quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Medina da memória selectiva

As conversas de casino, na Figueira da Foz, conduzidas por Fátima Campos Ferreira, constituem, penso eu, uma iniciativa revivalista das Conferências de Casino do XIX, organizadas por Antero de Quental.
Discutem-se os temas mais polémicos da vida do País; e polémica acima de tudo, nada melhor que convidar para a mesa um Medina Carreira - ao jeito do anúncio: "Foi você que pediu um Porto Ferreira?". Em vez de Porto Ferreira, e porque se tratava de conversa e as bebidas eram mera companhia, Fátima Campos Ferreira lá serviu um Medina Carreira.
Medina fala muito. Sempre acusador, fala mesmo que se farta mas tem uma memória selectiva. Com estilo de detentor único da verdade, lançou para a plateia dois juízos interessantes
  1. "Estamos com as baterias contra o dr. João Jardim (...), mas temos muita gente que à frente dele devia sentar-se no banco dos réus. As pessoas que puseram este País no estado em que está deveriam ser julgadas";
  2. "Os governantes dos últimos dez anos deveriam ser julgados pelo estado em que deixaram o país".

No que respeita a Alberto João Jardim, confesso a minha perplexidade. O que justifica que Medina, um duro intransigente, possa ser complacente com "as irregularidades graves" -  assim tal qual classificadas por Passos Coelho - do truculento político madeirense? Medina Carreira lá terá as suas razões, mas não consigo descortiná-las.
Quanto ao julgamento dos últimos dez anos, apraz-me registar o distanciamento partidário de Medina. De facto, em tal período, cabem lá os 'rosas' José Sócrates, Teixeira dos Santos, Mário Lino, Maria de Lurdes Rodrigues, Correia de Campos e outros, mas também os laranjas Durão Barroso, Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite e os centristas Bagão Félix (défice de -6,1% em 2005) e Paulo Portas.
Contudo, quanto à amplitude rigorosa do prazo, 10 anos, julgo oportuno perguntar: por que razão 10 e não 35 anos? Ele terá igualmente os seus motivos, mas neste caso aventuro-me a uma opinião: Medina Carreira foi Ministro das Finanças do I Governo constitucional em 1977 e também deixou um défice de -2,9 % - valor reduzido, dirão alguns, mas até Sócrates e Teixeira dos Santos, quais "ratos Mickey"!, conseguiram melhor em 2007, ou seja, -2,6% do PIB.
Com estes resultados na frente, pergunto a Medina Carreira: não seria mais justo pedir o julgamento dos governantes dos últimos 35 anos? Certamente, penso eu. O pior é que, quando o processo judicial encerrasse pleno de inocentes daqui a outros 35 anos, muitos de nós, e deles!, já por cá não andaremos. Com efeito, o Sistema de Justiça do País, em termos de eficiência e eficácia, e intenções deste tipo do PGR merecerem-me total cepticismo quanto a resultados.