segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Os ‘meet’ dos doentes no Auchan

A empresa, segundo divulgado, chama-se Saúde 3.0 Lda. e tem empresas próximas; uma vantagem assinalável. O mal maior de qualquer firma ou sociedade empresarial é ser solitária. Atente-se na denominação de algumas das ‘empresas próximas’ (sic): Farmanimal ou Clínica Veterinária da Lourinhã. O grupo Saúde 3.0 disponibiliza, de facto, uma oferta muito diversificada de cuidados de saúde. Tanto trata do diabético, como do periquito do diabético; do cardíaco, como do seu felino de estimação; e por aí adiante.
A visão estratégica do Auchan, ao reservar espaços clínicos, de apenas um enfermeiro, assenta na obsessão da capacidade da abrangência. O cliente vai ao supermercado, por enquanto apenas o ‘Auchan’ de Almada, solicita a avaliação dos níveis de tensão arterial, ou se sofre de taquicardias ou bradicardias, ou de dores discais ou no ilíaco e outros sintomas; dos quais não se excluem muitos mais, incluindo a psoríase.
 O sr. enfermeiro do ‘Auchan’, após contactar o médico remoto, diz ao doente:
- O que a senhora, ou senhor, tem é a tensão alta, ou arritmias, ou sintomas de dores ósseas… enfim, recomendo-lhe que vá ao Hospital Garcia de Orta e está aqui a conta desta consulta, são 30 euros. -
- Está bem sr. enfermeiro, vou aqui ao lado à loja comprar arroz, massas, detergentes, papel higiénico e mais umas coisitas que deixarei em casa e de seguida vou ao Garcia de Orta. -
A doença, jamais a saúde, é de facto um grande negócio e os estrategas do Sr. Américo das cortiças procuram, é óbvio, os benefícios do negócio. A doença é um meio óptimo para fazer dinheiro. Que importa o doente ou a falta de saúde, se não render tal proveito.
Este é lamentavelmente o estado do serviço de saúde em Portugal. A própria Associação Portuguesa de Hospitalização Privada reclama contra este tipo de pseudo prestação de cuidados de saúde. É evidente que se trata de interesseira visão de concorrência, mas, por obrigações éticas a que está vinculada, estou certo de que também a vil actividade de tal “serviço de saúde’ descredibiliza todas as entidades privadas que, apesar de tudo, mantêm acções institucionalizadas, ainda que centradas na majoração do lucro. E, no fim, de contas, como imagino convictamente, muitos dos doentes acabarão encaminhados para o depauperado SNS.
À estratégia do Auchan faltará apenas lançar acções promocionais através dos agora famosos ‘meet’. Convoca os doentes através das redes sociais e anuncia: dia X, a partir das 14:30, organizaremos o ‘meet’ dos diabéticos, com o preço especial de 25,00 euros por consulta. Idem para o dia Y, o ‘meet’ dos hipertensos.
De doença em doença, lá vai o grupo Auchan juntar os lucros da clínica, aos do azeite, do óleo alimentar, do papel higiénico e da esfregona com que deveríamos excretar a face de quem autoriza esta abjecta ofensa a um direito fundamental dos portugueses; o direito à saúde e à ética na assistência à doença, segundo regras humanas e deontológicas imperativas.