quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Comentários execráveis

O último mês da vida de José Sócrates, muito aparte da luta político-partidária, foi dramático. Pai e o único irmão que lhe restava faleceram. O sofrimento do ex-primeiro-ministro, que quase sempre contestei, merece-me o maior respeito. A discordância política, a não ser que se trate um facínora do tipo de Hitler, de Salazar, de Pinochet ou de outro do género, não deve ser impregnada do ódio expresso nestes dois comentários execráveis, no jornal "i":
Vítor Guerra:
"Falta o tiro no porta-aviões..."(sic)
Fenix Fenixx:
"Já ouviram dizer que tudo se paga neste mundo...pois então!”(sic)
Não me venham com o argumento de serem casos isolados. Já li outros semelhantes. E não se justifiquem também com a tese de se tratarem de loucos. São sim gente ignóbil, incapaz de aceitar a vivência democrática e de prescindir do espírito rancoroso com que se conduz na vida. Infelizmente, a sociedade actual contém cada vez mais estes espécimes espúrios e aberrantes.
ADENDA: Entretanto, o Jornal "i" decidiu remover os comentários denunciados. Louvável.

Cascais sem comboios, país sem rumo

Agora defensor de investimentos na produção de bens transaccionáveis, Cavaco Silva foi o PM pioneiro na prioridade a infra-estruturas rodoviárias, em detrimento da ferrovia.
O PS, por irressitível mimetismo das políticas ‘laranja’, teve em Guterres e Sócrates - com Barroso e Santana pelo meio - outros dois intérpretes das grandes obras de estradas, viadutos e tuneis, com desprezo pela via férrea.
Portanto, e porque nunca cuidaram do problema devidamente, até em termos de transportes ficámos às ordens da troika e condicionados pelo memorando que PS, PSD e CDS subscreveram com FMI-BCE-CE.
Ontem, a TV anunciava o fecho das oficinas da CP na Figueira da Foz, admitindo-se haver relação com o encerramento da Linha do Oeste.
Hoje, sabe-se que a Linha de Cascais que está em risco de fechar . Ao que se percebe, pela incúria dos diversos governos pelo caminho-de-ferro, à excepção do anedótico 'dossier' do TGV. O funcionamento de uma das principais linhas suburbanas do País está ameaçado. A ligação em 2010, sublinhe-se, serviu cerca de 30 milhões de pessoas.
A falta de lucidez - ou a prevalência de outros interesses? - dos gabinetes governativos desde há 30 anos é uma das marcas do vazio de estratégias; mas também da noção da falta de dimensão das políticas. Se já foi grave reduzir a escombros muitas estações de caminho-de-ferro do país, mais grave ainda, por trazer problemas de maior complexidade, é o risco de atingir com a paralização uma linha suburbana vital para a região de Lisboa. De resto, é também criminoso.
O 'i' cita ainda que, ao contrário do que sucede com a Linha de Sintra, o troço de Cascais corre o risco de não ser facilmente privatizável, porque requer um investimeno de 180 milhões em automotoras de bi-tensão. Para muitos, infelizmente, as preocupações centram-se, pois, nos interesses dos investidores e não nos serviços à população e até na defesa da actividade turística da Costa do Sol.
Trata-se de uma linha histórica, cujo primeiro troço, entre Cascais e Pedrouços, foi inaugurado em 1889, mas nem a história nem a efectiva necessidade de servir três dezenas de milhões de pessoas anualmente têm servido para mais do que uma propositada negligência.
Por último, é de realçar que o fecho da Sorefame, aqui bem documentado, também complica a compra das locomotivas em termos de endividamento externo. Neste momento, o potencial do valor acrescentado nacional é praticamente nulo. Nem os vidros para as carruagens se produzem em Portugal, por encerramento do fabrico na ex-Covina e actual Saint-Gobain Glass. São resultados da grande obra dos partidos do governo central e do apêndice CDS, na destruição do tecido económico.
(Nota: Quem tiver interesse em conhecer a história do uso das automotoras em Portugal, assim como da actividade Sorefame, sugiro a consulta deste site)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Banalização da Violência




Na Noruega, foram retirados do mercado videojogos violentos, de que o pavoroso assassino Breivik era utilizador confesso. O "World of Warcraft" e o "Call of Duty" são dois dos jogos retirados. A medida, é explicado, foi tomada em respeito pelas vítimas do massacre.
Claro que, a avaliar por comentários da notícia, proliferam em Portugal opiniões contrárias à decisão em causa. Negam qualquer relação dos videojogos com o comportamento do assassino. Haverá outros a admitir o inverso. Enfim, o assunto é polémico, mas não deixa de ser verdade que o mundo actual é marcado por fenómenos crescentes de violência: a 'violência juvenil", em que se integra o "bullying" por exemplo, e a "banalização da violência", esta última referida assim por Washington Araújo em 2005:

