quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Oligarcas do regime

oligarquiaO regime democrático português, no decorrer do tempo e impelido pela generosidade do eleitorado, acabou capturado e enredado por essa teia de políticos, agrupados nos chamados partidos do ‘arco do poder’.
Uma democracia formal, entendida como sistema de eleição do governo pelo povo, veja-se a Rússia, a Venezuela e uma diversidade de outros países africanos e orientais, pode sobreviver de aparências e fazer revigorar uma sociedade despojada de liberdades elementares, entre as quais a igualdade de oportunidades no acesso ao emprego, para a generalidade dos cidadãos.
Chegámos à hora dessa espécie de ‘jovens turcos’ que, com o mesmo ímpeto dos antepassados otomanos, optam pelo carreirismo político centrado em ambições pessoais. Alcandorados em cabotina indiferença, alheiam-se criminosamente dos interesses estratégicos do País, vendendo a EDP, a REN, a TAP, ao mesmo tempo que lançam na pobreza e em profundos sofrimentos centenas de milhares de desempregados – segundo a Eurostat, Portugal em Junho de 2012 tinha uma taxa desemprego de 15,4%, ou seja, + 0,5% do valor calculado pelo INE para o 1.º trimestre.
O regime político nacional - a beataria bem pode andar por aí em lamúrias e preces a rogar pragas ou a redenção dos bispos Januário Torgal Ferreira e Jorge Ortiga - lenta mas vorazmente, está, de facto, submetido a grave processo degenerativo; processo esse em que, sustentados pelos tais “jovens turcos”, promovem a multiplicação de oligarcas do género do rubicundo Catroga e família, na EDP há pouco privada, ou de Pedro Rebelo de Sousa que atinge o pleno ao ser administrador em simultâneo da CGD, pública, e da Cimpor privada, com o beneplácito do Ministério das Finanças. Ah Gaspar para que te quero!
A propósito da época oligárquica, é oportuno lembrar o relatório da CMVM, onde no topo da página 7 se pode ler:
 “Identificaram-se 17 administradores que acumulavam lugares de administração em 30 ou mais empresas, havendo um caso de um administrador que pertencia ao órgão de administração de 73 empresas.”

domingo, 29 de julho de 2012

Seguro, o cacique feliz

seguroSeguro pertence ao conjunto de políticos forjados nas ‘jotas’, no caso a JS. Os padrões e capacidades em geral dessa gente, em aspectos de ordem intelectual, cultural e de consciência de homens de Estado, estão a léguas de corresponder aos desafios da governação do Portugal actual. Além do mais, atravessamos tempos de crise aguda por efeito de acumulados erros internos (mais de 30 anos!), dos desmandos do sistema financeiro internacional e ainda da obstinada recusa das economias desenvolvidas, Alemanha à cabeça, para em definitivo extinguirem a crise ou o euro – quanto tempo e dinheiro, fora o descalabro do desemprego e de outras chagas sociais, já custou a milhões de europeus a persistência da crise? Com certeza, não foi a todos. Há sempre uns a quem a UE, a Zona Euro e por tabela o Estado Português facilita uma doce vida.
Seguro, seguramente, como Passos e Gaspar, é o chamado político instantâneo, estilo ‘pudim Alsa’ ou ‘penso rápido’, sem visão estratégica – propositadamente não cito Paulo Portas, porque esse, tenho de reconhecer, tem outra envergadura e eficácia na preservação da imagem para descrever sucessivas curvetas, arregimentando um conjunto de manipuláveis marionetas. Claro que não actua em consonância com o interesse nacional, entenda-se.
Seguro, a meu ver em acto de profunda hipocrisia, declarou-se um líder “muito feliz”, a propósito de António Costa reconhecer publicamente ter condições para, se necessário, candidatar-se a secretário-geral do Partido Socialista. Seguro está ciente de que, além de perseverante cacique, a correr e manipular potenciais eleitores do País rural e urbano, nada tem de comparável com as qualidades de Costa para pegar no leme, nas tenebrosas águas em que navegamos e às quais a política de Passos e da ‘troika’ mais turbulência acrescentará.
António José Seguro, sem nunca lograr ter transcendido a mentalidade provinciana, relembre-se, é um cacique em peregrinação pelas secções do PS por esse País fora. Ora se bate com anho e arroz no forno em Baião, ora petisca sardinha assada em Portimão. E assim vai captando votos.

