “A morte de Salgado é muito exagerada”, que critiquei e em que, a determinada altura, proclamava:
Se Ricardo Salgado abre a boca, metade do regime parte o pescoço ao cair das escadas.
De forma contraditória, exara agora o seguinte juízo contundente:
“ As acusações de Carlos Costa foram de tal forma explícitas que ninguém pode acreditar que um buraco de cinco mil milhões de euros se cavou sozinho. “
As acusações, saliente-se, foram formuladas ao anterior CA do BES, presidido pelo Dr. Salgado, para quem, afinal, a morte como banqueiro e homem de negócios há dias, na perspectiva de JM Tavares, era muito exagerada.
Mas às contradições juntam-se outras incoerências e, sobretudo, uma tendenciosa visão a favor de Passos Coelho, bem espelhada, ainda que no condicional, no final do artigo O Novo Banco e uma nova política:
“ […] se o governo vier a conseguir vender o Novo Banco até ao fim do ano, chutando-o para fora das contas do défice, então este será, após o “irrevogável”, o segundo coelho consecutivo que Passos tira da cartola. O Verão faz-lhe bem. “
Se o Verão faz bem a Coelho, igualmente seria saudável para JM Tavares aceder a informação fundamental a fim de enviar a mensagem correcta para a opinião pública, ou seja, de que o BdP e o governo se limitaram a aplicar o estabelecido pelo DL 31A/2012 de 10 de Fevereiro. Bastava-lhe ler o preâmbulo do citado DL, onde, entre muito mais, colheria a informação seguinte:
  • ·       As possíveis vias de superação de tais fragilidades têm sido discutidas em diversas instâncias internacionais, nomeadamente sob a égide da Comissão Europeia, do Financial Stability Board e do G20.
  • ·  […] a recente experiência internacional e a consequente discussão das suas possíveis repercussões no plano da regulação bancária têm evidenciado a necessidade de implementar mecanismos que permitam, em situação de grave desequilíbrio financeiro, recuperar a instituição de crédito ou preparar a sua liquidação ordenada…
  • ·        […] nova disciplina legal caracterizada pela existência de três fases de intervenção distintas — intervenção correctiva, administração provisória e resolução.
  • ·        […] caberá ao Banco de Portugal decidir em função do que melhor convier aos objectivos do reequilíbrio financeiro da instituição, da protecção dos depositantes, da estabilidade do sistema financeiro como um todo e da salvaguarda do erário público.
Quem for preciso na análise, compreenderá que Governo e BdP agiram no respeito por esta legislação, emanada fundamentalmente da Comissão Europeia e que foram aprovadas pelo Parlamento Europeu, com o elogiado contributo da Dra. Elisa Ferreira, na liderança da equipa de negociação do PE.
Resta sublinhar que, embora eu reconheça o erro de se deixar de fora da nacionalização do BPN a SLN, o instrumento legislativo de que reproduzo anteriormente alguns extractos não existia à época. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O BES e Banca Internacional – da degeneração à punição dos povos