“O gradual processo de insensibilização decorrente da banalização da violência é preocupante. Como diz Cristopher Lasch, os meios de comunicação em massa facilitam “a aceitação do inaceitável”. Eles terminam por amortecer o impacto emocional dos acontecimentos, neutralizando a crítica e os comentários. A violência ganha cada vez mais ares de normalidade e naturalidade, além de estar alcançando uma crescente “aceitabilidade” social. A inevitabilidade tem gerado atitudes do tipo: “deixa rolar”; “não tem jeito mesmo”; “super normal”; “deixa assim para ver como é que fica”. Dessa forma, podemos constatar que a saturação de programas violentos provoca perda de sensibilidade, “brutalizando” as pessoas a longo prazo. A psicanalista Raquel Soiler alerta que as crianças podem estar sofrendo de “televisiosis”. O principal distúrbio desse mal seria uma síndrome de neurose, cujos sintomas são a mania de perseguição, a fobia e a desordem mental. Cada vez mais é intransferível a responsabilidade dos pais sobre o que seus filhos assistem diariamente na TV.”

A comunidade científica ligada à saúde mental, como se vê, já debate os efeitos das televisões, videojogos e tecnologias de comunicação no comportamento social dos humanos e na ampliação do fenómeno de 'banalização da violência'. Poderá, pois, ser normal que muitos utilizadores de videojogos violentos neguem efeitos preversos; porém, a verdade autêntica é que o contributo desses jogos e de certos usos de tecnologias é nocivo em relação à formação e civilidade da personalidade humana. Tome-se o exemplo do jovem de 17 anos que faleceu a ‘tourear’ carros na estrada, próximo de Proença-a-Nova. A motivação foi de exibicionismo com o recurso (tecnológico) à Internet: depositar um filme da aventura no 'Youtube'.


BPN: Dúvidas dos deputados do PSD e CDS

 
Afinal, parece que as condições que levaram o governo a preferir o BIC na venda do BPN também merecem dúvidas aos deputados dos partidos da coligação, PSD e CDS. Os dois grupos parlamentares decidiram, em conjunto, ouvir explicações sobre o negócio da Secretária de Estado do Tesouro, Maria Luísa Albuquerque.
Resta agora saber se os referidos grupos de deputados estão mesmo interessados em esclarecer seriamente dúvidas ou se, porventura, estão a ensaiar uma espécie de fogo-fátuo para iludir a opinião pública.
Está, pois, na consciência desses parlamentares quererem ou não abordar o problema com seriedade, competindo à oposição, acima de tudo ao PS, actuar activamente no apuramento da verdade. Não apenas em relação à venda, mas igualmente no julgamento daquilo que Maria de Belém designou por "todos os actos criminosos que foram cometidos".
O esclarecimento desta transacção a favor do BIC, de Amorim, Isabel dos Santos e outros membros cleptómanos da nomenclatura do poder angolano, sob a batuta do ignominioso Mira 'Imoral', o esclarecimento, dizíamos, é devido, sobretudo, aos contribuintes portugueses; porém, as alegações do histórico Montepio Geral, cujo presidente reclama nem ter sido chamado à mesa das negociações, e ainda a exigência do grupo NEI obrigam também a que o governo deixe bem claro que, para os restantes candidatos, a preferência dada ao BIC se justifica à luz do interesse público. Pelos vistos, há fortes razões para duvidar.
(Volto a insistir: PS, PSD e CDS, subscritores do memorando com a troika, ao aceitar que, no ponto 2.10, ficasse explícito que a venda do BPN não estava condicionada por um preço mínimo, cometeram um acto de enorme incompetência; essa condição apenas serve os interesses dos eventuais compradores, limitando seriamente os objectivos de receita de quem vende, ou seja, do Estado Português) Tudo isto é fruto dos políticos que temos…    

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Desengravatados ficam para o fim

