quinta-feira, 26 de julho de 2012

Passos poéticos em falso

Ao som de vaias e fanfarra, para Pedro Passos Coelho, citar poesia é acto de sublime coragem e de demonstração cultural. O dia do município de Cantanhede foi a ocasião em que o primeiro-ministro se socorreu de deturpado verso de José Régio, para afirmar:
“Por aí não podemos ir”
Temos de aceitar que, após a burlesca e hipócrita frase “estou a lixar-me para as eleições”, Coelho já fez progressos de retórica na populista toca onde, com frequência, se refugia. Seria, todavia, mais honesto e atitude de sabedoria pura, se, de facto, tivesse exaltado a  mensagem autêntica do ‘Cântico Negro’ de José Régio; em especial, a última, estrofe, uma nona, que diz assim:
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Mas, pergunto: que coerência pode esperar-se de um mixordeiro da baixa política que, no mesmo evento, acabou por mentir? – O Governo não exige “de mais” ao país - afirmou a falsa criatura.