Carlos Costa, do BdP, mistificou a situação do BES. Em sede de ‘comissão própria’ na AR e na balela impingida a António José Seguro. O socialista saiu, lembre-se, feliz da audiência que o governador do BdP lhe concedeu para o tranquilizar sobre as condições do BES, citando a tal almofada para sobreviver às dificuldades financeiras.
Hoje, Seguro, incrédulo, sente-se ludibriado por Carlos Costa – nas adversidades do ainda líder do PS, há sempre um Costa a azedar-lhe o caldo político. “Que mal fiz eu aos ‘Costas’?”, interrogar-se-á. Da colecção de vídeos, já retirou e colocou no lixo o ‘Costa do Castelo’ e lá foram à vida os desempenhos de António Silva e dos restantes elementos do elenco, no qual, curiosamente, não existia ninguém com o apelido Costa.    
Diferentemente da informação do governador do BdP, e valha a verdade que Carlos Tavares da CMVM foi mais assertivo e rigoroso no depoimento, acabou de saber-se ao final do dia de hoje que os resultados do 1.º semestre do BES atingiram 3.577 M de €, ou seja, 2,11% do PIB português em 2013 (estamos a medir um resultado semestral com uma variável anual).
Quem teve a culpa? Salgado e os seus homens de mão, presume-se. Todavia, e é o próprio FMI que o diz, houve falhas na supervisão do BdP. Todavia, acrescento: isso é verdade, mas a instituição dirigida pela Madame Lagarde pretende iludir a opinião pública com a omissão de que a ‘troika’, composta pelo seu FMI, a CE de Barroso, e o BCE de Draghi andaram por cá três anos e nada detectaram ou, possivelmente, viram e assobiaram para o ar. Os 6,4 mil milhões de euros € ainda existentes no BdP para recapitalização pública têm custado juros aos contribuintes, ou seja, ao povo.
Contudo, os desmandos e descalabros da Banca não se esgotam em Portugal (BPP, BPN, BCP e agora BES). Desde a falência do Lehman Brothers nos EUA em 2007 a onda de choque propagou-se no mundo, em especial na Europa.
No presente, os bancos austríacos, em primeiro lugar, e seguidamente os suecos, franceses e italianos estão em vias de sofrer pesadas consequências das sanções europeias contra a Rússia. A notícia foi divulgada pela Bloomberg e no título e 1.º parágrafo pode ler-se:
[…]
O caso BES, a despeito de condições específicas, integra-se nesta vasta pandemia da banca internacional, considerada argumento falacioso para os programas de austeridade, como demonstra João Cravinho em “A Dívida Pública Portuguesa”. Se não houvesse dimensão internacional até no processo BES / GES que sentido faria referir-se o Panamá, os EUA, o Luxemburgo e ‘la Banque Privée’ da Suiça, entre outros.
Trata-se, de facto, de um processo degenerativo do sistema financeira internacional, a que a complacência de políticos, sistemas de corrupção e abjectos poderes tipo ‘Goldman Sachs’ confluem no sentido de fazer subsistir uma crise que os povos lesados não causaram, mas pagam.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Vida e morte de Ricardo Salgado, por João Miguel Tavares

JM Tavares é um dos ‘parodiantes de Lisboa’ (a) que a TSF e TVI decidiram ressuscitar em formato do programa radiofónico e televisivo, designado “governo sombra”. O citado completa o trio com Araújo Pereira e Pedro Mexia, sob a moderação de Carlos Vaz Marques.
Tavares vem hoje a público, justamente no jornal ‘Público’, afirmar que a morte de Salgado é muito exagerada. Em sentido literal, a morte não é susceptível de avaliação quantitativa – o homem está vivo ou está morto. Não existe um estado verdadeiramente intermédio, a não ser o lapso apressurado da morbidez de um autêntico moribundo.
Com recurso a argumentos subjectivos, que visam naturalmente pessoas em vez de realidades, JM Tavares, de uma penada, despacha indivíduos tão distintos no posicionamento político e na expressão, como Martim Avillez Figueiredo, Pedro Adão e Silva, Daniel Oliveira, Luís Marques, Pedro dos Santos Guerreiro e chega mesmo a José Sócrates – Sócrates está tão diabolizado para este género de parodiantes, como Salazar o esteve pela ‘longa noite fascista’ anos a fio. Sempre fui anti Estado Novo, mas confesso que, nos anos 1980, já não suportava ouvir um argumento sem sentido para o que então ocorria no País.
Termina, exaltando Salgado, afinal vivíssimo da costa, a garantir que o ex-banqueiro enquanto tiver memória continuará a ser um dos homens poderosos do país. Esta conclusão – não é especialmente brilhante e original – significa que a justiça portuguesa é ineficaz, o que toda a gente sabe, a ainda que o Dr. Ricardo Salgado está aí para as curvas para colocar em estado pré-letal uns tantos. Tavares não precisa quem e quantos.
Ao contrário de quem escreve bem – e nos jornais portugueses existem vários autores de qualidade, de esquerda e de direita – Tavares usa o velho e abjecto esquema de focar as críticas e encómios em pessoas, ignorando factos.
Se não conseguir ser objectivo quanto à análise do que está a suceder no GES e BES para um país acabado de sair (com sucesso?) do PAEF e do que o desespera em termos de vida colectiva, que importa a vida ou morte de Salgado, avaliada na sua estrita dimensão, assim como as opiniões de outros articulistas que, em alguns casos, conseguem ser directos e pragmáticos, superando Tavares?
Certamente, por falta de memória, Tavares esqueceu-se de Granadeiro e da decisão deste de injectar 900 milhões de euros na Rioforte, agora incobráveis. Em termos estratégicos para o País causou uma descida de 39 para 25% na participação da PT na fusão com a Oi.
Os exageros num país vigorosamente salgado passam-lhe ao lado.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A dissolvência empresarial pela via da insolvência