Tenho dúvidas que isto e isto, que são a mesma novidade das datas de pagamento de salários por ministério, entre 20 e 23 de cada mês, sejam notícia de 1.ª página. Bastaria, a meu ver, que cada ministério informasse internamente os funcionários das datas de pagamento. Se houver reacções negativas, tanto faz ter sido anunciado na comunicação social como informado no local de trabalho.
Acrescente-se que, neste tipo de situações, o polémico e arbitrário calendário dá origem a naturais especulações:
Por que razão Finanças, Defesa, Solidariedade e Segurança Social e Negócios Estrangeiros hão-de ser os primeiros e a Educação e Ciência em conjunto com a Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território os últimos?
Pensei em deixar a pergunta no ar, mas aprofundando a reflexão chego a uma explicação: na Educação e Ciência, área constituída maioritariamente por professores, estes não usam normalmente gravata; tenho vários amigos professores e não estou a ver uma ou um que seja a usar diariamente o incómodo acessório. Por sua vez, no extenso ministério de Assunção Cristas, a gravata foi abolida. Juntando os silogismos desta lógica, conclui-se: O GOVERNO DECIDIU QUE OS DESENGRAVATADOS FICAM PARA O FIM.
Tá a ver Dr.ª. Assunção Cristas como o governo em que participa é ingrato. Quem poupa na energia e nas emissões de CO2, “soutoura”, é pago mais tarde. - E esta hem! - diria o saudoso Fernando Pessa.

A RTP e a perturbação do mercado






A palavra 'mercado' ou o seu plural 'mercados' entraram na linguagem quotidiana. Quase sempre em explicações imperceptíveis e livres de personificação, para referir flutuações financeiras: as taxas de juro aplicadas às dívidas soberanas, as compras dessas dívidas, as cotações de bolsa e outros mega-episódios do mundo comandado por especuladores. São sempre os mercados a ditar guerras, movidos por gente sem rosto.
No caso da privatização da RTP, também o primeiro-ministro cede aos mercados e adia a privatização da estação de TV pública. Não porque entenda que o Estado deva manter em seu poder um meio de comunicação isento e suficientemente plural, quer em termos programáticos, quer em termos de divulgação externa da vida do País e a difusão da cultura e da língua portuguesas, em especial junto das comunidades de emigrantes e de países da CPLP. Tudo isto, acentue-se, é serviço de interesse nacional e não negócio.
A motivação do adiamento 'sine die' da privatização da RTP é, pois, ditada fundamental e exclusivamente pela fuga à guerra que se despoletaria no mercado televisivo, hoje em recessão, entre o Dr. Balsemão (Impresa) e Nuno Vasconcelos (Ongoing); da qual a TVI certamente também não se excluiria.
Afinal, as forças livres do mercado, essa grande abstracção neoliberal, também podem ser artificialmente mitigadas ou mesmo eliminadas. Basta que estejam em causa os interesses de poderosos e o Estado neoliberal vale-lhes de imediato.


domingo, 31 de julho de 2011

E os responsáveis pelo crime BPN?




O BIC, banco de capitais maioritariamente angolanos, liderado por este homem, comprou o BPN por 40 milhões de euros. Todavia, segundo o noticiado, os adquirentes beneficiarão ainda do pagamento pelo Estado Português de indemnizações a perto de 800 trabalhadores, por cessação dos contratos de trabalho.
A receita da venda tinha de ser necessariamente mínima, assim como eram incontornáveis os encargos do Estado com a dispensa de pessoal. Ambas as condições estavam estabelecidas nos pontos 2.10 e 2.11 do memorando da troika, de 17 de Maio de 2011.
Sócrates, diz também a notícia, aplicou 2,4 mil milhões de euros, numa operação desastrosa e que, bem-feitas as contas, ainda se ampliará. Politicamente, já pagou pelo erro.
Porém, em termos de responsabilidades pelo desastre BPN, não fique o pessoal 'laranja' a distrair-nos com todas as culpas sobre o anterior primeiro-ministro. Sim, é imperioso haver justiça, actuando também em relação a quem cometeu crimes graves na criação e gestão do banco agora alienado. Por acaso, um grupo de militantes e ex-governantes do PSD, de que lembro Oliveira e Costa, Dias Loureiro e Arlindo Carvalho. Ainda por acaso, sim só por acaso, todos integraram equipas governativas de Cavaco Silva que, de resto e ao que consta em companhia da filha, foi um accionista esporádico, e beneficiário de relevante ganho financeiro, deste malfadado BPN; o qual, parece, nasceu para deleite de mãos que nos esgaçam.
A Sr.ª Ministra da Justiça, que é pessoa desenvolta, se estiver para aí virada, diligenciará junto do 'sistema judicial' o rápido avanço do processo em tribunal contra os responsáveis pelo crime BPN. A Comissão de Inquérito Parlamentar fez o seu trabalhinho à vista de todo o País e quanto a tribunais nada sucedeu que se veja. Porquê? Por serem gente grada do PSD? Só faltava essa.

