sábado, 10 de outubro de 2015

E agora José? Carlos Drummond de Andrade


De súbito, lembrei-me deste excelente poema de Carlos Drummond de Andrade, musicado por Paulo Diniz. É a imagem de muitos Josés e Marias, que em Portugal, na Grécia, em Espanha, em Itália e dos refugiados da Síria, Eritreia, Sudão e por esse mundo fora, vivem nas entranhas da pobreza extrema, tiveram as vidas demolidas pela crescente falta de humanismo no mundo - um mundo de fortunas nas mãos bárbaras de reduzida corja, que despreza  e multiplica a fome e o sofrimento nas bocas e nas almas de milhões. 
Sem rumo certo, solitário e sem sorte, lá vai caminhando José. "Para Onde?" Pergunta também o poeta, como todos os seres humanos de sentimentos sólidos formulam idêntica interrogação. 
Bom fim-de-semana!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

José Rodrigues dos Santos, a boca do pivete na RTP


José Rodrigues dos Santos é uma das muitas bocas do pivete exalado por certos pivôs e outra gentalha da RTP 1. É, de facto, um 'pivô pivete', dos vários de voz e frases repugnantes. O tom de voz e o conteúdo das frases nauseiam-me. 
O Zé homofóbico insultou o Prof. Alexandre Quintanilha, Todavia, não se conteve a ficar por aí  e apressou-se a ofender a inteligência de muitos cidadãos,  ao justificar que se tratou de um lapso. O esclarecimento é outro topete. Tome-se em atenção a frase proferida no relato da notícia:
"O novo Parlamento tem muitas caras novas, o deputado mais velho foi eleito ou eleita pelo PS."
Que sentido é que faz o "ou eleita" quando é imperativa a regra da concordância do género entre o sujeito (o deputado) e a forma verbal (foi eleito)? O que foi dito pelo locutor leva a inferir ter sido intencionalmente malévolo na leitura da notícia, a qual, de resto, precedida do título "Novos Deputados", foi transmitida em simultâneo  com a seguinte mensagem no écran:
"Alexandre Quintanilha, independente eleito pelo PS vai ser o deputado mais velho da próxima legislatura"
(Estranho que o 'Público' tenha publicado este disparatado editorial, em defesa de José Rodrigues dos Santos. E pergunto: se se tratasse de alguém homossexual, da redacção ou autore(a) de artigos de opinião do citado jornal, a ser molestado, será que também ficariam incomodados por os críticos do acto homofóbico estarem "a transformar um 'lapso' em caso político nacional"? Caso político nacional? Haja bom senso!),

Dos dislates de Rodrigues dos Santos há vários exemplos em comunicações ao serviço da RTP, televisão pública nacional. Nas eleições gregas de Janeiro de 2015, caracterizava assim os gregos:
"um povo de "paraliticos" habituados a obter licenças de doença fraudulentas para receberem “mais um subsidiozinho”
E ele que, no tempo de José Alberto de Carvalho, dias a fios, e sem comunicação e autorização prévias, decidia não comparecer nas instalações da televisão, local de trabalho, que os contribuintes pagam?  
  

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Classe média do litoral deu a vitória à direita

