sábado, 29 de dezembro de 2012

Adeus a D. Canô, agora escrito

Ao saber da sua partida a 26 de Dezembro, um dia após a Consoada passada com os sete filhos mais os netos, emocionei-me. Despedi-me de si intima e solenemente.
Senti-me, é óbvio, solidário com a Bethânia e o Caetano. Lembrei a ‘Oração da Mãe Menininha’, cantada com a Senhora e que Dorival Caymmi escreveu assim: 

Oração de Mãe Menininha

Ai! Minha mãe
Minha mãe Menininha
Ai! Minha mãe
Menininha do Gantois

A estrela mais linda, hein
Tá no gantois
E o sol mais brilhante, hein
Tá no gantois
A beleza do mundo, hein
Tá no gantois
E a mão da doçura, hein
Tá no gantois
O consolo da gente, ai
Tá no gantois
E a Oxum mais bonita hein
Tá no gantois
Olorum quem mandou essa filha de Oxum
Tomar conta da gente e de tudo cuidar
Olorum quem mandou e ô ora iê iê ô


Esta ‘oração’ foi criada por Caymmi em honra da Ialorixá (mãe-de-santo) mais famosa do Brasil, de verdadeiro nome  Escolástica Maria da Conceição Nazaré, nascida em 1894. Dirigiu um terreiro, espaço sagrado do Candomblé, em anterior propriedade de um francês, Gantois.
Como senti, de forma intensa, o aroma, a atmosfera e o pulsar de réplicas, reminiscências e pinceladas de África, na cidade mais africana do Brasil, S. Salvador -  coincidentemente com forte imagem portuguesa, no traçado de ruas e casario da 'Baixa do Sapateiro'. E como fiquei a entender que Candomblé é imanente da vida baiana; é impossível viver sem Orixás, divindades ou semideuses criados pelo ‘Ser Supremo’ Olarum.
Eu sou amante fervoroso da Baía, de Dona Canô, de Bethânia, de Caetano, de Jorge Amado, de Vinícius, de Caymmi, de Gal e de muitos, muitos mais baianos que partiram ou permanecem neste mundo. - O que é que a Baía tem? – interrogo-me eu também.
Adeus Dona Canô. Está no Céu, de certeza. O poeta Manuel Bandeira imaginaria deste modo a chegada: “São Pedro disse: - entre Dona Canô, a Senhora não precisa de pedir licença.-”