sexta-feira, 16 de maio de 2014

D. Gertrudes: acabou-se o café e o croissant!

O homem é doente crónico. Cardíaco. No hospital público, as consultas externas têm o tempo de espera de um ano. A adensar esta demora, as ‘análises clínicas’ e ‘os exames complementares de diagnóstico’ estão sujeitos a maiores delongas, uma vez que dependem de prescrição médica.
Infeliz, o homem sofreu um acidente de ordem muscular. Recorreu aos serviços de emergência de hospital público. A jovem médica de serviço recomendou-lhe consultar um médico de reumatologia. Tempo de espera no hospital público? 10 Meses!
Trata-se de demonstrações da incapacidade real do SNS, no caso de carácter individual, mas que poderão multiplicar-se por milhares de doentes de Norte a Sul do País.
A quem não tem posses para recorrer à prestação privada de cuidados de saúde o que sucede? Uns sofrem, outros sofrem e morrem. São estes os desfechos naturais da política de saúde do ministro Paulo Macedo e dos gabinetes e equipas de amigos da reforma hospitalar.
Bancário, idolatrado pelos cortes de despesa, até por gente que se reclama de esquerda, é um governante que se distingue pelos sucessos orçamentais a todo o custo; ainda que os mesmos signifiquem o persistente desmoronamento do SNS e a falta de assistência médica a quem dela necessita.
Tecnocrata da seita do BCP, “gestor de aviário” de políticas de saúde, pretere naturalmente estas, a favor do controlo de todo o pessoal do Ministério que dirige – salvaguarde-se desde já que a cumplicidade entre laboratórios e médicos é histórica, através de ofertas e participações em congressos. Todavia, quem conheça por dentro o sistema sabe que entretanto ficou esbatida.
Com a explosão dos ‘genéricos’, nem sempre controlados devidamente pelo Infarmed, e a quebra de margens de laboratórios, a referida cumplicidade reduziu-se, efectivamente, bastante. E as medidas de Macedo de nada impedem que os médicos, ao exercer também actividade no sector privado, sejam ‘compensados’ fora do âmbito dos serviços públicos.
O que é digno de ignóbil autoritarismo – e não sei se inconstitucional – é proibir que os funcionários do Ministério da Saúde falem aos órgãos da comunicação social sem autorização prévia, segundo preceitos do novo Código de Ética. Como se trata de um código fascistóide, incorpora repugnantes deliberações, como por exemplo:
O homem, cardíaco crónico e vítima de acidente muscular, conhecedor das implicações para todos os trabalhadores do MS da nova legislação, esteve no Centro de Saúde a solicitar umas receitas da médica de família, e disse com mágoa à administrativa:
“D. Gertrudes, se nos encontrarmos na pastelaria, as ofertas de café e do croissant acabaram-se! Como mandará a Lei, vou fazê-las à Secretaria Geral do Ministério de Saúde!