Sublinho que, embora distante do regozijo desejado, não me sinto angustiado com o desfecho eleitoral. A direita, desta vez baptizada de PAF, venceu com maioria relativa. O desenlace merece-me alguma expectativa. Passámos do romance de percurso e fim previsíveis (maioria absoluta), para uma espécie de história de suspense empolgante (quando é que esta gentalha se vai embora?).
A política tem características simples. Umas vezes ganha a direita, outras, como prefiro, é a esquerda a sair vencedora. Todavia, apercebemo-nos pelos percursos históricos, que nada é definitivo nem sobrevive à implacável lei da vida e das sociedades humanas: tudo tem um princípio, um entremeio e um fim. 
Na política tudo acaba melhor para uns e pior para outros. Sempre foi assim. E, concretamente nas eleições de Domingo, quem começou realmente muito bem foi o BE. Devemos felicitar as jovens e inteligentes mulheres. Ofuscam os homens com naturalidade. Parabéns Catarina, parabéns Mariana, parabéns Marisa e todas as outras que deram uma lição aos presumidos sábios da política, nomeadamente ao Fazenda e ao Louçã - a minha saudação é desinteressada porque não fui votante nem sou militante do 'Bloco'.
O PS espalhou-se e à grande. António Costa andou muito só, apelando ao voto contra uma coligação que nos últimos quatro (4) anos espoliou os portugueses com impostos, cortes de salários, de reformas e pensões, fez disparar o desemprego e disfarçou com estágios e acções de formações a criação de emprego, endividou o País em mais 30 mil milhões de euros, empobreceu a Nação tanto na venda de patrimónios como na servil subserviência ao Sr. Schäuble, Dona Merkel e a Bruxelas.
Com todas estas e outras malfeitorias aos portugueses - desemprego, pobreza, miséria e emigração em massa - o 'povo', essa generalização do 'bom povo português' de que sempre duvidei, no que respeita a seriedade e capacidade intelectuais, consciência dos direitos colectivos de cidadania, espírito de solidariedade com os desvalidos e as populações idosas do interior; com todas essas malfeitorias, dizia, não me surpreende que a classe média decomponível em mescla de estratos de interesseiros, oportunistas,  egocentristas, superficiais ou mesmo ignorantes dos deveres cívicos e destituídos de sentimentos de solidariedade, tenha sido a grande propulsora da vitória da coligação PAF (PAF, PEF, PIF, POF, PUF* * ** *****!).
O quadro adiante exibido, contendo os dados da PAF de distritos do litoral, onde a classe média é, de facto, o extracto social prevalecente, revela que, nesse segmento geográfico, demográfico e social, a dita coligação de Coelho e Portas, registou uma expressão de votos que se traduziu em 82 deputados, precisamente 78,85% da totalidade da representação da PAF+PSD Madeira:

Partido Vencedor Nº. de Deputados
Distrito 
PAF PAF
Aveiro 48,14% 10
Braga 45,64% 10
Coimbra 37,18% 4
Faro 31,47% 3
Leiria 48,42% 6
Lisboa 34,68% 18
Porto 39,59% 17
Setúbal 22,59% 5
Viana do Castelo 45,54% 4
Açores 39,96% 2
Madeira 43,77% 3
Total 82
78,85%


(Nota: nos distritos acima indicados, apenas em Faro e Setúbal o PS saiu vitorioso).

Ficamos expectantes para saber se não se trata de uma vitória Pírrica e se o PS, em desfavor dos portugueses espoliados e que sofrem, não se deixa envolver em cumplicidades no domínio da Segurança Social e de outras políticas do bem público para a nossa vida colectiva.
António Costa está a ser bombardeado, naturalmente. Todavia, o PS cometerá grossa asneira se repescar Seguro, grande amigo de Miguel Relvas, e as belezas ofuscadas ou os brilhantes baços. O Assis e sua paixão pela coligação com o PSD também não é recomendável. Decida quem possa, porque eu também não sou militante. Nem do PS, nem de qualquer outro.

sábado, 3 de outubro de 2015

'Les feuilles mortes' de Yves Montand


Outono. O cenário dos dias torna-se mais triste. O céu está semiescondido por uma nebulosidade alta. O Sol também. Se voltar nos tempos próximos, a visita será provavelmente efémera. As folhas dos choupos à volta da minha casa precipitam-se sem cessar no solo que é o seu abismo. A criancinha pequena liberta-se da mão da mãe e salta com prazer sobre 'as folhas mortas'. Houve os estalidos da folhagem pisada e ri-se de alegria. É a chegada do Outono percebida pela inocência de um petiz a quem qualquer brincadeira faz feliz. 
O que vejo na felicidade da criança trouxe-me à memória a canção 'Les Feuilles Mortes' que adopto como melodia deste plúmbeo Sábado de Outubro. 
Confesso que, na intimidade dos meus sentimentos, desejo que aquele movimento de declínio se transforme, neste fim-de-semana, em metáfora da queda dessa repugnante gente que, neste País, tem tido o prazer sórdido de disseminar a pobreza, a injustiça social e a alienação ao desbarato de bens patrimoniais e enormes fatias da soberania de uma Nação com 9 séculos de História. Revelo ainda que, com alegria semelhante à da criança a calcar as folhas dos choupos, espezinharia com felicidade capitosa essa canalhada atirada por terra. Oxalá tenha a oportunidade de tal regozijo.     
   

