quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Daqui Ricardo Salgado, fala a voz da soberba

De súbito, na ante-câmara da sala de conferências, surgiu Ricardo Salgado. De cabelo bem penteado, risco desenhado a preceito, rectilíneo.

ricardo salgadoO grupo de presentes, a maioria jovens repórteres dos jornais, rádios e TV’s, emudeceu em uníssono – vinha aí o banqueiro, o devotado patriota, muito amigo de Portugal, mas ainda mais do dinheiro.
Em tom grave e seguro, Salgado saudou os escribas e falantes. Um deles perguntou:
“Sr. Doutor – doutor soletrado milimetricamente, diga-se – já ouviu as opiniões do Dr. Bagão Félix sobre a inconstitucionalidade do Orçamento Geral do Estado para o próximo ano? “
Salgado, de voz soberba e esquivando-se a citar Bagão, pronunciou-se lá nas alturas, como personagem divinizada:
Mais adiante, reforçou:
"Tudo o que seja lançar dúvidas sobre o Orçamento não vai facilitar a nossa vida em relação ao aspecto que os preocupa a todos e a nós também, o mercado."
É isso: o grave problema do País é o mercado; sim, ainda para mais, essa gentalha que anda por aí a trabalhar alguma coisa ou sem emprego, a manifestar-se constantemente, peca por ignorar o mercado, o divino mercado. Mesmo com um orçamento carregado de ilegalidades, o OGE 2013 é de aplicação obrigatória. O governo tem o poder de legalizar as ilegalidades que comete e nós a obrigação de levar com os impostos no lombo, como diria o finíssimo Coelho.
Colocou os olhos no vago, calou-se, mas percebeu-se que pensou:
“Os miúdos que chegam à escola com fome que peçam um naco de pão, mesmo duro, ao colega para meter qualquer coisa na barriga… e os pais deles, sem rendimentos para pagar liquidar as rendas de casa ou prestações ao banco, que se matem… como aqui ao lado, em Espanha.”
De seguida, retirou-se para a sala de conferências. Com o ar de quem tem o mundo nas mãos; ou com “cara de que todos lhe devem e ninguém lhe paga”, como diz o povo.
Salgado, hoje coladíssimo ao governo de Passos, é dos principais responsáveis pela dívida externa portuguesa, pública e privada, em resultado de PPP, financiamentos e consórcios que o BES incentivou e integrou no tempo de Sócrates. Isto, sem contar com benefícios em negócios sectoriais, como na PT ou na Saúde em que o Hospital da Luz tem o privilégio de uma convenção com a ADSE e, não me custa a admitir, com outras entidades financiadas por dinheiros públicos.