Pode jogar-se com as palavras. Todavia, escamotear realidades é impossível. O tecido empresarial português está, de facto, em dissolução – os números do desemprego divulgados, INE e Eurostat, estão muito abaixo da verdade. O critério de contagem, segundo explicitado pelo próprio Eurostat, baseia-se nos princípios seguintes:

  • ·        Serem cidadãos dos 15 aos 74 anos e encontrarem-se nas seguintes condições:
®    estar sem trabalho na semana de referência (da estatística, acrescento);
®    estar disponível para trabalhar dentro das próximas duas semanas;
®  ter procurado activamente trabalhado nas últimas quatro semanas ou terem encontrado trabalho para iniciar a actividade nos próximos 3 meses.

É do conhecimento geral que existem muitos, mesmo muitos mais desempregados em Portugal, sem corresponder a nenhuma destas condições, por falta de escrutínios através das estatísticas – aqueles que deixaram de receber o subsídio de desemprego e não se manifestam activos na procura de emprego junto dos ‘Centros de Desemprego’, a adicionar aos contingentes que se sentem forçados a emigrar por falta de oportunidades em Portugal, somam milhares aos números ‘oficiais’ do desemprego.
Por outro lado, temos o ancestral ardil à volta da exclusão de ‘estagiários’, mesmo trabalhando durante 6 meses, no respectivo ano já não são classificados como desempregados; o mesmo pode aplicar-se a quem frequenta certos cursos de formação organizados pelo IEFP.
O cenário estatístico equivale a um diagnóstico médico errado. O que, de facto, conta é que o número de insolvências não pára de aumentar e o subsequente incremento dos desempregados como desfecho natural.
O ministro Pires, em estilo propagandístico, defende que a retoma está aí. É falso e a quebra da economia é, de resto, um fenómeno mais vasto, da Zona Euro, confirmado pela evolução de – 2,9% do PIB no 1.º T de 2014. O BdP também reviu em baixa as previsões do PIB português para 2014.
A Europa, que privilegiou a salvação dos bancos ao preferir a imposição de políticas de austeridade aos países mais frágeis, se não recorrer a soluções de reestruturação das dívidas e ao relançamento económico está condenada ao insucesso da política da ‘moeda única’, sem a uniformização da política fiscal e políticas de crescimento e coesão social que o BCE, sem autorização e comparticipação da Alemanha, despreza. A tendência deflacionária talvez os obrigue a medidas de fundo. Resta saber quais. Aguardemos, sofrendo. 

domingo, 27 de julho de 2014

O que pensará Cavaco do estudo de saldos primários de Eichengreen?

Cavaco, nas funções de PR, desempenha um papel duplo em relação às finanças do País; em primeiro lugar, como todos os antecessores presidentes o foram, é responsável supremo pela promulgação de toda a legislação, incluindo a lei do Orçamento Geral do Estado; complementarmente, e por se tratar de ‘Professor de Finanças Públicas’, em relação aos anteriores PR’s, tem o dever acrescido de filtrar medidas políticas governamentais, traduzidas em leis, susceptíveis de criar obstáculos ao cumprimento de metas utópicas em matéria de política orçamental, ameaçar a nossa soberania e as condições de vida de segmento numeroso da população portuguesa.
No meio deste jogo, o recurso permanente a medidas legislativas inconstitucionais, em que o governo de Coelho e Portas, aleivoso, é recorrente. Insiste, de forma panfletária, em enviar para a opinião pública a imagem do Tribunal Constitucional como um grupo de juízes irresponsáveis e mesmo hediondos.  
O Prof. Cavaco tem alinhado, na maioria dos casos, pelo referido comportamento, sob a capa da hipocrisia que lhe é peculiar. A forma como se submeteu à vontade do governo de remeter para fiscalização preventiva da legislação de cortes de salários e reformas, em primeira mão anunciada por Coelho, é prova concludente de que o PR infringe as regras de independência e neutralidade exigidas pelo cargo, revelando uma censurável conivência com o governo.
A fim de poder pagar a dívida pública (132,9% do PIB no 1.º T de 2014) nas condições de prazo e juros em vigor, Portugal carecia de um saldo orçamental primário médio (exclui juros) de 5,9% / ano, durante 10 anos consecutivos. No livro “A Surplus of Ambition: Can Europe Rely on Large Primary Surpluses to Solve its Debt Problem?” ‘(Um excesso de Ambição: Pode a Europa Confiar em Elevados Superavits Primários para Resolver o seu Problema do Débito?) ‘, no qual, através de estudo de séries longas sobre vários países, os autores concluem:
O que pensará, de facto, o Prof. Cavaco Silva desta conclusão fundamentada na realidade? Já nem falo na amanuense Albuquerque, que parece estar de partida para Bruxelas; de resto, é justamente isso, uma amanuense, que cumpre o que os directórios da UE28 lhe ordenam e não tem direito a opinião própria.
Por último, refira-se que Eichengreen, professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, considera o seguinte:
“O Banco Central Europeu terá de ajudar com uma taxa de inflação mais alta e a Alemanha terá de ajudar com um maior apoio orçamental ao crescimento, caso contrário a dívida terá de ser reestruturada.”
Ideias que lançam um desafio, de resposta difícil, a umas quantas figuras ilustres da política e da economia que fazem passear pela imprensa exaltados textos e entrevistas contra quem defende o inevitável, a reestruturação.

