terça-feira, 12 de julho de 2011

Conversa da treta

Van Rampuy e Passos Coelho  
Estas duas sumidades encontraram-se hoje em Lisboa para debater Portugal, a Europa e o Euro. Ignora-se o que falaram. Contudo, pelos relatos da imprensa, imagino ter sido uma 'conversa da treta'.


"As medidas da UE são positivas, mas podem não ser suficientes"

Que medidas adicionais pensa o Senhor Primeiro-Ministro tomar? Sabendo da sua veia neoliberal e anti-social, não é descabido desconfiar da obstinação por políticas tendentes a aumentar os 18% de taxa de pobreza da população portuguesa, a qual,  sem ajuda das prestações sociais do Estado, atingiria 43%.
O Boletim de Verão de 2011 do Banco de Portugal prevê dois anos consecutivos de recessão, quebra de 2,0% do PIB em 2011, admitindo-se que o número de desempregados até 2012 seja incrementado de 100.000 cidadãos. Com o zelo de ser mais austero do que o programa da 'troika', as anunciadas alterações à 'legislação laboral' e, eventualmente, novas medidas de austeridade fiscal, o actual PM colocará centenas de milhares de cidadãos e o País a viver ainda pior.


"Não é só cortar o défice, é preciso fazer crescer a economia"

Juro que estas palavras me confundiram. Imaginei que fossem de Jerónimo de Sousa ou de Francisco Louçã. Mas não, foram mesmo da autoria do Presidente do Conselho Europeu; sim do Conselho Europeu, órgão cimeiro da UE que, através da Comissão e do BCE, integra com o FMI a troika da famigerada "ajuda", cuja órbita está traçada justamente à volta da redução do défice, da reabilitação da banca e do abandono da economia à má sorte dos aumentos do IVA, da recessão, das falências e do desemprego em catadupa. Como é que este Sr.Rampuy combina a política recessiva do défice com crescimento económico?  

Enfim, a conversa entre o Van e o Coelho trouxe-me à memória "as conversas da treta" de Pedro Gomes e do malogrado António Feio; porém, essas divertiam. 

(Nota: Para terminar este dia europeu do desencanto, mais um, soube-se ao final da tarde que a  Moody's atribuíu a classificação de 'lixo' à Irlanda. O descalabro europeu não pára. A lixeira está pronta a receber outros resíduos fedorentos).