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

PaF - Promotores de Albrabices nas Finanças

Os partidos do governo formaram a coligação PAF, acrónimo, dizem eles, de 'Portugal à Frente'. Os acontecimentos divulgados nestes últimos dias provam que, afinal, a sigla tem outro significado.
Basta ler o que Banha, contabilista, e Nogueira Pinto, administrador, ambos amigos de Coelho dos tempos da Tecnoforma, mandaram registar nas contas da Parvalorem, empresa criada para os activos tóxicos do BPN e integrada no núcleo de Empresas Públicas Reclassificadas (EPR); o mesmo é dizer consideradas dentro do perímetro orçamental (OGE).
Se, por respeito à verdade e franqueza, quisermos chamar os bois pelos nomes, então o significado de PAF tem de ser, sem equívocos, Promotores de Aldrabices nas Finanças. E tem uma vantagem sobre o reduto do "Páfistão" imaginado por Paulo Portas. Os efeitos estendem-se por Portugal inteiro; portanto, todo o Continente e Ilhas Adjacentes.
Na superstrutura desta PAF das aldrabices, distinguem-se o PM, o vice-PM e a amanuense Albuquerque. Antes como Secretária de Estado do Tesouro e agora como Ministra das Finanças. De forma artificial e sórdida, é a principal executora da deturpação dos valores do défice e a responsável pelo aumento da dívida pública.
É incrível a propaganda da exemplar governação dos últimos quatro anos, quando, além do resto, se manipulam contas públicas e se fez crescer a dívida do País para níveis que superam em muito os valores com que iniciaram o mandato. 

O desemprego, Portas e o 'Público'

Portas canta 'Avante Camarada'
O desemprego, como calamidade social, é das adversidades sociais que maior mágoa me causa. Abordarei os dados de Agosto-2015 no final do texto.
Por carência de tempo disponível, tive de adiar essa a análise de dados  do desemprego publicados anteontem pelo INE. O adiamento teve, porém, a vantagem de me impelir para a leitura de um comentário sobre a seguinte afirmação de Paulo Portas:
"Relativamente ao mês [anterior], é mais uma décima, o que, com alguma frequência, sucede em Agosto."
No 'Público', Raquel Martins desmistifica a enganadora afirmação de Portas, ao revelar que, em 18 anos, a taxa de desemprego de Agosto em relação a Julho desceu em dez desses anos, se manteve em um ano (2007) e subiu em sete. 
Portas, que é culto, e um supremo jogador da palavra e da demagogia, não enjeita recorrer a falsos argumentos, muito mais, em momento eleitoral, face a dados oficiais desfavoráveis à coligação PSD+CDS do governo. 
Da peça de Raquel Martins, a única parte, provocadora de alguma perplexidade, consiste na dramática inquietação manifestada pela jornalista, quando escreve: 
"Por isso, se o vice-primeiro-ministro queria dizer que as subidas de desemprego em Agosto são mais frequentes do que as as descidas, está errado. Se a ideia era afirmar que o fenómeno não é raro, então está certo."
Frequente e não ser raro são conceitos distintos. Parece-me que a jornalista, para suavizar o desmentido através da realidade demonstrada ao longo do tempo, contrária a Portas, por razão ou razões que só ela conhece, quis almofadar a crueldade dos números adversos à proclamação de Portas. A isto, e é exactamente o que se infere do fecho do comentário, chama-se falta de isenção e ética na comunicação social.
A finalizar,  sublinhamos que os números do INE, provisórios, traduzem a subida da taxa de desemprego para 12,4%, um agravamento de 0,1% em relação ao mês anterior, equivalente a  + 4,8 mil desempregados e a um total de 633.000 desempregados em Agosto de 2015.
Quanto ao emprego, tema que apenas foi tratado por parte ínfima da comunicação social, os números do INE foram ainda mais negativos: menos 0,8% de pessoas empregadas; ou seja, num mês deixaram o mercado de trabalho 34.200 pessoas e o total da população empregada caiu para 4.462,2 pessoas.
A disparidade entre os dois números é enorme. Saíram do mercado de trabalho mais 7 vezes o número de pessoas que ingressaram no desemprego. Tem de haver uma explicação oficial, clara e completa, para este fenómeno. Jamais acreditarei que se tenham aposentado e reformado 29.400 pessoas no espaço de um mês. 
Com este género de sucessos sócio-económicos da legislatura em fim de mandato da PAF, o País, e em especial a sustentabilidade da Segurança Social, ficam ainda mais ameaçados. Sobretudo, se a direita de Coelho e Portas continuar a governar no modelo neoliberal, tecnocrático e desumano em que se inspira.
    