sábado, 28 de julho de 2012

Síria, o protectorado de Putin onde o Ocidente não toca

síriaLembremos a Líbia, bem como a bárbara execução do ditador Kadhafi que nenhuma democracia legítima do ponto de vista ético e da superioridade no exercício da justiça. Atacada a ferro e fogo sob as ordens da França de Sarkozy, associadas  à conivência activa de Berlusconi e Obama, os apregoados ideais de defesa das liberdades do povo líbio – ou do petróleo? – ficaram desmistificados. Tudo se resumiu a actos de cruel cinismo.
Da parte dos principais líderes da UE e dos EUA, é chocante a passividade perante os acontecimentos na Síria; onde, desde há um ano, o regime de Bashar al-Assad dizima milhares de vidas - crianças, mulheres e idosos, incluídos - numa das carnificinas mais sangrentas e brutais da actualidade. O Ocidente, nas declarações inconsequentes de Hillary Clinton, nas críticas vagas da UE e nesse vai-e-vem patético de Kofi Annan a Damasco, deixa claro não querer tocar no protectorado de Vladimir Putin.
Verdadeiramente, em termos de petróleo, o interesse da Rússia é nulo, uma vez que dispõe de vastos e diversificados recursos energéticos e, para além disso, a Síria não tem a expressão da Líbia.
As bases em solo sírio integram-se nos desígnios geoestratégicos de Putin homem que é essa herança preciosa do alcoólico Ieltsin, no bailado da “democracia rotativa” dançado com Medvedev. Vale-se de expressão artística e de estética política com talento superior à arte corporal dos bailarinos do Teatro Bolshoi.
Da guerra fria, o mundo evoluiu para os actuais tempos teatrais do absurdo; onde, uns líderes falam sem sentido e outros são impunes a fomentar e manter jogos de guerra.     ‎    

  

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Mais saúde ou menos dinheiro?

O ‘Público’ anuncia, em título, a realização de menos meio milhão de consultas em Centros de Saúde (CS) durante os primeiros cinco meses de 2012, se comparado com o período homólogo de 2011.
O quadro resumo publicado pela ACSS – Administração Central do Sistema de Saúde revela acréscimos e decréscimos de actividade, a seguir discriminados:
Quadro resumo da actividade assistencial
Maio
2011 2012 var. var. %
Consultas médicas
Hospitalares 4.797.259 4.904.323 107.064 2,23%
Primeiras consultas 1.384.597 1.433.498 48.901 3,53%
Consultas subsequentes 3.412.932 3.470.825 57.893 1,70%
Consultas de cuidados primários 13.164.478 12.905.643 -258.835 -1,97%
Consultas médicas presenciais 10.010.568 9.448.513 -562.055 -5,61%
Consultas médicas não presenciais 3.068.388 3.366.483 298.095 9,72%
Consultas médicas domiciliárias 85.522 90.647 5.125 5,99%
Serviço de Atendimento Permanente 1.469.347 1.069.489 -399.858 -27,21%
Urgências
Hospitalares 2.801.038 2.517.574 -283.464 -10,12%
Internamentos
Doentes saídos 357.854 360.008 2.154 0,60%
Intervenções cirúrgicas
Intervenções cirúrgicas programadas 228.543 228.829 286 0,13%
Intervenções cirúrgicas convencionais 110.542 107.772 -2.770 -2,51%
Intervenções cirúrgicas ambulatório 118.001 121.057 3.056 2,59%
Intervenções cirúrgicas urgentes 44.479 42.150 -2.329 -5,24%
Hospital de Dia
Sessões 531.509 497.706 -33.803 -6,36%
Fonte: ACSS
A maior redução registou-se, de facto, nas ‘consultas presenciais’ nos CS ( - 562.055, portanto mais de 10% acima do número citado pelo ‘Público’). O aumento das consultas não presenciais, por telefone, ao atingir + 298.055, compensou em parte a quebra das primeiras. Todavia, em termos de eficácia de acto médico, há muitas dúvidas que a prestação e o resultado sejam equivalentes – a diferença centra-se no custo destas últimas se restringirem ao valor pago pelo utente pela chamada à operadora de telecomunicações, bastante abaixo da taxa moderadora de € 5.00 / consulta, exigida a muitos beneficiários do SNS.
Por sua vez, e sendo propalada pelo governo a política de prioridade aos ‘cuidados primários’, por recurso aos CS, registou-se também uma redução nos atendimentos de urgências hospitalares, o que aparentemente reflectiria o acolhimento dessa política. Mas, as urgências diminuíram, em relação ao período homólogo de 2011, em – 10,12%, ou seja, - 283.095 episódios, cuja taxa moderadora, à partida, é de € 20.00 euros, podendo atingir € 50.00 euros / doente assistido, no caso de análises e exames complementares de diagnóstico.
Claro que extrair uma conclusão definitiva de uma análise aligeirada aos números da ACSS é correr riscos de erros de interpretação. Todavia, uma pergunta fica no ar: o decréscimo do recurso dos portugueses a consultas presenciais de ‘cuidados primários’ e a ‘serviços hospitalares de urgências’, entendido cumulativamente, é causado pela melhoria do estado de saúde dos portugueses, pese embora o envelhecimento acelerado da população, ou por falta de meios de vastas camadas dessa população para suportar as taxas moderadoras que lhes estão a ser exigidas?
A dúvida exige esclarecimento das autoridades de saúde, em especial do MS e da ACSS, porque a prevalecer a incapacidade de pagar, naturalmente que os indicadores da esperança de vida – 82 anos para mulheres e 79 para homens – regredirão de forma dramática; com o subsequente aumento de óbitos em paralelo com quebras da taxa de natalidade.
Mais saúde ou menos dinheiro? É a pergunta sintética.  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Passos poéticos em falso