(Adenda: O italiano Ugo Panizza é co-autor do livro)

sábado, 26 de julho de 2014

O hino de Tom Jobim aos desafinados

Eis o 'Desafinado' de Tom Jobim interpretado por João Gilberto:


Estamos em fim-de-semana e mesmos nós os 'desafinados' - cada vez somos mais - merecemos o hino que Jobim também escreveu com intenção de manifestar solidariedade a quem canta e dança a 'Bossa Nova' e deixa o lado escuro da vida, quando pode. Todos os 'desafinados' de que obviamente se excluem os 'salgados' e quem mais nos salga o dia-a-dia. 
Um fim-de-semana muito, muito desafinado para quem merece!

Mota Soares: o deputado (2008) e o ministro (2014)

Na bancada dos CDS, então na oposição, em 2008 Mota Soares referia-se à pobreza de trabalhadores, reformados, pensionistas e idosos nos seguintes termos:



Teceu outras condições. O discurso, revestido de tom e sentido idênticos, durou 7m51s e poderá ser ouvido na íntegra aqui.
Hoje, no cargo de ministro da Segurança Social, está integrado na coligação que nos (des)governa. Ajudado pela maioria parlamentar que a sustenta (PSD+CDS), deve ufanar-se com sádico júbilo da aprovação por essa maioria da legislação para reposição de cortes em salários e da criação da agora chamada 'contribuição de sustentabilidade' a reformados e pensionistas - a transitória CES será substituída por contribuição que, de forma definitiva, reduzirá reformas e pensões.
As palavras de Mota Soares em 2008, em função do agravamento do empobrecimento dos portugueses desde que o governo de que faz parte subiu ao poder em 2011, converteu-se em discurso que envergonharia um político respeitador da ética, da honestidade e da anti-demagogia no exercício de cargo público; ainda por cima ao nível de obrigações ministeriais em área socialmente tão sensível. Seria motivo para se demitir.
Comprovamos que desde 2011 - já nem recuamos a 2008 - o empobrecimento da população portuguesa, em especial de crianças, tem-se agravado como foi divulgado pelo INE e publicitado pelo 'Público' de 24 de Março de 2014; desta edição extraímos apenas dois parágrafos:
"A taxa de risco de pobreza para as famílias com crianças dependentes subiu para 22,2%, contra os 20,5% de 2011. A maior incidência revelou-se nas famílias monoparentais com um filho a cargo (33,6%) e nas famílias constituídas por dois adultos e três ou mais crianças (40,4%) e por três ou mais adultos com menores (23,7%).
Ainda entre os casos que envolvem menores, o INE indica que as crianças com menos de 18 anos representam a maior fatia, quando se fala da taxa  de risco de pobreza segundo o sexo e o grupo etário (24,4%). Segue-se a população residente em Portugal com idades entre os 18 e 64 anos (18,4%) e os idosos (14,7%). Quando comparados com 2011, estes valores revelam aumentos nos dois primeiros grupos (21,7% e 16,9% respectivamente). Pelo contrário, a taxa de risco de pobreza entre os idosos sofreu uma diminuição em relação aos 14,7% que se verificavam há três anos."
Que dirá Mota Soares e o seu companheiro Diogo Feio a propósito desta desgraça? Vacuidades e sobretudo uma demonstração inequívoca de que medidas anti-sociais são o resultado do "neoliberalismo repressivo' contra o qual se rebelava hoje no jornal i o Prof. Adriano Moreira, um democrata-cristão fiel ao ideário que o CDS há muito deitou para a lixeira.