quinta-feira, 28 de julho de 2011

De espião a espiado

Jorge Silva Carvalho, ex-director do SIED (Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa), após o abandono do cargo, alegada e em parte confessadamente, disponibilizou à Ongoing, de Nuno Vasconcelos, dirigida por José Eduardo Moniz, informações sobre matérias que, imagina-se, se identificam com interesses do Estado.  Tais informações conduziram à rejeição por Pedro Passos Coelho do famigerado Bairrão para o cargo de Secretário de Estado da Administração Interna.
O 'Expresso', confirmado pelo director Ricardo Costa, revelou a transmissão de "informações secretas" à Ongoing. Jorge Carvalho mandou instaurar processo judicial contra o semanário, com a assistência do conhecido advogado 'laranja', Nuno Morais Sarmento.
Feita a catarse das notícias vindas a público, conclui-se ser uma guerra entre dois grandes grupos de comunicação social e respectivos líderes: Ongoing e Nuno Vasconcelos, por um lado, e Impresa e Francisco Pinto Balsemão, por outro.
Conclusão: é um agudo conflito entre dois homens de negócios que, odiando-se, trazem para as páginas dos jornais uma disputa que, pensando friamente, interessa sobretudo aos próprios e apenas indirectamente aos cidadãos. E sublinho o indirectamente, porque, para a generalidade dos portugueses, o que está em causa é, no fundo, a privatização da RTP e as consequências daí resultantes para a seriedade da informação em Portugal, já hoje debilitada pelos alinhamentos da televisão pública. Privatizada, tornar-se-á mais um meio vulnerável à facciosidade - lembre-se o comportamento de Moniz ao tempo dos governos de Cavaco.
Que o espião passe a espiado é, pois, secundário e até digno de gozo. A verdade é que a querela é determinada por interesses de negócio e  dinheiro. Ou seja, uma espécie de 'materialismo dialéctico' travestido de 'lobbies' laranja, em que aqueles com direito a informação fiável e imparcial são apenas escória desta incandescente (con)fusão de metal sonante.