Manuel 'Vira-Casacas' Cabral


Não me enganei. Mudei deliberadamente o apelido de 'Villaverde' para 'Vira-Casacas'. É mais apropriado. Bastará ler e comparar esta entrevista com o 'curriculum' político do homem. De militante clandestino do PCP, passando por apoiante do Maio de 68, chegou a ferveroso admirador do neoliberalismo de Passos Coelho. 
Há muitos outros do género, mas este é um dos mais curiosos fenómenos de metamorfose progressiva da mente humana. Quando se aproximar dos 80, ingressará nas fileiras do PNR e exclamará com orgulho: 'Percorri o espectro político-ideológico de um extremo ao outro'! É a minha previsão que, como tantas outras, se inspira na vida passada e presente do professor Cabral.

Há endividados e...endividados




Como os indivíduos e as famílias, os países endividados não são tratados com critérios de equidade. Ser um grande ou um pequeno país devedor, fortemente devedor, não é exactamente a mesma coisa. Obama já o havia advertido "Nós (EUA) não somos a Grécia nem Portugal".
A despeito de remanescentes divergências, segundo se lê aqui, aqui e aqui ou mesmo no prestigiado New York Times, Democratas e Republicanos estão muito próximos do acordo com vista a permitir aos EUA o aumento do limite da dívida em 3 biliões (milhões de milhões). Quem anunciou a alta probabilidade de fechar o acordo foi o líder o senador e líder republicano, Mitch McConnell. Pelo que se percebe, Obama teve de deixar cair a sua proposta de aumento de impostos (receita) e de encargos da segurança social (despesa).
O consulado de Clinton, do ponto de vista das finanças públicas, deixou um avultado superavit que George W. Bush consumiu avidamente: descida de impostos para os mais ricos e as duas guerras, Iraque e Afeganistão, geradoras de lucrativos negócios empresariais. Dick Cheney, Donald Rumsfeld (grande amigo de Paulo Portas) e outros empresários de meios de beligerância que o digam. De financeiramente excedentário, em pouco tempo o saldo norte-americano passou a registar défices em crescendo. Obama teve também quota-parte de responsabilidade ao reforçar o investimento no conflito afegão.
A crise de 2008, em resultado da falta de regulação e da subsequente especulação do sistema financeiro dos EUA, afectaram a economia norte-americana e contagiaram outras regiões do mundo, em particular a Europa e a África de que se fala apenas episodicamente.
No rescaldo de tudo isto, e também fruto de políticas decalcadas no modelo financeiro dos EUA, as bolhas imobiliárias e outras eclodiram em massa e as dívidas soberanas dispararam. As agências de rating, com o prémio de diamante do 'triple A' a Lehman Brothers, AIG, Goldman Sachs e a produtos tóxicos, subitamente assestaram baterias na direcção de pequenos espaços económicos: Grécia e Portugal passaram a lixo, devido às dimensões das dívidas e ao fraco crescimento. Os juros disparam e a espiral da dívida acelerou.

sábado, 30 de julho de 2011

Dr. Soares, um trunfo do PSD

Mário Soares será convidado de luxo da reentrée do PSD, como orador da Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide; isto deixa-me, de facto, muitas dúvidas sobre a motivação comportamental do veterano socialista.
Alguns podem considerar como acto próprio de senescência; mas, acima de tudo, prevalece a verdade de ser indesculpável que Mário Soares, na qualidade de fundador do PS, se preste ao papel de branqueamento da severa política ultraliberal do governo em exercício, chefiado por Pedro Passos Coelho.
Digam o que disserem Mário Soares e seu séquito de incondicionais seguidores e qualquer que seja o conteúdo da comunicação do ex-Presidente da República, a participação no evento do PSD é sórdida e será uma espécie de oferta às hostes laranjas, em bandeja de ouro, de importante trunfo de propaganda. Ainda por cima numa altura em que o PS se tenta recompor dos efeitos do "eucalipto" Sócrates e a voz da rua, em crescendo, começa a manifestar descontentamento face às duras medidas de injustiça social do actual governo.
O Dr. Soares será, creio, alvo de hipocrisia e chacota. A juventude laranja ouvi-lo-á com escondida ironia e evidente desprezo. Quem estará lá para ser ouvido com extrema atenção será Mariano Rajoy e os comissários políticos do PSD, entre os quais o catedrático Miguel Relvas. E, se aparecer o Teixeira Pinto, o elenco converter-se-á em autêntica constelação de estrelas, que diluirá facilmente, para o auditório, a participação de Mário Soares.
A vida democrática tem regras de tolerância e convivência, mas também de combate político intransigente e ditado por princípios. E o que este governo menos mereceria é que o Dr. Soares se transformasse em trunfo do PSD. Sobretudo este PSD ultraliberal e disfarçado sob a designação 'social-democrata'. Pensar deste modo não é sectarismo, mas sim ser ideológica e intelectualmente coerente.