quarta-feira, 14 de maio de 2014

A China da nossa salvação

O presidente Cavaco Silva, a fadista Katia Guerreiro, o ministro da economia Pires de Lima e uma delegação numerosa de outras personalidades têm andado pela China. 
Os portugueses devem sentir-se orgulhosos desta espécie de redenção, libertadora das nossas almas e, acima de tudo, das penitências que nos arredem dos martírios da elevadíssima dívida externa, pública e privada, do desemprego, da emigração numerosa e forçada e ainda dos salários de miséria. Sim, porque os chineses, no todo, são mais de 1,3 mil milhões de cidadãos e comandados pelo regime do PC da China. Distribuem-se- por enormes massas populares de penosa indigência, uma insípida classe média face ao todo e uma restrita bolsa de multimilionários; é neste último grupo que, graças a Belém e a São Bento, seremos integrados como privilegiados.
Ouçamos o ministro Pires:

As empresas de transportes de Lisboa e Porto, assim como a Empresa Geral de Fomento, existem. Não se trata, portanto, de unidades empresariais de raiz, com a integração de população desempregada. Pelo contrário, sob o estafado binómio 'competitividade+produtividade', tantas vezes usado para dissimular o objectivo de maximização dos lucros, os chineses, se investidores adquirentes, auxiliados por Catrogas, Mexias e outros do género, encarregar-se-ão de reduzir o quadro de trabalhadores e os serviços prestados à população.
A lógica do investimento chinês é esta: aplicações  de baixo risco de capital, em investimentos estruturais existentes e geradoras da redução do rendimento nacional dos países onde investem. Temos o sublime exemplo da participação da 'Three Gorges' com 21,35% de capital da EDP. As dívidas da 'Eléctrica Luso-Chinesa' ascendem a 17.451 milhões de euros, o que levou a Moody's a manter a perspectiva negativa, para efeitos de 'rating'. Sempre são mais do que 10,5% do PIB de 2013 que  se fixou em 165.666 milhões de euros.

Segundo o 'Público', o iluminado Pires diz que, no final de 2014, as exportações nacionais para a China atingirão 1.000 milhões de euros; uma ninharia que não explica se corresponde a valores FOB, CIF ou mistos em termos das duas variáveis; mais ninharia se torna caso se tome em consideração a dedução do montante de dividendos a pagar à 'Three Gorges'.
Para animar a festa, também é anunciado que se visa aumentar o fluxo de turistas chineses para Portugal e a hipótese de vir a estabelecer-se uma ligação aérea directa entre Lisboa, Pequim e Xangai. É positivo, mas falta saber se este empreendimento não se associará à venda da TAP ao chineses - Cavaco e Pires estavam eufóricos com a linha aérea.
Serei desconfiado? Talvez. Mas se falhar, pago um almoço em 'Restaurante Chinês', perto de minha casa, com 'Arroz Pagode', ´Chap Suey de Porco', 'Caril de Lulas', 'Tau-fu à Saguo' e um 'Chá Verde', já que o Pires é "lagarto".