domingo, 30 de março de 2014

“Crimes” blindados contra a prescrição

Parte substancial dos políticos ofende diariamente o País e os cidadãos. Da direita, então, sopra há anos uma contradição insanável, instrumentalizada com a célebre frase ‘menos Estado, melhor Estado”. Jamais assim agiram, e se nos dessemos ao trabalho de contar o número daqueles que, defensores do pregão, têm elevadas e abjectas pensões do Estado, em especial da AR; ou os gestores públicos que, a despeito do neoliberalismo talhado à medida de espúrios interesses, continuam a ser pagos com salários de 12.000 a 14.000 mensais, mais carros e ‘fringe benefits’ generosos; se nos dessemos a esse trabalho, dizia, concluiríamos que a horda de oportunistas é enorme.
O PR vai a caminho de 20 anos de actividade política, tendo sido o grande iniciador das majestáticas obras públicas, do processo de desindustrialização, de cortes na produção agrícola e abates da frota pesqueira. A história é repetida demasiadas vezes, mas como Cavaco Silva nega a autoria do arranque do período desastroso que, na actualidade, nos definha, também temos de nos enlear na repetição da história.
Converteu-se há uns anitos à doutrina do investimento na área dos ‘bens transaccionáveis’. Propagandeei-a de ar inocente. Ilude os menos atentos, ao omitir que, como governante, deu preferência às grandes obras públicas, mandou alienar empresas, criou desinvestimento e deslocalização de produções para o estrangeiro – o sucesso da AutoEuropa, sempre dependente do exterior, não oculta tudo o que se fez ao grupo CUF, à Siderurgia Nacional, à Covina, às indústrias vidreiras na Marinha Grande ou aos lanifícios da Covilhã.
Outro círculo, largo e em muitos casos obsceno, é formado pelos autarcas de carreira – 25 anos de autarca é obra! Cria vícios, tende a cimentar lideranças de pesporrência. Mas, agora que a lei mudou, o divino declarou: - Deixas de ser presidente de câmara, mas tem calma, arranja-se um lugar na Europa.
Fernando Ruas é uma dessas figuras. Talvez jamais tenha lido uma linha de qualquer tratado da UE – com o de Lisboa o homem ficaria tonto. Ignorar não é importante para esta gente. Certo, certo é que merece o Parlamento Europeu, como um católico cumpridor merece o céu.
Fernando Ruas, de resto, já é um abençoado na terra. Nasceu e há-de partir de cabelo e bigode pretos. O bloguer, entendeu o tribunal, terá passado das marcas, e “crimes” de cidadãos anónimos estão blindados contra a prescrição. Se fosse em sentido inverso – e de que maneira os políticos nos ofendem diariamente! – então, sim, a prescrição era inevitável.
Que justiça é esta, amigos?