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Parvalorem: contas marteladas a mando do governo

Antes do mais, face a comportamentos tendenciosos favoráveis ao governo de parte da comunicação social em geral e da RTP1 em especial, louvo o trabalho de quem, na Antena 1, teve a coragem de desmistificar mais uma manipulação de um governo que, desde o início do mandato, cultiva a mentira e a deturpação da realidade, em claras acções de ilegitimidade do exercício do poder democrático.
Maria de Luís de Albuquerque, então Secretária de Estado do Tesouro, ordenou que as "estimativas de imparidades" da Parvalorem, em 2012, fossem revistas em baixa. O objectivo, conseguido com a servil colaboração da administração da Parvalorem (empresa que gere os activos tóxicos do ex-BPN), consistiu em reduzi-las em 157 milhões e, consequentemente, melhorar o défice orçamental anual desse montante.
A constituição de imparidades tem por base a Norma Internacional de Contabilidade IAS 36 e o conceito de perdas por imparidade corresponde à seguinte definição:
"Segundo as Normas Internacionais de Contabilidade, a perda por imparidade define-se como a quantia escriturada de um activo que excede a sua quantia recuperável."
Nas boas práticas empresariais, é inaceitável serem encerradas contas anuais sem o parecer prévio favorável de auditores e ROC's. Trata-ser mesmo de mais uma intrujice de M, L, Albuquerque, agora Ministra das Finanças, ao tentar impingir a ideia de que  essas contas não estavam validadas tecnicamente - comunicação no vídeo acima,  corroboradas à distância por Passos Coelho.
Do relato do 'Diário Económico' sobre o caso e a intervenção da Antena 1, é crucial ter em conta o seguinte parágrafo:
A Antena 1 falou com uma das pessoas que refez o relatório e contas de 2012 da Parvalorem. A fonte, que pediu para não ser identificada, descreve o sucedido: "Foi uma martelada que demos nas contas. Eu nem questionei, as ordens vinham de cima para recalcular as imparidades de forma a baixar o valor. Actuamos dentro da margem que tínhamos".
"As ordens vindas de cima" foram o factor decisivo para reduzir as perdas por imparidades e, consequentemente, poupar 157 milhões de euros ao défice do OGE. Desprezou-se o elevado risco de perdas nos activos, antes considerado.
Este é dos acontecimentos que ainda nos chegam ao conhecimento. Temos de admitir a mais do que provável existência de outros desmandos nas contas públicas e seus agregados; como por exemplo os reembolsos de IVA em dívida e com a regularização protelada, uma ajuda fundamental à coligação para empolar as receitas fiscais e  diminuir também artificialmente a previsão do défice de 2015.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Jovem Banca

