terça-feira, 4 de março de 2014

Lagarde, a habitual demagogia segundo as audiências


Christine Lagarde participou em Espanha, país com taxa de desemprego de 25,8%, num ‘fórum económico’. Além de vestida modelarmente por um dos famosos estilistas da actualidade, de adereços de luxo e mala ‘Louis Vuitton’, na bagagem, como sempre, não lhe faltou a habitual demagogia (esta deixo-a para as considerações de Max Weber).
No estilo teatral que lhe é próprio, e dando sentido ao comportamento demagógico que cultiva, afirmou:
“Reduzir salários não é única solução para baixar custos laborais”
De imediato, salta-me uma dúvida: a diferença conceptual e pragmática entre “salários” e “custos laborais”. Seria certamente matéria para um confronto dialéctico, porventura árido mas intenso, que adio para uma próxima oportunidade, quando tomarmos chá no ‘George V’.
Igualmente com o mesmo imediatismo, mas sem adiamento, pergunto a Christine Lagarde: - Por que razão o seu subalterno Subir Lall, membro do FMI na ‘troika’, defende para Portugal descidas de salários, a par de reformas e pensões dos portugueses que são dos mais mal pagos na UE28? – e continuando a questioná-la – Explique como é possível criticar a descida de salários e contratar para os quadros do FMI e exultar as qualidades de Vítor Gaspar que foi o MF que mais profundamente decapitou os salários dos portugueses, através de medidas fiscais e outros mecanismos sem paralelo na história da fiscalidade nacional.
A cosmopolita Lagarde, na função de Directora-Geral do FMI, em cada país, comunica aquilo que as audiências gostam de ouvir, sem a menor sensibilidade para o estado de pobreza, miséria e carências de grandes contingentes humanos no mundo inteiro.
O que está em causa, à escala universal, não é a mera questão dos níveis salariais. É sobretudo o domínio exercido pelos homens do ‘poder financeiro’, a distribuição da riqueza e as desigualdades que atingem gravemente os povos, fora as elites, de todos os azimutes.
Para finalizar, limito-me a reproduzir um legado de Hannah Arendt:
ISTO É, ESCREVIA HANNAH ARENDT, UMA SOCIEDADE DE TRABALHADORES QUE VAI ENTREGAR CADEIAS DE TRABALHO E ESTA SOCIEDADE NÃO SABE MAIS NADA DAS ACTIVIDADES MAIS ELEVADAS E DE MAIOR ENRIQUECIMENTO PARA AS QUAIS VALERIA A PENA GANHAR ESTA LIBERDADE… ISTO QUE TEMOS DIANTE DE NÓS, É UMA PERSPECTIVA DE UMA SOCIEDADE DE TRABALHADORES SEM TRABALHO, ISTO É, PRIVADAS DA ÚNICA ACTIVIDADE QUE LHES RESTA. NÃO SE PODE IMAGINAR NADA DE PIOR.
É o desafio de transformação a favor da Humanidade, implícito neste pensamento de há mais de 40 anos, que os políticos no poder, mulheres ou homens, nacionais ou supranacionais, se recusam obstinadamente a debater quanto mais a empreender.