sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Infarmed e o consumo de tranquilizantes em Portugal


O Infarmed não soluciona a falta no mercado de medicamentos essenciais para doentes crónicos, mas faz estudos. Também estes se revelariam úteis se não se ficassem apenas pelo óbvio, sem cuidar de investigar e divulgar causas científicas.
Agora, segundo o ‘Público’, comparativamente apenas à Dinamarca, Itália e Noruega, esta última nem é membro da União Europeia, descobriu que Portugal os supera no consumo de medicamentos para a ansiedade e a insónia. Trata-se de um caso “importante de saúde pública”, assim classifica a investigadora do Infarmed, Cláudia Furtado. E é, confirmo eu.
Álvaro Carvalho, um psiquiatra muito mediático através do caso ‘Capa Pia’ e agora coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental, também afina pelo mesmo diapasão: confirma o incremento do consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, sem fazer igualmente a mínima referência às causas que o determinam.
Quem não esteve com meias medidas, a reagir a estudos e afirmações sem profundidade sobre as causas de patologias e dependência crónica de tranquilizantes, foi a presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Luísa Figueira. Certeira e sem rodeios, afirmou:
“Este é um problema demasiado complexo para se analisar apenas com uma série de números.”
Se no Infarmed, em vez de recenseamentos, se dessem ao trabalho de investigar a fundo, poderiam seleccionar os temas como Epidemiologia do uso de medicamentos ansiolíticos e hipnóticos em França e no mundo’ da PublMed.gov, ‘Saúde mental: fortalecendo a nossa resposta’ da OMS e outras publicações em revistas e trabalhos científicos.
Chegariam, inevitavelmente, à sondagem das causas da dependência crescente de populações de tranquilizantes: factores de morbidez e somáticos, como efeitos naturais do envelhecimento, e em idades menos avançadas os motivos de ordem biológica associados a fortes pressões de ordem socioeconómico, estas geradas pela crise económica e financeira. Só que invocar esta última razão, perante o ministro ex-bancário Macedo e seu governo, não seria politicamente correcto; ou seja, na definição de um jovem australiano citado por Miguel Sousa Tavares, o ‘politicamente correcto’ imporia o saber pegar num pedaço de merda pela parte limpa. É muito complicado, além de um sarilho para 'carreiristas'.