Ao som de vaias e fanfarra, para Pedro Passos Coelho, citar poesia é acto de sublime coragem e de demonstração cultural. O dia do município de Cantanhede foi a ocasião em que o primeiro-ministro se socorreu de deturpado verso de José Régio, para afirmar:
“Por aí não podemos ir”
Temos de aceitar que, após a burlesca e hipócrita frase “estou a lixar-me para as eleições”, Coelho já fez progressos de retórica na populista toca onde, com frequência, se refugia. Seria, todavia, mais honesto e atitude de sabedoria pura, se, de facto, tivesse exaltado a  mensagem autêntica do ‘Cântico Negro’ de José Régio; em especial, a última, estrofe, uma nona, que diz assim:
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Mas, pergunto: que coerência pode esperar-se de um mixordeiro da baixa política que, no mesmo evento, acabou por mentir? – O Governo não exige “de mais” ao país - afirmou a falsa criatura.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O silêncio forçado ou pequeno resto dos incêndios

incêndioMenos extensos do que no Algarve e Madeira, mas ainda assim com frentes suficiente amplas para merecer destaque televisivo (SIC), nas passadas 4.ª e 5.ª feira, os incêndios atingiram vastos hectares de montado entre a zona da Tramaga, ao norte da Barragem de Montargil, e os terrenos de Galveias, a alguns km de distância.
Houve zonas florestais devastadas, casas e pequenas produções hortofrutícolas atingidas. Na aldeia onde vivo, Ribeira das Vinhas, a minha casa e as de vizinhos estiveram ameaçadas por um frente ampla de fogo. Valeu-nos o Luís, um jovem da terra, ex-bombeiro, que encaminhou para o terreno atacado pelo incêndio os bombeiros de Torres Vedras, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Arruda dos Vinhos e Lisboa – estou no distrito de Portalegre, diga-se.
Sem o auxílio do Luís, reconheceram os homens das corporações citadas, não teria sido possível extinguir o incêndio e evitar a propagação a casas e áreas de mato e floresta.
Que pensar dos comandos e da coordenação das operações? O melhor é optar pelo silêncio; um silêncio semelhante, mas esse forçado, àquele que me calou o telefone e a Internet – os cabos e postes ficaram destruídos.
Tive de recorrer à compra de uma ‘pen’ para aceder à ‘net’ e reanimar, assim, o meu modesto blogue que tem permanecido em absoluta mudez. Afinal, um pequeno e insignificante resto dos incêndios.

domingo, 15 de julho de 2012

Jardim – diga lá Dr. Menezes, por favor

JardimMenezes
O PM, recolhido na coelheira de Massamá, faz de conta que não ouve nem entende. Afinal, sempre se trata de Miguel Relvas, o amigão, que lhe arranjou maçónicas sedes e apoios de “candidatação”. Do Campo Grande ao ‘Franjinhas’, a Lusófona cedeu do melhor para as panelinhas.
O tema do momento é a licenciatura do Relvas. De distendidas equivalências e ser ‘soutor’ num instante, resta a suspeita se o homem tem uma inteligência fulminante – há quem diga que, do Miguel, o secundário é outro falso fim de itinerário.
As vozes dentro e fora do partido estão em alvoroço, uma espécie de ruído de agrilhoar os ouvidos e estrangular o pescoço.  Jardim, sem ponta de reverência, reivindica agora quatro licenciaturas por equivalência. Umas vez que não se trata do Firmino, que é pequenino, que dirá Menezes sobre tais ambições de quem no partido ‘laranja’ tem poder e cultiva fricções? 
A resposta do autarca de Gaia, creio, será o silêncio, porque sabe que gente de envergadura é coisa dura. A despeito da minha e outras provocações, ficará mudo o Menezes, porque, espertalhão, só fala às vezes. Se errar por precipitação, chora, esconde-se, foge e apanha o comboio ou o avião. Como há anos em Lisboa no Coliseu, onde disparatou, chorou e despediu-se: “Então lá vou eu!”.
A Madeira ainda é ainda mais meridional e ficar calado não lhe parecerá mal.