Uns morreram novos, BPN e BPP, e os contribuintes pagaram a conta das falcatruas - mais de 7.000 milhões na despesa pública. Quem alegadamente cometeu os crimes continua livre de condenação - o Ministério Público insiste na acção de pedir a punição por prisão efectiva dos ex-administradores do BPP João Rendeiro, Fezas Vital e Paulo Guichard.  
No caso do BPN, o único prisioneiro, Oliveira e Costa, passeia-se na Álvares Cabral e no Largo do Rato e as autoridades sentem muito dificuldade em avistá-lo. Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho e outros andam mesmo à solta.
Hoje foi notícia que dois ex-administradores do citado BPN foram ilibados, pelo Tribunal da Supervisão, do pagamento de coimas aplicadas pela CMVM. Chamam-se Coelho Marinho e Armando Pinto - Coelho, Marinho, Pinto, coincidência de nomes na bicharada da política à portuguesa?
O impacto do Novo Banco no défice de 2014 é contabilístico, argumenta a amanuense Albuquerque. E as outras despesas causadoras de défice orçamental, não são igualmente contabilizadas? Ainda ontem ouvi o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, de quem não sou um admirador, formular esta pergunta na TVI com total coerência.
Depois há questão dos juros do Coelho. Têm de esclarecer o homenzinho de que a receita dos juros está correlacionada com o pagamento de juros pelo Fundo de Resolução (PR). Este último é uma Entidade Pública Reclassificada, significando, portanto, tratar-se de uma entidade considerada para efeitos do perímetro orçamental.
Mas o meu vizinho, muito, muito laranja, do prédio ao lado, diz-me: "Olhe que vão ser os bancos a reembolsar o Estado através do FR, assim como a liquidar os juros". "Quantos anos demorarão a pagar?" Pergunto isto e mais: "será que pagarão mesmo a totalidade dos 3,9 mil milhões adiantados pelo Governo?"  - digo para mim próprio: Coitado do governo!, nem tinha nada a ver com o caso. Tudo era controlado e decidido, em exclusivo, pelo Banco de Portugal do Sr. Carlos Costa.
Uma última pergunta ao amigo laranja: que repercussões haverá nos rácios dos bancos financiadores (CGD, BCP, BPI e Montepio Geral, em especial) e na própria estrutura, se, de facto, financiarem a maior parte do capital de que o Novo Banco necessita? Estão auxiliar um concorrente que, na actualidade, pratica taxas de remuneração de depósito mais altas, porque a estratégia do BdP o livra de apreensões quanto ao problema da recapitalização.
Entretanto, a amanuense Albuquerque assegurava que a injecção de dinheiros públicos no Novo Banco não é matéria das atribuições do governo, nem representa qualquer custo para os contribuintes.
A história, entretanto, ganhou outros contornos. Devido aos encargos com o Novo Banco, o Estado já não consegue realizar novo adiantamento este ano ao FMI, estimado, antes, em 2.200 milhões de euros. A falta penalizará os contribuintes com juros mais elevados a pagar à referida instituição.
Para tornar o cenário mais desfavorável, segundo a Casalinho do IGCP, Portugal terá de recorrer ao mercado para se financiar em mais 3.800 milhões de euros.
Conclusão: a dívida total sobe, para além de se manter o endividamento junto do FMI. Não há volta a dar em termos de resultado: os juros de FMI e novos empréstimos são mesmo suportados pelos contribuintes.  
Problemas da 'Jovem Banca' que deprime o sistema financeiro português... e ainda o processo do único sobrevivente jovem, o Novo Banco, dependente de litígios judiciais, de dimensão ainda desconhecida - só a Goldamn Sachs reclama, no mínimo, 800 milhões de euros.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Contas à Coelho

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, é um crânio. Todavia, em matéria de álgebra, geometria do gesto e até de simples aritmética, é mesmo um crânio furado, sem capacidade de filtrar erros, mentiras e mistificações.
Desembaraçado no discurso impensado, a propósito dos 3,9 milhões de euros financiados ao Fundo de Resolução (FR) pelo Governo, transmitiu categoricamente a seguinte mensagem:

"Os 3,9 mil milhões de euros concedidos pelo governo ao FR já renderam 120 milhões de juros e, enquanto não se concretiza a venda do Novo Banco, as contas públicas continuarão a beneficiar de juros."

