domingo, 12 de junho de 2011

A propósito da privatização da RTP

Tem sido divulgado que o CDS rejeita a privatização da RTP proposta pelo PSD. O desacordo suscitou desde logo grande inquietação nas hostes 'laranja'; e ainda em meios que lhe são afectos, como é o caso do 31 da Armada, neste caso pela escrita de Nuno Gouveia.
Diz ele que a RTP, em mãos privadas, contribuiria para uma comunicação social mais livre, mais isenta e mais independente, acrescentando, depois, que também serviria para aliviar de pesos do Orçamento Geral do Estado.
Estão, pois, aqui misturadas duas questões de natureza diferente: i) a liberdade e a isenção da comunicação social; ii) a relação da RTP com as finanças públicas.
Quanto à primeira questão (liberdade, isenção e independência), e tomando como exemplo a última campanha eleitoral, a SIC, privilegiando o PSD, deu uma imagem perfeita de falta de imparcialidade - a estruturação e sequência do jornal das 20h foi sistematicamente preparada para até o intervalo exibir reportagens e imagens, muitas vezes desfavoráveis, dos outros partidos e a reabertura do noticiário dava-se com imagens de nítida propaganda e apologia do PSD de Passos Coelho. A TVI, pela voz tendenciosa do Prof. Marcelo, não lhe ficou atrás.
Vamos agora aos números e ao negócio. É verdade que a RTP, ao longo dos anos, tem sido um sorvedouro de dinheiros públicos. Foi nessa estação que Carlos Cruz, José Eduardo Moniz, Manuela Moura Guedes, Judite de Sousa e muitos, muitos outros enriqueceram e enriquecem com chorudos ordenados e não só. A RTP tem uma estrutura pesadíssima, cerca de 400 profissionais de comunicação social, fora outros. É inevitável que, com estes números, a estação televisiva acabe por absorver  milhões (M) de euros anualmente. O Relatório e Contas de 2009, pg. 57, mencionava 237,2 M, verba abaixo dos 300 M citados pelo 31 da Armada.
A SIC, e para que se entenda a onda privatizadora lançada sobre a RTP, regista uma degradação da situação económica e financeira. A Informação da Impresa do 1.º T de 2011 evidencia a queda de 3,1% das receitas da estação de Carnaxide. Como isto já não fosse suficiente, de Mar-2008 para Mar-2009, o EBITDA (Ganhos Antes de Juros, Impostos e Depreciações) desceu de 2.855.894 para 1.623.007 euros; ou seja, uma quebra de 43,17%. Percebe-se que, com estes e outros números, Balsemão esteja preocupado; e tendo sido o 1.º empresário a reunir com Passos Coelho, após a eleição deste no PSD, provavelmente pensará estar na hora das compensações.
Toda esta história da defesa da privatização da RTP está mal contada. Moralizar a gestão da RTP sim! Privatizar a RTP não! Só por ignorância ou deliberada omissão de informação, se poderá  propagandear a eliminação de um serviço público de televisão. A cega aposta na iniciativa privada tem agora dois bons exemplos, o BES e BCP, privadíssimos. No conjunto, precisam de 2,8 milhares de milhões de euros da "troika", dinheiro a pagar pelos contribuintes. E o BCP foi considerado um "case study" a nível internacional. O que sucederia se assim não fosse?