Simplesmente o pior!

simply the worst
Fonte: Arrested Motion - obra de Neck Face
Quando, dias a fio, desgraças, menores ou maiores, desilusões, contrariedades desfilam e me magoam a valer; quando, portanto, a vida se afunda em contínuas complicações, o melhor é escarrapachar na tela: ‘SIMPLY THE WORST’, contrariando, no silêncio da pintura, o grito histriónico e histérico, ‘SIMPLY THE BEST’, da Tina Turner.
O aldrabão do governante abarbata-me partes substanciais do salário;  sou professor, e outro do governo diz-me que para o ano posso ficar sem trabalho; a empresa da minha mulher fechou há dois anos e ela não consegue novo emprego; os miúdos, Rita e Rui, já se queixam que nos últimos tempos não têm tido as coisas a que os habituámos. Mal, porventura.
Ora, a minha vida está nesta trapalhada e vou para um ‘Rock in Rio’ qualquer gritar com a Tina: ‘SIMPLY THE BEST’? Vou mas é uma porra, é que vou! Onde vou mesmo é ao atelier do artista e, naquele sagrado caos, mudo e sereno, olho para a obra e medito: ‘simply the worst’. E de mim para mim, lamento: “A puta da vida não poderia estar a correr-me pior.”.

sábado, 14 de julho de 2012

Espanha de Rajoy e a liberdade na Europa

democracia em Espanha
Fonte: El País
Esta idosa, no entender das forças de segurança de Madrid, é uma cidadã perigosa e subversiva; capaz de  afrontar a segurança do estado espanhol, ameaçar a estabilidade institucional vigente; e sobretudo a paz da conivência entre Moncloa de Rajoy e o Palácio da Zarzuela, do monarca caçador de elefantes e de elegantes lontras.
A senhora contestou as medidas de austeridade do governo. Deveria tê-las acatado pacífica e patrioticamente. Ainda que tivesse fome.
Ao não obedecer à guarda pretoriana hispânica, expôs-se a riscos. Que são muitos e graves, no podre regime de democracia e liberdade em Espanha, igual ao de outros lugares da Europa; onde, quem ouse defender a preservação dos direitos sociais pode acabar ferido ou detido.
Portugal, diga-se, está mais macio, mas não se furta a esta lógica de repressão. A propósito, é útil lembrar o demagogo-mor, Paulo Portas, em descabelados e mal-intencionados discursos, agora na Madeira – que merda de vírus ou bactéria política existirá na ‘Pérola do Atlântico’?



A Espanha não é Portugal, mas Paulo Macedo já cedeu

manifestações em Madrid
Manifestações em Madrid na noite de 6.ª feira, 13
Segundo a imprensa espanhola, e com destaque para Madrid, em várias cidades registaram-se manifestações de milhares de cidadãos, a despeito da violência das forças policiais. As sedes do PP e do PSOE e as ‘Portas do Sol’ na capital foram os principais locais-alvo para manifestar a contestação das medidas do governo de Rajoy.
Há um número indeterminado de feridos e detidos. Os espanhóis, diga-se, e a História o comprova, são decididos na acção e reduzem a retórica à mínima expressão.
Portanto, a Espanha não é Portugal. A despeito da diferença, e porque cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, o contabilista bancário Paulo Macedo já cedeu alguma coisa perante os sindicatos dos médicos. As contratações à hora continuarão, mas de forma mais limitada e justificada pelo estritamente necessário.
Espera-se que o ministro cumpra a palavra, mas nunca deverá deixar de acreditar-se que, sem formas de luta colectiva eficazes, os trabalhadores e desempregados portugueses, e os cidadãos em geral, atingirão o objectivo de demover o governo de os submeter ao pesado programa anti-social que impende sobre o trabalho e ignora o capital. Como, aliás, acentuou o presidente do TC, juiz Moura Ramos.
A violência não é desejável, mas o risco da mesma vir a eclodir, em Portugal, existe. Apesar de sermos um povo de brandos costumes. Em Espanha, o ambiente social já é suficientemente escaldante; e até as lutas do povo grego, feita a comparação, parecem menos do que banais.