Falso, digo eu e também a imprensa especializada; neste caso, o "Diário Económico".
É, de facto, grave, que Passos Coelho, economista de formação, ignore que o Fundo de Resolução é uma das entidades que passaram a integrar o núcleo das Entidades Públicas Reclassificadas (EPR). Os juros que liquida ao Tesouro são considerados despesa e receita públicas e, consequentemente, o resultado do pagamento e do recebimento dessa verba é nulo em termos do Orçamento Geral do Estado.
De resto, Miguel Cadilhe, este sim economista a sério e de quem discordo ideologicamente, ratifica a regra da equivalência de juros a despesa e receita públicas, ao afirmar:
"O Estado faz parte do subconjunto das Administrações Públicas e encaixa os juros do empréstimo. Mas como o Fundo de Resolução está nas Administrações Públicas, este efeito anula-se na consolidação do sector."
Contas à Coelho, o homem de tantas idas a Bruxelas e com a amanuense Albuquerque à mão, ainda desconhece as regras da UE para as contas do Estado. 

BMW imita VW no escândalo da emissão de gases poluentes

Se nos dermos à tarefa de recuar aos tempos da Prússia, conclui-se sem esforço que a Alemanha foi desde sempre a 'pátria da assepsia'. 
Nos primórdios da história, os prussianos foram os primeiros a realizar acções de limpeza dos habitantes de territórios vizinhos, acabando em anexações. 
Prosseguiram o processo até à grande higienização executada através holocausto hitleriano, onde se estima que tenham sido exterminados - limpos - mais de 6 milhões de vidas humanas, maioritariamente de judeus.
Terminada a 2.ª Guerra, a Alemanha Ocidental, hoje integrada com a ex-RDA sob influência da URSS, foi bastante auxiliada financeira e humanitariamente, sobretudo através do Plano Marshall. 
Na sequência da doutrina utilitária adoptada, a nova Alemanha, pós-1945 e muito mais nos últimos anos, conseguiu projectar-se como o país das grandes virtudes. Das insígnias mais usadas, destaca-se a teoria de que 'o que é alemão é bom!" , assim como a imagem de país asséptico. De Munique a Bremen, pode lamber-se qualquer rua, banco de jardim ou coisa do género, sem correr o risco de ingerir uma bactéria patogénica. 
Em acto de traição à asséptica pátria, a VW usou um equipamento que serviu para ocultar, criminosamente, a emissão de gases poluentes de 15 milhões de viaturas, produzidas entre 2009 e 2015. Hoje, através 'Diário Económico' e a revista alemã "The Local", ficamos a saber que também a BMW comete o mesmo tipo de crime ambiental, ao enviar para o mercado carros de motor diesel, sobretudo o modelo X3, que emitem um volume de gases poluentes para a atmosfera equivalente a 11 vezes acima dos limites da UE - resultado: as cotações das acções em bolsa da marca já desceram   

Qual a posição da UE?  
Estamos a aguardar. As minhas expectativas de que a CE ou o Conselho venham a penalizar a Alemanha são nulas. Tanto como puniu o Sr. Juncker pelos desmandos de política fiscal que praticou como PM do Luxemburgo, ou a construção do muro húngaro pelo neo-fascista Órban.

Qual a posição do Governo Português?
O problema nem é a BMW, mas sim a VW. Temos de permanecer com comportamento de silêncio eucarístico. O ministro Moreira, especialista em matérias de ambiente, tem, pelo menos, de obedecer às ordens de Passos Coelho. Até Cavaco, sempre perspicaz e assertivo como ninguém, já avisou os jovens governantes que afrontar os alemães sobre este assunto, seria afrontar, naturalmente, a VW  e a Auto-Europa, que, em face do sucedido, já terá eventuais prejuízos da repercussão mundial do caso. Poderia ficar mais rapidamente com a sobrevivência ameaçada. Chama-se a tudo isto factores de 'soberania condicionada'. É isso, somos um povo soberano condicionado.